Na avaliação de deputado aliado do governador Camilo Santana, o motim da Polícia Militar no Ceará foi ato político.

 

por Luiz Regadas, de Fortaleza, especial para o Viomundo

Para quem acompanhou à distância, o motim dos policiais militares do Ceará poderia parecer inicialmente apenas mais uma justa reivindicação salarial, embora proibida pela Constituição.

Depois que representantes do  governador Camilo Santana (PT) fecharam acordo com representantes de policiais e bombeiros no dia 13 de fevereiro, líderes do movimento voltaram atrás.

Estalou o motim.

Ficou claro que o desejo por melhores condições salariais havia sido sequestrado por uma disputa política.

Na análise do deputado estadual Elmano de Freitas (PT-CE), foi uma disputa interna entre lideranças por protagonismo e votos em 2020.

O cabo Sabino, que não conseguiu se reeleger deputado federal em 2018, teria sido o proponente do motim, atropelando o grupo do deputado federal capitão Wagner, candidato à Prefeitura de Fortaleza em 2020, que tem como aliados o deputado estadual soldado Noélio e o vereador sargento Reginauro.

Porém, independentemente da disputa interna, o bolsonarismo nacional apoiou fortemente o movimento.

O capitão Wagner foi a Sobral no dia em que dois tiros foram disparados contra o senador licenciado Cid Gomes e registrou boletim de ocorrências contra o ex-governador do Ceará.

Estava com outros dois deputados federais da base bolsonarista, a major Fabiana (PSL-RJ) e o capitão Alberto Neto (Republicanos-AM).

Soldado, inspetor, sargento, cabo, capitão, coronel, major e general. É a politização das forças de segurança cuja base eleitoral são policiais e seus familiares.

Em geral, aliados do bolsonarismo.

Um dos protagonistas do motim do Ceará, embora não seja policial militar, foi o inspetor Alberto, policial civil que é assessor do deputado estadual André Fernandes (PSL-CE).

Ele já protagonizou vários episódios marcantes, sempre registrados em vídeo, através dos quais parece em busca de votos. Deu tiros numa imagem do ex-presidente Lula e ameaçou fazer o mesmo contra Camilo Santana.

O apoio vem de cima.

Agora, Eduardo Bolsonaro foi à Procuradoria Geral da República acusar Cid Gomes de tentativa de homicídio, por usar uma retroescavadeira para tentar romper a barreira de policiais que impedia o acesso a um quartel de Sobral, a base eleitoral da família Gomes.

Mas, não foi só.

“Os senhores se agigantaram de uma forma que não tem tamanho. É o tamanho do Brasil que vocês representam”, afirmou em vídeo o diretor da Força Nacional, coronel Aginaldo Oliveira, sobre os amotinados.

Recentemente ele casou-se com uma expoente do bolsonarismo, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP).

Aginaldo é subordinado do general Theophilo Gaspar de Oliveira, candidato derrotado a governador do Ceará por Camilo Santana em 2014 e alçado por Bolsonaro ao cargo de secretário nacional de Segurança Pública.

Theopilo, que concorreu pelo PSDB, teve pouco mais de 10% dos votos.

No Ceará, as redes sociais também atuaram fortemente contra o governo Santana e os irmãos Ciro e Cid Gomes durante o motim.

Chegou a circular um vídeo sugerindo que o tiroteio em Sobral teria tido origem em disparos feitos pelo próprio Cid Gomes, enquanto pilotava a retroescavadeira.

Aliado do governador paulista João Doria, o próprio senador Major Olímpio, ao visitar o Ceará, gravou vídeo deplorando o motim: policiais encapuzados feito bandidos, viaturas arriadas e depredadas, cerco a policiais civis.

Olímpio deixou claro que a lideranças políticas estavam querendo se aproveitar da categoria, de olho nas eleições para vereador e prefeito deste ano.

O capitão Wagner e o cabo Sabino se projetaram politicamente a partir de outro motim de policiais, em 2012.

Sabino, sem mandato, deste vez avançou de maneira afoita e tomou a frente do movimento, buscando capitalizar-se politicamente para garantir uma vaga de vereador na eleição de outubro próximo.

Os cearenses ficaram à mercê do jogo político: com medo de sair de casa, testemunhando arrastões em alguns pontos de Fortaleza, vendo um automóvel ser queimado supostamente por policiais e lamentando o registro de 220 homicídios enquanto os PMs estavam ocupando quartéis e impedindo colegas de trabalhar.

O que ficou acertado pela comissão especial aprovada em Assembleia pelos grevistas.

* Os policiais militares contarão com o apoio de instituições extragovernamentais, como Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Defensoria Pública e Exército;

* Os agentes terão direito a um processo legal sem perseguição, com amplo direito a defesa e contraditório, e acompanhamento das instituições de apoio;

* O governo do Ceará não vai transferir policiais para o interior do estado em um prazo de 60 dias, contados a partir do fim do motim;

* Os policiais militares devem retornar ao trabalho nesta segunda-feira, dia 2 de março.

Quem saiu fortalecido

O governador Camilo Santana saiu fortalecido.

Não voltou atrás na pauta de negar anistia aos que cometeram ilegalidades.

Os PMs cearenses vão receber salários superiores aos de São Paulo ou de soldados do Exército, de acordo com o deputado estadual Elmano de Freitas.

Derrotados

Um dos perdedores é o cabo Sabino. Ele havia saído vitorioso da greve de 2011/12. Por conta disso, foi eleito deputado federal pelo Partido Republicano (PR) em 2014.

Não se reelegeu em 2018 e agora tem mandado de prisão em aberto.

Durante os 16 dias de motim, Sabino gravou vídeos incitando policiais a aderir ao movimento. Corre o risco de ser expulso da polícia. Pode perder seu salário de reservista, conseguido quando tornou-se deputado.

Na assembleia que decidiu pelo fim da greve, afirmou: “A maioria decidiu, já está votado, vamos respeitar. Mas vocês acabaram de assinar a minha demissão. Obrigado”.

Outro que perdeu com o motim foi o deputado federal capitão Vagner (PROS-CE).  Vagner era tido como o líder do movimento, posição que havia ocupado na paralisação de 2011/2012.

À época, Vagner acusou o comando da Polícia Militar do Ceará de retaliar ao transferir 100 policiais da cidade de Fortaleza para o interior,

Em 17 de dezembro de 2011, eles teriam tentado impedir a passagem do carro oficial que levava o então governador Cid Gomes para visitar obras do Metrofor.

Os policiais foram anistiados em 2013, pela presidenta DilmaRousseff (PT), junto com grevistas de 16 estados.

Desta vez o capitão Vagner sai derrotado. No dia 13 de fevereiro, gravou um vídeo comemorando um acordo com o governo. No entanto, dois dias depois não soube defender o acordo diante da parcela mais exaltada da corporação.

O deputado não compareceu à assembleia que pôs fim ao motim.

Fala o deputado Elmano de Freitas

Um dos principais pontos da entrevista do deputado Elmano de Freitas diz respeito à ameaça do governo de Jair Bolsonaro de não renovar a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que levou o Exército e a Força Nacional ao Ceará para dar segurança à população durante o motim.

Numa live no Facebook, Bolsonaro chegou a deixar em aberto se renovaria a GLO, supostamente para colocar pressão no governo do Ceará para fechar acordo com os amotinados.

Elmano, na entrevista a este blogueiro, confirmou que Camilo Santana tomou a iniciativa de consultar outros governadores, que concordaram em enviar tropas caso o governo Bolsonaro decidisse pela retirada das forças federais.

Isso deixa clara a posição no mínimo dúbia do governo Bolsonaro.

Enquanto esteve no Ceará, o ministro da Justiça, Sergio Moro, jamais condenou os amotinados publicamente.

Na entrevista, Elmano afirmou ainda que o governador do Ceará enviou uma emenda constitucional à Assembleia Legislativa que proíbe anistia a policiais amotinados.

Embora sem citar nomes, confirmou que o motim, disparado DEPOIS de acordo fechado com o governo do Ceará, foi um ato claramente político.

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