Professora de Comunicação da UFMG analisa a tentativa da mídia conservadora em tentar “domesticar” o presidente Bolsonaro

GLOBO, BOLSONARO E O ESCÂNDALO DO LEITE CONDENSADO

Por Ângela Carrato, especial para o Viomundo

A mídia corporativa brasileira está sendo literalmente atropelada em seus propósitos de “domesticar” Bolsonaro.

Ela simplesmente perdeu o timing.

Mesmo a TV Globo, o principal desses veículos, tendo escondido de seus telespectadores o recente (mais um) escândalo do atual governo — o gasto de R$ 1,8 bilhão, sendo que R$ 15,6 milhões apenas com leite condensado — o assunto veio à tona.
E de forma explosiva.

A revelação se deve ao trabalho da mídia alternativa (portais, sites e TVs na web) que fez o que qualquer veículo de comunicação digno desse nome deveria fazer: acompanhar os gastos oficiais por intermédio do Portal da Transparência, divulgar e veicular as reações do governo e da sociedade.

Foi no Portal da Transparência que os jornalistas da mídia alternativa se depararam com cifras bilionárias envolvendo despesas com alimentação no governo Bolsonaro.

Além dos já citados R$ 15 milhões com leite condensado, foram gastos mais de R$ 1 milhão com alfafa, R$ 2,2 milhões com chicletes e R$ 32,7 milhões em pizzas e refrigerantes.

E novos gastos, igualmente estranhos e exorbitantes, num país em crise, sem vacina e oficialmente sem dinheiro para bancar auxílio emergencial aos mais pobres, continuam aparecendo.

O PIOR ATAQUE

Ao invés de explicar as tais compras, Bolsonaro atacou a mídia e o Portal da Transparência ficou fora do ar por muitas horas, numa espécie de confissão oficial de culpa.

Criado a partir de uma lei aprovada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2004, o Portal da Transparência é um site de livre acesso, no qual qualquer pessoa pode encontrar informações sobre como o dinheiro público é utilizado.

Em outras palavras, como tantas outras informações sobre a gestão pública, essas estavam lá. Só que a mídia corporativa, como faz sempre que lhe é conveniente, preferiu não ver.

Durante almoço com ministros, apoiadores e cantores sertanejos em uma churrascaria em Brasília, nesta quarta-feira (27/01), Bolsonaro mencionou o fato e desferiu o pior ataque, dos quase 500 que fez à imprensa até agora, segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

O presidente mandou, aos gritos, a imprensa “à puta que pariu” e chamou-a de “merda”. Ele ainda acrescentou: “É para encher o rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condensado”.

Os gastos, a postura e as palavras de Bolsonaro, de imediato, já lhe renderam um novo pedido de impeachment, protocolado por seis partidos – PT, PC do B, PSOL, PSB, Rede e PDT.

É o 64º a integrar a pilha que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um dos “queridinhos” dos donos do Grupo Globo, preferiu desconsiderar nos dois anos de sua gestão, que agora chega ao fim.

PERIGO PARA O MUNDO

O novo destempero de Bolsonaro teve repercussões imediatas tanto aqui quanto no exterior.

Colocou água no moinho de nomes menos alinhados ao Palácio do Planalto nas disputas pela presidência da Câmara e do Senado, cujas eleições acontecem na próxima semana.

Turbinou movimentos sociais e partidos de oposição que já tinham previsto para as próximas semanas uma série de atividades (buzinaços, apitações, carreatas e manifestações nas redes sociais) em defesa do impeachment de Bolsonaro.

No exterior, o novo escândalo, associado à falta de vacinas, ao fato de o Brasil ultrapassar os 220 mil mortos por covid-19 e ao caos sanitário reinante em várias cidades brasileiras, está contribuindo para ampliar ainda mais o isolamento do país, afastando daqui qualquer tipo de investimento e motivando novas e mais duras reportagens detonando o tosco ex-capitão negacionista e sua equipe.

No último domingo (24), The Guardian, o mais influente jornal inglês, descreveu Bolsonaro como o maior perigo para o mundo na atualidade, depois do fim da era Trump, nos Estados Unidos.

A imagem que se tem de Bolsonaro nas mais diversas áreas do planeta em nada fica a dever à dos terríveis ditadores latino-americanos tão bem descritos em suas reportagens e romances pelo colombiano Gabriel Garcia Márquez, prêmio Nobel de Literatura, em 1982.

É importante destacar ainda a contribuição de Biden para detonar Bolsonaro.

Depois de sua porta-voz anunciar que não existe agenda para o presidente brasileiro nos próximos seis meses e do próprio Biden, num dos seus primeiros atos, mencionar a Amazônia e a necessidade dela ser defendida, como já havia feito durante a campanha eleitoral, a classe dominante brasileira entrou em pânico.

Como ressalta o ex-chanceler Celso Amorim, se existe algo que essa elite do atraso não suporta é imaginar que possa ter algum tipo de atrito com os Estados Unidos.

E Bolsonaro não é mero atrito. É uma crise sem retorno, mesmo que ele e sua equipe já tenham dado mostras que estão dispostos a rastejar para Biden, mesmo tendo seguido Trump até o abismo.

O problema é que para Biden e seus eleitores, qualquer aproximação com Bolsonaro é inaceitável.

DESCONSTRUIR BOLSONARO

Trocando em miúdos, a classe dominante brasileira, que vinha se valendo de Bolsonaro para fazer o serviço sujo contra o país e a maioria da população, percebeu que é chegada a hora de começar a desconstruí-lo.

O grande desafio é se haverá tempo suficiente para substituí-lo por outro nome que signifique a continuação do fracassado, antipopular e antinacional projeto neoliberal que apoiam antes que as ruas e praças públicas acordem.

É essa substituição controlada que, em recente artigo aqui no Viomundo, denominei de “fórmula Biden”. É exatamente ela que agora se vê ameaçada.

Apesar da notícia (acompanhada do vídeo com a fala de Bolsonaro no evento na churrascaria) estar bombando nas redes sociais, com os apoiadores do “Mito” desnorteados e sem argumentos para rebater as críticas, o Jornal Nacional, principal noticiário da TV brasileira, até agora não tratou do assunto.

Em uma espécie de mensagem cifrada na quarta-feira, a gastança oficial com guloseimas apareceu apenas de forma implícita, na referência a “uma reunião em Brasília”, na qual Bolsonaro teria desdenhado do mais recente pedido de impeachment feito pela oposição.

“Não vai dar em nada”, teria dito, garantindo que governará até o final de seu mandato.

O JN igualmente não noticiou que vários parlamentares de oposição já se mobilizam para pedir a abertura da CPI do Leite Condensado.

Até porque essa gastança leva todo o jeito de acobertar superfaturamentos e privilégios para amigos e amigos dos amigos, civis e militares. Os fornecedores, por exemplo, discordam dos valores pagos pelo governo e das quantidades oficialmente adquiridas.

Em toda a história republicana brasileira, aliás, Bolsonaro é o presidente que mais pedidos de impedimento acumula.

A rigor, ele infringiu todos os artigos da lei 1079/1950, que define os crimes de responsabilidade e regula o respectivo processo de julgamento.

Nem assim, a mídia corporativa até o momento se dignou a tratar o assunto com a gravidade e a importância que merece.

Mas sendo notícia ou não, o impeachment de Bolsonaro está na ordem do dia e isso é um problema para essa mídia.

ERRO DE CÁLCULO

Se a semana passada foi marcada por panelaços, buzinaços e carretas nas principais capitais e mesmo em inúmeras cidades do interior, nas próximas semanas essas manifestações vão se repetir e incluir dezenas de países, a começar pelos Estados Unidos, onde o movimento internacional #StopBolsonaro, promete ser dos mais robustos.

Como partícipe direta do golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, e defensora da condenação e prisão (sem provas) do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, a fim de tirá-lo das eleições, a mídia corporativa brasileira sabe que tem enorme culpa no cartório e está às voltas para tentar desvencilhar sua imagem da de um governo que faz água por todos os lados.

Quando os principais jornais brasileiros consideraram “uma escolha difícil” no segundo turno das eleições de 2018, a opção entre um despreparado ex-capitão, defensor da ditadura e da tortura, e um professor humanista e com capacidade comprovada na gestão pública, não poderiam imaginar que a fatura pelo estelionato que cometeram chegaria tão rápido.

O golpe minuciosamente planejado com a decisiva participação da mídia corporativa brasileira esperava durar pelo menos duas décadas.

Em pouco mais de quatro anos, naufraga, sem que seus líderes tenham encontrado alguém que lhes seja confiável para substituir Bolsonaro, pela via que for.

E manter Bolsonaro está cada dia mais difícil.

Se em 1991 o patriarca Roberto Marinho pode vangloriar-se de ter sido o principal eleitor do desconhecido Fernando Collor, e, dois anos depois, comemorar o papel dos seus veículos de comunicação na renúncia do presidente (para escapar ao impeachment), a situação de seus herdeiros alterou-se radicalmente.

A deposição de Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto depois de 21 anos de ditadura, aconteceu em meio a um processo de otimismo.

Não havia pandemia, não havia milhares de mortos. Não havia desemprego recorde, não havia no Brasil um processo de desindustrialização sem paralelo no mundo, não havia uma entrega tão descarada do país aos interesses estrangeiros, não havia desesperança em relação ao futuro, como agora.

A TV Globo, mas também os jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, estimularam as manifestações populares que levaram à renúncia de Collor e faturaram com isso.

A família Marinho, por exemplo, conseguiu, em grande medida, substituir a negativa imagem de apoiadores de ditaduras que possuía, pela de simpática estimuladora de jovens cara-pintadas que foram às ruas exigir o fim daquele governo.

O cacife de Roberto Marinho aumentou tanto que não é nenhum exagero dizer que ele passou a encarnar o tal quarto poder atribuído à mídia. Para alguns, aliás, ele seria até mesmo o primeiro poder.

SILENCIAMENTO

Mais uma vez, a mídia brasileira que historicamente sempre esteve à frente das mentirosas campanhas de desestabilização contra os poucos governos progressistas que existiram no país – a exemplo de Getúlio Vargas e João Goulart – dava a volta por cima e sobrevivia aos golpes que ela mesma patrocinou.

A situação agora se mostra bem mais complexa. Pela primeira vez em 55 anos de existência, a TV Globo consegue despertar tanto a indignação da direita quanto a da esquerda.

Seu faturamento cai. Ela tem sido obrigada a demitir, cortar salários e tem perdido nomes para os concorrentes, em especial a CNN-Brasil.

A Globo está se transformando em inimiga de todos e isso talvez explique o nervosismo e os erros, cada dia mais frequentes, da dupla de apresentadores do JN, Willian Bonner e Renata Vasconcellos.

Mesmo assim, não se deve subestimar a margem de manobra que o Grupo Globo ainda dispõe.

Tanto que o jornal Valor Econômico costuma publicar informações que jamais são estampadas em O Globo e a rádio CBN divulga notícias que nunca são veiculadas pela Vênus Platinada. Tudo de olho nos respectivos nichos de público.

Mais ainda. Na maioria das vezes, uns veículos que compõem o Grupo Globo são cuidadosamente orientados para criticarem Bolsonaro e denunciarem sua família, enquanto outros apoiam ou passam pano para o Jair.

Num ponto, no entanto, a estratégia de todos os veículos do Grupo Globo é a mesma: desde 2016 silenciaram por completo o PT, suas principais lideranças a começar por Lula e Dilma, cassaram a voz dos demais partidos de esquerda, ao mesmo tempo em que tentam apagar da memória dos brasileiros o desenvolvimento que o país alcançou entre 2003 e 2014, último ano em que Dilma governou antes de começar a ser sabotada pelos golpistas, Globo à frente.

Esse silenciamento chegou a níveis tão absurdos, a ponto do JN jamais fazer qualquer comparação entre os governos de Temer e Bolsonaro e os de Lula e Dilma que os antecederam.

Comparações que, se feitas, em qualquer setor, da economia à política externa, da educação e saúde ao meio ambiente, jogariam por terra o discurso de desenvolvimento ou mesmo de retomada do crescimento que através de jornalistas como Merval Pereira, Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg os herdeiros de Roberto Marinho tentaram emplacar.

MISSÃO IMPOSSÍVEL?

Merval e Leitão tardiamente engrossam o coro dos que defendem o impeachment para Bolsonaro, mas não se viu qualquer autocrítica da parte deles. Logo eles que, alinhados aos seus patrões, sempre cobraram autocrítica aos petistas e à esquerda.

No caso de Leitão, ela e família foram pessoalmente beneficiados pelo golpe de 2016.

Haja vista as relações que estabeleceu com o então juiz Sérgio Moro, sobre quem seu filho escreveu um livro baba-ovo. Já sua nora acabou sendo assessora de comunicação de Moro, quando ele esteve no ministério da Justiça.

De tudo isso se pode obter mais pistas para entender as idas e vindas da Globo em relação a Bolsonaro.

Na terça-feira (26), quando as denúncias da gastança de Bolsonaro já tomavam as redes sociais, o JN optou por dar-lhe espaço para se comprometer com as reformas Administrativa e Fiscal, além da promessa de acelerar as privatizações.

Significativamente, no mesmo dia, o então presidente da Eletrobras, uma das diversas empresas estatais que a dupla Bolsonaro-Guedes quer privatizar, anunciou que está deixando o cargo.

Nos últimos dias não tem faltado relatos de que, preocupado com o relacionamento entre o governo e a mídia, o ministro das Comunicações e genro do dono do SBT, deputado Fábio Faria (PSD-RN) estaria negociando para destensionar as relações entre o ex-capitão e os irmãos Marinho.

Verdade ou não, o certo é que depois do que Bolsonaro disse sobre a mídia na churrascaria em Brasília, essa missão se tornou quase impossível.

Seja como for, retomar o timing em meio a toda essa crise não está fácil para Globo e para a mídia corporativa brasileira.

Seus proprietários não confiam no vice Hamilton Mourão, que tem emitido sinais contraditórios sobre a sua lealdade e a das Forças Armadas a Bolsonaro.

Os donos da mídia também estão longe de um acordo sobre o melhor caminho para despachar Bolsonaro e também sobre o melhor nome e a forma mais adequada para substituí-lo.

Os “queridinhos” dos Marinho, do governador tucano João Dória ao apresentador Luciano Huck, estão distantes de qualquer unanimidade.

Pior ainda: estão longe de serem vistos como pessoas com condições mínimas para conseguir tirar o país da maior crise de sua história republicana.

A falsa oposição que a Globo tentou criar entre Bolsonaro e Dória não deu certo. Não há vacina e ambos, por diferentes razões, são criticados e responsabilizados.

É dentro desse contexto que até para setores conservadores, o nome do melhor presidente da história do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, volta a ser lembrado.

Lula, que teve covid e passou o último mês em Cuba, onde se recuperou e é personagem principal de um documentário que o consagrado diretor de cinema estadunidense Oliver Stone, está fazendo, prudentemente encontra-se na muda.

Não se sabe nem mesmo se ele, uma vez inocentado pela Justiça, o que fatalmente acabará acontecendo, estará disposto a contribuir para construir essa transição ou, ele próprio recolocar o Brasil nos trilhos.

O certo é que foi outro Lula, Nelson Mandela, querido e reconhecido pelo povo, que a elite sul-africana teve que recorrer quando se viu perdida e sem credibilidade para propor o que quer que seja para o seu país.

A elite brasileira, donos da mídia incluídos, acredita que ainda está longe desse ponto. Mas a aceleração da crise pode não lhe deixar outro caminho.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG