“Temos sim oscilação já conhecida do regime de chuvas, portanto, a culpa pela energia mais cara não é das chuvas, mas de quem não está tomando as ações para planejar e organizar o volume de água”, avalia geógrafo da USP

da RBA

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou nesta terça-feira (31) um aumento de quase 50% sobre a conta de luz. A nova bandeira, chamada de bandeira de escassez hídrica, terá uma taxa no valor de R$ 14,20 por 100 quilowatt hora. A tarifa começa a valor a partir desta quarta (1º) e ficará em vigor até 30 de abril de 2022. Com a mudança, o consumidor brasileiro pagará até R$ 4,71 a mais (49,6%) em relação ao reajuste anterior, em junho, quando a conta de luz já havia aumentado de R$ 6,24 para R$ 9,49 pela bandeira tarifária vermelha patamar 2.

Ainda ontem, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fez um pronunciamento em rede nacional, confirmando que a crise de energia no país “se agravou”. Sem mencionar a criação da nova bandeira na conta de luz, o chefe da pasta pediu à população o uso “consciente e responsável” de energia. “Reduzindo a utilização de equipamentos que consomem muita energia como chuveiros elétricos, condicionadores de ar e ferros de passar”, declarou Albuquerque.

Confira a entrevista

Redação: Clara Assunção – Edição: Helder Lima

 

O discurso chamou atenção do professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) Wagner Ribeiro. Em sua coluna no Jornal Brasil Atual, o geógrafo observou que o ministro, embora reconheça a situação, “não propôs nada de concreto” para contorná-la. Ao contrário, em sua fala Albuquerque citou que o governo foi pego de “surpresa” pelo regime de chuvas na região Sul, que acabou sendo “pior do que o esperado”. E, ao final, concluiu que a superação da crise irá depender do “empenho de todos nós” e “também das chuvas”.

Faltaram medidas de prevenção

De acordo com Ribeiro o que faltou, na verdade, foram medidas de prevenção por parte do governo de Jair Bolsonaro. Estudioso do regime de chuvas desde a década de 1990, o professor diz que historicamente há alternâncias em seu volume. “Portanto, a culpa não é da chuva. A culpa é de quem não está tomando as ações necessárias para planejar e organizar o volume de água que dispomos com alguma regularidade. Sabemos que temos uma demanda firme, estabelecida, que é a necessária para gerar energia elétrica, abastecimento humano, animal e agrícola. Mas ao mesmo tempo temos que ter clareza de que há uma oscilação do volume de chuvas, isso é conhecido. E eventualmente essa oscilação pode ser agravada”, destaca à jornalista Marilu Cabañas.

O professor da USP adverte que o avanço do desmatamento nos biomas brasileiros é uma dessas questões que impactam no regime de chuvas, ao reduzir o que chama de “corredor natural de transferência de umidade” da Amazônia para o Sul e o Sudeste. Outro aspecto, segundo ele, é a oscilação das temperaturas do oceano. Neste ano, por conta do fenômeno La Niña, houve o resfriamento das águas até maio, o que também implica na redução de chuvas, porque se altera a circulação atmosférica, conforme explica. A previsão é de que esse fenômeno ocorra novamente em outubro.

Governo negacionista

“Mas nada disso é novidade”, adverte Ribeiro. “Sabemos que isso ocorre, existe literatura mostrando que isso pode ocorrer. Temos até a capacidade hoje graças a modelos sofisticados de prever quando isso pode acontecer e quais as implicações. Mas esse governo, que parece não acreditar na ciência, e isso fica cada vez mais evidente, não considera esse tipo de situação. Até o horário de verão, que o presidente numa canetada resolveu simplesmente acabar, nem isso é cogitado agora. E é curioso que o próprio setor de comércio, bares e restaurantes solicitou o retorno do horário de verão para ampliar a possibilidade de atrair clientes. Nem isso foi aventado”, contesta.

O geógrafo da USP defende que, para além de um racionamento em escala individual, é preciso também controlar o consumo de energia do setor industrial, responsável por grande parte do uso. Ele cobra a renovação dos equipamentos que possam de ter maior eficiência energética. Assim como a repotencialização das hidrelétricas, que já estão operando, e o estímulo a fontes de energia alternativas. Sem essas medidas, a estiagem pode produzir mais reveses, como a paralisação das operações de transporte de carga pelos rios. Empresas já interromperam o uso da hidrovia Tietê-Paraná e a estimativa é de prejuízos na ordem de R$ 3 bilhões a R$ 5 bilhões.

“É de fato preocupante, porque é um governo que mostra seu despreparo e falta de qualificação técnica para enfrentar os problemas reais e agudos que atingem a sociedade brasileira”, lamenta Wagner Ribeiro.

 

Redação: Clara Assunção – Edição: Helder Lima