Chega aos cinemas e plataformas digitais nesta quinta-feira (2) o documentário Parque Oeste, sobre um dos despejos mais violentos do país. Dirigido pela cineasta goiana Fabiana de Assis, tem como pano de fundo uma desocupação ocorrida em fevereiro de 2005 em Goiânia (GO).

da RBA

De grande interesse do mercado imobiliário, o terreno estava abandonado havia décadas e havia pelo menos 40 anos que não pagava impostos. “Ali servia para desova de cadáveres, de desmanche de carro. E se transformou em uma infinidade de barracos de plástico preto. Com as promessas do governo de que não seríamos removidos, fomos erguendo nossas casas de alvenaria. Fizemos empréstimos para comprar material de construção e fomos nos fortalecendo. Até que após um período eleitoral começaram a vir avisos de despejos e a ronda de policiais à noite. Cortavam a luz, jogavam gás lacrimogêneo. Ficamos nessa tortura por 14 dias, até que veio o despejo”, relatou à RBA a moradora Eronilde Nascimento.

Em menos de duas horas, cerca de 1.800 policiais militares sob comando do governador Marconi Perillo (PSDB) despejaram 14 mil pessoas de suas casas, jogadas na rua, inclusive crianças e idosos. Dois moradores foram assassinados pela polícia, entre eles Pedro do Nascimento Silva, marido de Eronilde. Outros 16 moradores tiveram ferimentos graves, tendo uma delas ficado paraplégica. Mais de 800 pessoas foram detidas.

Violações

Uma das maiores violações dos direitos humanos ocorrida na América Latina, a desocupação das famílias do Parque Oeste será lembrada também pelas crianças chorando, muitas sujas de sangue dos próprios pais, enquanto distribuíam bandeiras brancas feitas de papel.

Os mortos foram velados na Catedral de Goiânia, que chegou a abrigar parte das famílias por um período. Nos dias seguintes, as famílias foram sendo alojadas em ginásios de esportes e outros locais ao longo de três anos. Só em 2007 começou a mudança das cadastradas para o bairro Real Conquista na extrema periferia de Goiânia.

“Mandaram a gente para um lugar muito longe, quase na zona rural, que ainda não tinha luz, totalmente abandonado, nem ônibus subia. Tinha apenas droga para receber os jovens. Tem mãe que perdeu três filhos para a droga. Mas transformamos o Bairro Real Conquista nesses 16 anos. Hoje temos programa de saúde da família, creche, escola municipal, praças e corremos atrás de benefícios”, disse Eronilde.

Despejo violento

As imagens do dia do confronto, captadas pelo jornalista e ativista estadunidense Brad Will, morto dois anos depois no México, mostram cenas de verdadeira guerra – abafadas pela mídia e autoridades –, que vêm à tona com o documentário de Fabiana.

“Essa história é recontada em detalhes por vídeos, fotos e o testemunho de moradores, especialmente Eronilde Nascimento, que teve o marido assassinado na ação policial durante o despejo. Ela tornou sua perda em luta por justiça para aqueles que perderam suas casas e familiares durante o episódio”, disse à RBA a diretora Fabiana de Assis. “Esse encontro com Eronilde é fundador do filme Parque Oeste. Primeiro porque, ao conhecer Eronilde, sou impactada pela sua história e pelo fato de sermos duas mulheres que compartilham a mesma idade, mas vivências completamente distintas. Isso me levou ao exercício profundo de desconstrução das minhas próprias visões pré-concebidas sobre as pessoas que se dedicam à luta pela moradia”, disse Fabiana.

Reconhecimento

Segundo ela, a resistência de Eronilde junto às famílias que conseguiram forças para seguir adiante lutando, apesar de tudo, é um dos pontos mais marcantes da história narrada também pela protagonista.

O documentário foi exibido no Festival Brésil en Mouvements, Paris, em 2019. No mesmo ano, recebeu a distinção de Melhor filme da Mostra Olhos Livres da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), e o prêmio “Sequência” na terceira Mostra SESC de Cinema, Paraty. Foi Menção Honrosa na Oitava Mostra Ecofalante de Cinema, São Paulo, em 2019, e na Décima Semana de Cinema do Rio de Janeiro, em 2018.

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