País está entre os de menor índice de contaminação e mortes por covid-19.

Por Michele de Mello – Brasil de Fato– Líderes comunitários, coordenadores dos CLAP e militantes do partido governante, PSUV, ajudam na entrega dos pedidos de porta em porta.

Na capital, Caracas, a prefeitura criou um programa de distribuição de casa em casa, articulando com os movimentos sociais a distribuição de alimentos a preços justos.
O plano Yo Compro En Casa (Eu Compro Em Casa) começou a ser aplicado no distrito Sucre, lar de 600 mil venezuelanos, na zona centro-oeste da capital, mas a perspectiva é de que seja expandido para outros cinco distritos (Caricuao, Antímano, La Vega, Valle e Coche) com maior concentração de pessoas em situação de vulnerabilidade social, atingindo, nas próximas semanas, cerca de 1 milhão de caraquenhos.

Os produtos vêm por meio de três programas associados: os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), que são as cestas básicas distribuídas pelo governo nacional; a Feira do Campo Soberana, feiras de peixes e hortaliças produzidos na região; e o Plano de Proteína, que oferece proteína animal a preços subsidiados pelo Estado. Também são vendidas mercadorias de 400 comerciantes privados locais.

A prefeita da capital, Érika Farias Peña, militante da Frente Francisco de Miranda, uma das organizações que compõem o partido governante PSUV, destaca a importância do papel do Estado em garantir o pão na mesa de cada cidadão, mas também reconhece a necessidade de avançar na construção da soberania alimentar do país, para poder diminuir as importações e aumentar a produção nacional.

“Estamos trabalhando há 21 anos e seguiremos nesse sentido. Nós temos com que fazer. Temos a maior reserva de petróleo do mundo, uma das maiores reservas de ouro, uma grande capacidade de cultivo e um povo que cada vez mais demonstra sua capacidade e vontade de fazer parte desse processo de mudar a economia rentista petroleira, que nos inculcaram há mais de 100 anos. Estamos transitando de uma economia petroleira para uma economia petroleira produtiva”, afirma.

Boa parte dos alimentos é subsidiada pelo plano, por meio da Fundação para o Desenvolvimento Comunal Agroalimentar (Fundeca), do Ministério de Alimentação e da fundação Inmerca, vinculada à prefeitura. No caso das compras feitas no comércio privado, a prefeitura estabeleceu uma mesa de trabalho para determinar preços controlados que fossem acessíveis ao consumidor e que cobrissem os gastos do vendedor.

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A distribuição é feita pelos servidores públicos da prefeitura, articulados com os líderes comunitários de cada rua e coordenadores dos CLAP. Por isso, o bairro Cátia, no distrito Sucre, foi usado como laboratório para a proposta.
Além de albergar um dos maiores mercados municipais da cidade, um foco de aglomeração, a zona possui 536 conselhos comunais organizados (espécies de conselhos comunitários), que agregam cerca de 4 mil líderes sociais.

Usando o levantamento do programa CLAP, o contato de casa em casa foi mais fácil. Cada comunidade organizada é composta por cerca de sete ruas, e cada rua tem um líder comunitário ou coordenador do Comitê de Abastecimento.

A prefeitura entrega uma lista de produtos disponíveis aos líderes de rua, que deverão receber os pedidos dos vizinhos e encaminhar para a equipe do governo municipal. Caminhões dos programas sociais relacionados e transportadores da comunidade (como mototáxis) ajudam a entregar as compras.
Cada família deve depositar o valor da sua compra numa conta dos coordenadores do CLAP, que logo transferem para o governo municipal, que, por sua vez, faz com que o dinheiro chegue aos fornecedores. Para agilizar ainda mais, a prefeitura fez uma parceira com o Banco do Tesouro da Venezuela para distribuir 30 máquinas de pagamento com cartões de débito e crédito.

Dessa forma, o governo busca diminuir a circulação nos supermercados e evitar a especulação com os preços dos produtos da cesta básica alimentar.

A iniciativa fez tanto sucesso que o plano será adotado nacionalmente.

O Ministério de Comunas incentiva a criação de pontos de abastecimento comunais, para que os alimentos sejam armazenados em locais mais próximos às comunidades. Já são 816 armazéns pelo país.

“Nós não estamos fazendo isso porque temos medo de morrer. Estamos fazendo isso porque temos muita vontade de viver. Temos que realizar nossos sonhos particulares, familiares, os sonhos da nossa comunidade e o projeto que nos deixou nosso comandante [Hugo] Chávez e nosso libertador Simón Bolívar. E aí a vida está acima de tudo”, assegura Érika Farias, que iniciou a vida política na sua comunidade, San Juan, bairro periférico da capital.

Medidas sanitárias

Segundo a prefeita de Caracas, foi nas visitas com equipes de saúde para o rastreamento do novo coronavírus que se identificou que 99% das pessoas nas comunidades periféricas ainda saíam de casa cotidianamente para comprar produtos de necessidade primária. A ideia do plano Yo Compro En Casa surgiu a partir desse diagnóstico.

Com a mobilização popular, também puderam ser reativados 720 comitês de saúde, com profissionais que residem nessas comunidades e que agora ajudam nos trabalhos de prevenção e combate à doença.

Na Grande Caracas – onde vivem aproximadamente 3 milhões de venezuelanos –, existem 36 centros de atenção primária, onde foram realizados 37 mil testes rápidos de diagnósticos para covid-19. O governo municipal também instalou quatro hospitais de referência para atender os infectados com o novo coronavírus.

Além de fiscalizar o cumprimento da quarentena, decretada em todo o país desde o dia 14 de março, autoridades sanitárias da prefeitura higienizam as ruas semanalmente.

Venezuela tem sido um exemplo no combate à pandemia no continente. Pioneira em decretar medidas rígidas, como quarentena e fechamento de fronteiras, equipes chinesas e russas têm estudado o sistema de organização popular para levar a experiência aos seus países.

“Haverá uma época pós-pandemia, o mundo está mudando e certamente haverá outra ordem mundial. A ordem em que estamos não é nenhuma ordem, porque, se é assim, como podemos explicar o que está acontecendo nos Estados Unidos, o país que hegemoniza as finanças e a segurança do mundo? E veja o que está acontecendo com a sua população. Nós, políticos, teremos que nos reunir para discutir como será o mundo pós-pandemia, porque está claro que o capitalismo está desnudo”, assegura Farias Peña.

Segundo a Fundação Johns Hopkins, referência mundial para o acompanhamento da pandemia, até a sexta-feira (17) foram registrados na Venezuela 204 contaminados com a covid-19, nove falecidos e 111 recuperados. O epicentro é o estado Miranda, onde está localizado o Distrito Capital, com 68 casos de contaminação.