Luiz Carlos Azenha, editor-chefe do site Viomundo, publica o  artigo “A mídia brasileira e o labirinto autoritário”, da jornalista Ângela Carrato onde ela analisa a crise da imprensa brasileira. Carrato observa que se os jornalistas brasileiros tivessem agido como os do La Nación, que repudiaram  editoral do jornal à favor de anistia aos militares que mataram e torturaram na ditadura da Argentina -, dificilmente estaríamos neste fundo do poço.

Leia a íntegra do artigo:

A MÍDIA BRASILEIRA E O LABIRINTO AUTORITÁRIO

por Ângela Carrato, especial para o Viomundo

Em pouco mais de 24 horas, dois episódios envolvendo a mídia comercial brasileira dão bem ideia do fundo do poço a que o setor chegou. E o Brasil, também.

O primeiro foi um calhorda editorial publicado pela Folha de S. Paulo, no sábado (22/08), no qual iguala a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ao atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Ela, uma mulher honesta e que foi torturada, e ele um defensor da tortura e chefe de um clã mergulhado em denúncias de corrupção.

O segundo foi a explícita ameaça de violência física de Bolsonaro contra um repórter do jornal O Globo que lhe indagou as razões pelas quais sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil em depósitos feitos pelo ex-assessor Queiroz, em sua conta bancária.

Ao invés de responder, Bolsonaro, que visitava a Catedral de Brasília, disparou: “a vontade que eu tenho é de encher sua boca de porrada”. E ainda emendou: “seu safado”.

Nos dois casos, as redes sociais se manifestaram de forma intensa.

Ao longo de todo o sábado, a ex-presidente Dilma recebeu apoio e solidariedade de seu partido, dos partidos progressistas, além de artigos em blogs, sites e lives na mídia alternativa, dedicados a colocar os devidos pingos nos is.

A própria Dilma foi contundente ao rebater, com dados e fatos, o editorial, deixando claro que falava do grupo econômico Folha, e não de jornalistas.

Igualmente contundente foi a resposta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao frisar que se tratou de “uma ofensa à presidenta Dilma Rousseff, uma agressão à verdade histórica e um desrespeito, mais um, aos leitores do jornal e à sociedade brasileira”.

Lula lembrou da relação do grupo Folha com a ditadura de 1964, quando carros da empresa foram utilizados para transportar presos políticos, sem levantar suspeitas.

Em outras palavras, a Folha tem tudo a ver com Bolsonaro e sua defesa da ditadura e dos torturadores.

Já a mídia comercial fez silêncio, como se o assunto se limitasse a uma questão de opinião do matutino paulistano sobre Dilma e Bolsonaro.

No final da tarde e noite do domingo, as redes sociais foram tomadas por jornalistas e usuários que se uniram para ecoar a mesma pergunta do repórter de O Globo em seus perfis.

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O Fantástico abordou o assunto, mas sem imagem do acontecido.

Os âncoras descreveram o fato para os telespectadores e, em seguida, leram notas de apoio de entidades como a OAB, ANJ e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Leram igualmente a nota de repúdio do Grupo Globo, dizendo que seus repórteres continuarão perguntando o que for preciso e do interesse da opinião pública aos governantes.

Nota que está longe de espelhar a postura que o grupo adota.

O site UOL, do Grupo Folha, repercutiu a agressão verbal, sem maiores destaques. Nada de manchete. Apenas um espaço no canto esquerdo do site, no qual além da opinião de alguns articulistas, assinala que Bolsonaro divulgou vídeo com apoios.

Agora cedo, subiu o assunto para a manchete.

O que esses episódios têm em comum?

Do ponto de vista do conteúdo, nada. Mas eles praticamente se igualam quando se trata da mídia comercial brasileira estar colhendo o que plantou.

LINCHAMENTO MIDIÁTICO

Desde 2005, mais precisamente das denúncias envolvendo o Mensalão – eram dois, mas o Tucano foi abafado e prevaleceu apenas o Petista -, que a mídia comercial brasileira deixou de cobrir os acontecimentos e transformou-se em parceira da acusação.

TV Globo, jornal O Globo e Folha de S. Paulo abandonaram a regra básica do jornalismo – ouvir todos os lados envolvidos – e passaram a veicular apenas a versão dos acusadores: “o PT é corrupto”.

E o STF, sob o comando de Joaquim Barbosa, transformou-se em verdadeira inquisição.

Quem se lembra que a ministra Rosa Weber, ao referir-se ao ex-ministro José Dirceu, disse que mesmo não havendo provas contra ele, a literatura permitia que votasse pela sua condenação.

Além de José Dirceu foram condenados vários petistas, a exemplo do ex-presidente, José Genoíno, e do ex-tesoureiro, Delúbio Soares.

Os tucanos ficaram longe de julgamentos e dos holofotes da mídia, mesmo as denúncias e provas de corrupção contra eles se avolumando.
Durante o processo, os petistas passaram a ser hostilizados em ambientes públicos. Hostilização que incluiu seus familiares e amigos.

Foram hostilizados, porque a mídia já os havia submetido a um verdadeiro linchamento, antes mesmo do veredito da Justiça.

É importante destacar que o linchamento midiático acabou influenciando até o voto de alguns ministros do STF.

Apesar do massacre, Lula conseguiu se reeleger e concluiu seu segundo mandado com uma aprovação recorde: 87%.

Aprovação que foi decisiva para a vitória de sua candidata, tachada desde o primeiro momento como “o poste de Lula”, em que pese suas credenciais como ex-ministra das Minas e Energia e ex-chefe da Casa Civil.

As críticas à realização da Copa do Mundo, motivo de alegria e apoio da mídia em qualquer país, contribuíram aqui para desencadear as chamadas Jornadas de Junho.

Vistas como manifestações espontâneas em 2013, organizadas à base de convocações através das redes sociais, há muito elas passaram a consideradas como o que realmente foram.

Integraram a “guerra híbrida” ou as manifestações visando à mudança de governo capitaneadas por interesses das elites brasileiras em parceria com setores do “deep state” dos Estados Unidos.

O protesto contra o reajuste de 20 centavos na passagem dos coletivos na capital paulista e a luta por educação e saúde “padrão Fifa” ficaram completamente desmoralizados pelos governos Temer e Bolsonaro.

Mas, na época, a mídia comercial brasileira cerrou fileiras com esses protestos e, ao invés de cobri-los, como seria o esperado, passou a liderar a sua convocação.

Em várias manhãs de domingo, quando tiveram lugar, a TV Globo e a rádio CBN suspenderam suas programações esportivas para “noticiar” a chegada de manifestantes ao centro de São Paulo, do Rio de Janeiro ou mesmo em outras capitais e divulgar que o espetáculo “cívico” estava lindo e que a catraca do metrô encontrava-se “liberada”.

Os protestos se tornaram programa de domingo.

O PARTIDO DA MÍDIA

A mídia colocava em prática o que a então presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e executiva da Folha de S. Paulo, Maria Judith Brito, havia dito, quatro anos antes.

Ao assinalar que os partidos de oposição se encontravam “profundamente fragilizados”, ela defendeu que os meios de comunicação deviam fazer o papel da oposição no Brasil.

Naquele momento ficava evidente que essa mídia havia assumido um lado, contrariando o seu discurso de que é “isenta”.

Isenção, aliás, foi o que não se viu por parte dessa mídia durante a campanha eleitoral de 2014, vencida por Dilma.

E isenção, se é que algum dia existiu na mídia brasileira, desapareceu da cobertura desde então.

Insatisfeita com a derrota de seu candidato, o tucano Aécio Neves, a mídia corporativa assumiu de vez o papel de oposição ao segundo governo de Dilma, que acabou não existindo.

Além das pautas bombas capitaneadas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do festival de machismo e de preconceitos contra a primeira mulher presidente do país, a média brasileira foi parceira de um impeachment sem crime de responsabilidade.

Naquele momento, a mídia brasileira naturalizou os maiores atentados à democracia: a apologia ao moralismo barato, o desrespeito à Constituição e, sobretudo, a apologia à tortura, materializado no voto de Bolsonaro em homenagem ao coronel Brilhante Ustra, o único militar brasileiro condenado por tortura e um dos torturadores de Dilma.

Valeu de tudo para tirar Dilma do poder.

Não por acaso esse impeachment já entrou para a história como um caso de golpe de tipo novo: parlamentar, jurídico e midiático. Golpe seguido de lawfare contra Lula.

Esse golpe abriu espaço para que o vice Michel Temer assumisse o poder e passasse a implementar, sob os aplausos da mídia, o programa tucano que havia sido derrotado nas eleições de 2014.

A mídia corporativa brasileira é igualmente responsável por transformar a Operação Lava Jato e seus integrantes, em especial o então juiz Sérgio Moro e o procurador federal Deltan Dallagnol, em heróis contra a corrupção.

A Moro, inclusive, coube o “feito” de condenar sem provas e prender, o ex-presidente Lula, impedindo-o de disputar as eleições de 2018, quando liderava todas as pesquisas de intenção de voto.

A criminalização da política, a disseminação do ódio ao PT, a mistificação de um combate à corrupção, que não existiu, a vista grossa para as fake news deu no que deu: a mídia brasileira é responsável direta pela chegada de Bolsonaro ao poder.

E se ela acreditava que poderia domesticá-lo, como fez em outras ocasiões, já percebeu que não será possível.

Daí esse jogo de morde e assopra ou de “passar o pano” para Bolsonaro, que tem marcado as edições do Jornal Nacional e de jornais como Folha de S. Paulo desde o início de 2020.

RECADO

Ao contrário do que os seus fiéis seguidores acreditam, o JN está longe de fazer oposição a Bolsonaro.

Ao JN, como ao próprio presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), interessa manter Bolsonaro sob pressão, acuado, mas nada de impeachment.

Até porque essa é a condição para que ele, de olho na reeleição, não abra mão do ajuste ultraliberal na economia.

A mídia corporativa brasileira, que nada mais é do que porta voz da elite financeira do país ou, como no caso da Folha, integra essa elite, perde o sono só em pensar que Bolsonaro pode conseguir abolir o teto de gastos e apostar em uma solução heterodoxa para a economia com vistas em 2022.

Foi o ministro da Economia, Paulo Guedes, o queridinho da mídia, que fez esse alerta a Bolsonaro em pleno JN, lembrando-o do risco de impeachment.

O JN, que liderou o impeachment contra Dilma, agora considera verdadeiro tabu tocar no assunto em se tratando de Bolsonaro, mesmo existindo mais de 50 pedidos nesse sentido em mãos de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados.

Já Maia, por sua vez, garante que não há nenhum motivo que justifique pautar o assunto.

Ele não vê nenhum crime nas ações de Bolsonaro, sejam as envolvendo o meio ambiente, as agressões a minorias políticas, a interferência na Polícia Federal, o acobertamento de ações dos filhos ou a falta de coordenação e o desrespeito aos procedimentos indicados pela ciência para o combate à pandemia de coronavírus.

Com mais de 114 mil mortes, o Brasil já tem o triste título de vice-líder mundial em perda de vidas humanas pelo covid-19.

O proprietário da Folha é um empresário do ramo financeiro que, ao indevidamente comparar Bolsonaro a um governo de “gastança” como o que acredita ter sido o de Dilma, está mandando um recado para os seus pares e também para o Palácio do Planalto.

Só que um recado equivocado na forma e mentiroso no conteúdo.

Ao atacar o repórter do Globo, que apenas cumpria a sua função, Bolsonaro, ao seu modo, também mandou um recado para a mídia brasileira.

E o recado dele não poderia ser pior: não hesitará em usar os poderes de que dispõe para amordaçar a mídia.

REPÚDIO

Ao inviabilizar qualquer tentativa de democratizar a sua atuação, como acontece através de leis em vigor desde o final da Segunda Guerra Mundial na Europa e nos Estados Unidos, a mídia brasileira jogou seu destino nas mãos de um presidente que não disfarça sua inclinação neofascista.

Se existisse regulação da mídia no Brasil, a exemplo do que acontece em todo país civilizado, como a vizinha Argentina, dificilmente esse descalabro estaria acontecendo.

Não só a Argentina dispõe de leis que impedem que a mídia aja sem freios contra quem quer que seja, como arroubos autoritários por parte de governantes não são tolerados.

Em 23 de novembro de 2015, um dia após vencer as eleições, o neoliberal Maurício Macri foi saudado com um editorial no jornal La Nación, dos mais tradicionais de Buenos Aires, em que para agradá-lo, colocava em dúvida se havia existido ditadura na Argentina.

Intitulado “No Más Venganza” (Chega de Vingança), o texto pedia o fim dos julgamentos de repressores durante a ditadura (1967-1983), alegava que os processos são “atos de vingança” e que os opositores do regime eram “terroristas”.

O La Nación comemorava o fim do kirchnerismo e dizia que o novo governo podia dar início ao “sepultamento” das políticas “vingativas” de direitos humanos de Néstor e Cristina Kirchner, que suspenderam indultos e estimularam investigações.

O repúdio dos jornalistas ao texto teve início nas redes sociais e ganhou notoriedade quando dois dos principais repórteres da publicação também divulgaram mensagens contra o editorial.

Mais tarde, todos os profissionais se reuniram na própria redação para uma foto (no topo) portando cartazes onde denunciavam a lógica que construiu o editorial e exigiam que a empresa se retratasse.

No dia seguinte (24/11), o La Nación publicou em sua edição impressa e online a reação dos jornalistas e a resposta do jornal, reforçando que o texto não expressava a opinião de qualquer funcionário da empresa, mas, exclusivamente a do próprio diário.

“NÃO MINIMIZEM”

A Ley de Médios (como é chamada a lei de regulação democrática da mídia na Argentina) foi igualmente fundamental quando Macri tentou desmontar a TV Nacional, a emissora pública do país, e também quando tentou condicionar as verbas publicitárias para a mídia ao apoio a seu governo.

Se os jornalistas do JN, da Folha de S. Paulo e de tantas outras publicações que apoiaram o golpe contra Dilma ou compactuaram com julgamentos e condenações sem provas tivessem agido como os profissionais do La Nación, dificilmente teríamos chegado à situação atual.

Se sindicatos de jornalistas, entidades da sociedade civil e faculdades de comunicação tivessem exigido que a mídia corporativa divulgasse as notícias de que a Justiça brasileira inocentou Genoíno e Delúbio com o mesmo destaque com que os condenou, se tivessem exigido que as denúncias de juristas dos mais conceituados sobre o lawfare contra Lula ou mesmo que as denúncias, com provas, sobre os crimes e parcialidades da Lava Jato fossem publicadas, a população brasileira seguramente poderia formar outra visão do que ocorreu nesses anos recentes.

Alguns profissionais da Folha, como a ombudsman Flávia Lima e o ex-diretor de redação Fernando Barros e Silva, teceram críticas à empresa.

Através do twitter, Barros e Silva incitou ontem seus colegas a “não serem covardes” e a “não minimizarem” o que está acontecendo.

É importante salientar que a covardia não pode ser imputada apenas aos profissionais que atuam nessas publicações.

A voz dos sindicatos dos jornalistas e das próprias Faculdades de Comunicação, tão atuantes e incisivas no combate à ditadura civil- militar de 1964, simplesmente amoleceram nos últimos anos.

Mesmo setores tradicionais da chamada sociedade civil não deram e continuam não dando à regulação democrática da mídia a importância que ela tem e merece.

Essa pauta não é só urgente. É urgentíssima.

O resultado de todo esse processo em que o silêncio acobertou mentiras, linchamentos midiáticos e interesses nada republicanos é a desinformação generalizada, a confusão do público em relação à realidade do país e uma mídia que, se não reagir, perderá de vez a quase nenhuma credibilidade que lhe resta.

A mídia brasileira, que nunca quis limites democráticos, está perdida no labirinto autoritário que ajudou a criar.