“Eu queria trazer vacina para o Brasil. Eu tenho culpa sim, eu peço desculpa ao Brasil, o que eu cometi não agradou aos olhos de Deus. Peço perdão aos senadores”, disse o Reverendo Amilton de Paula durante depoimento à CPI da Covid.

Reverendo da Igreja Batista,  Amilton de Paula é fundador da ONG (Organizção não-governamental) Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários), que esteve envolvida com a negociação de vacinas junto a Davati Medical Supply, empresa norte-americana que é suspeita de fraudes na venda de vacinas para o Brasil e outros países.

Em resposta ao senador Marcos Rogério (DEM-RO), o depoente Amilton Gomes de Paula chorou e pediu perdão pela negociação de vacinas entre a entidade que preside e o Ministério da Saúde — essa negociação acabou não resultando na compra de imunizantes.

Marcos Rogério pediu para o religioso reconhecer o erro e pedir perdão para as pessoas que foram induzidas a acreditar que haveria compra de vacinas.

— Eu queria vacina para o Brasil. Eu tenho culpa, sim. Peço desculpa ao Brasil. (…) Se pudesse voltar atrás eu voltaria. Jamais fraudei ou tirei algo de alguém — disse Amilton.

Para Marcos Rogério, o depoimento “foi uma perda de tempo” para a CPI, já que não houve assinatura de contrato nem pagamento pelo Ministério da Saúde.

Contradição

Em resposta ao vice-presidente da CPI da Pandemia, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Amilton Gomes de Paula disse desconhecer qualquer oferta feita ao Ministério da Saúde pela empresa Davati no valor de US$ 10 por vacina.

— Eu desconheço esse documento de US$ 10 — disse o reverendo, ao afirmar que apresentou ao Ministério a oferta oficial do laboratório farmacêutico.

Randolfe mostrou um documento da Davati, de 5 de março de 2021, no qual a oferta feita ao Ministério é de US$ 10, e outro documento de Amilton, do dia 14 de março, com oferta de US$ 11 por vacina.

— Coincide com o que o Dominguetti denunciou à esta CPI. É exatamente a propina de US$ 1 por dose — avaliou Randolfe.

Em depoimento anterior à CPI, Luiz Paulo Dominguetti Pereira disse ser representante da Davati. Ele denunciou à imprensa ter recebido pedido de propina de US$ 1 para cada dose negociada na venda da vacina AstraZeneca ao governo. O pedido teria sido feito pelo ex-diretor de Logística do ministério Roberto Ferreira Dias.

O depoente também reconheceu que a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) não é credenciada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ao contrário de cartas assinadas por Amilton que foram mostradas por Randolfe.

O senador perguntou a Amilton se o Ministério da Saúde alguma vez perguntou sobre a dívida ativa dele com a União no valor de R$ 29,5 mil. O reverendo respondeu que ninguém do Ministério tocou no assunto.

 

Reverendo afirma que não tem ligação com políticos

Mesmo contestado por senadores, Amilton negou ter ligação com parlamentares e com o presidente Jair Bolsonaro. Ele disse que só teve ligação com o deputado Roberto de Lucena (Podemos-SP), que teria assinado carta de apoio à Senah para a aquisição de vacinas pelo governo, de acordo com a proposta da Davati.

No twiiter, o jornalista Ricardo Noblat desmentiu outra declaração do reverendo Amilton: “Não conheço ninguém no governo federal”:

 

Reverendo confirma pressão de representantes da Davati

O reverendo disse à senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) que foi pressionado pelos representantes da Davati Dominguetti Pereira e Cristiano Carvalho para dar prosseguimento às tentativas de comercialização da vacina AstraZeneca com o Ministério da Saúde.

Mais uma vez, Amilton negou que houvesse contrato formal da Senah com a Davati. Contudo, ele garantiu que solicitou ao CEO da empresa, Herman Cadenas, documentos sobre a disponibilidade de vacinas para entrega ao ministério.

Por fim, após uma carta de Carvalho a Dominguetti que tratava de “distrato” do acordado entre a ONG e a empresa para negociação da vacina, foi encerrada a parceria, segundo o reverendo.

Jean Paul Prates acusa entidades de praticar estelionato

Jean Paul Prates (PT-RN) contesta uso do brasão da Organização das Nações Unidas (ONU) pela Senah. Segundo dados apresentados pelo senador, a entidade não teria autorização para uso do logotipo e que “protentidades” no Brasil emulam instituições internacionais com o intuito de praticar estelionato, como na questão das vacinas contra covid-19.

Uma dessas entidades parceiras da Senah, segundo Jean Paul Prates, é presidida por um advogado, Aldebaran Luiz Von Holleben, que reivindica na Justiça o direito de ser reconhecido como o Super-Homem Tupiniquim. O senador pediu que a CPI se debruce sobre essas entidades e investigue o que chamou de “crime de falsidade ideológica e estelionato”.

O reverendo reconheceu o erro.

— Foi um erro da minha parte ter colocado essas logos para trabalhar com vacinas — disse.

Com informações da Agência Senado

 

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