Em 1992 um jovem deputado e empresário do ramo alimentício tropeçou no português e perdeu as eleições em Goiânia. Em 2020, outro empresário da área de alimentação se complica pelo que disse e pode ter o mesmo destino.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

Há 28 anos atrás o jovem empresário Sandro Mabel se lançava na política pelo PMDB. Ele havia sido eleito deputado estadual em 1990 e em 1992 disputou as prévias do PMDB que o definiram candidato à prefeitura de Goiânia, para suceder o prefeito Nion Albernaz (1989-1992).

Nion tinha aprovação altíssima. Era o “prefeito das flores”. Goiânia era admirada no Brasil inteiro pelos jardins em que as principais praças da cidade haviam sido transformadas.

Mabel superou o então deputado federal Mauro Miranda e o vereador Pedro Batista e foi ungido o candidato do PMDB, que tinha Iris Rezende no governo do Estado. Com apoio de Nion e Iris a eleição ia ser uma barbada. É o que pensavam a maioria dos analistas políticos da época.

Mas não foi assim.

Do outro lado havia também novos talentos na política. Estava no páreo o

deputado estadual Darci Accorsi (PT), que havia disputado com êxito a eleição de 1985 (aquela que ganhou mas não levou). Outro jovem empresário, Luiz Bittencourt, também lançou seu nome pelo PDC e o popular vereador Sandes Júnior  se colocou na disputa pelo PFL.

Mabel liderava as pesquisas. Os demais candidatos estavam bem atrás. E quando tudo indicava para uma eleição fácil, eis que Mabel comete um deslize. Disse no debate na TV Serra Dourada que iria modernizar a Educação e para fazer isto iria “adestrar os professores”. Talvez quisesse ter tido que iria proporcionar “treinamento”, “reciclagem” para os professores. Mas a frase que saiu foi essa: “Vamos adestrar os professores”.

No dicionário Adestramento é sinônimo de: adestração, domesticação.

Darci Accorsi era professor e rebateu com veemência o “adestramento” proposto por Mabel. O resultado: o petista virou a eleição na frente no primeiro turno e venceu com folga no segundo turno.

O senador Vanderlan Cardoso (PSD), a exemplo de Mabel, também é um empresário de sucesso no ramo alimentício. Fez exitosa administração em Senador Canedo, cidade onde está a matriz da Indústria Micos e depois perseguiu duas vezes eleição para o Executivo estadual (2010, 2014) e está na segunda disputa pela prefeitura de Goiânia.

Vanderlan, a exemplo de Mabel,  proferiu uma frase infeliz, conforme registra o  áudio de sua manifestação de apoio ao senador Chico Rodrigues (DEM-RR), pego com dinheiro no bumbum numa operação da Polícia Federal:

“Conheço Chico Rodrigues há 30 anos e não há nada que desabone a sua conduta”, disse Vanderlan.

O contexto, além de infeliz, é mais grave que aquele de Mabel.

Em 1992 Mabel tropeçou no português e não foi poupado pelos trabalhadores da educação e nem pelos eleitores. Neste pleito de 2020, Vanderlan demonstrou solidariedade com um colega de Senado que foi pego com dinheiro, que segundo as investigações, é fruto de desvio de verbas de emenda parlamentar destinada ao SUS (Sistema Único de Saúde) para o combate ao coronavírus.

Há provas e depoimentos que corroboram com a denúncia.

Testemunhas denunciam esquema de Chico Rodrigues e de seu filho 

A investigação da PF contra Chico Rodrigues e seus “parças” é extensa.

O caso envolve também, Pedro Rodrigues,  filho de Chico Rodrigues, que é seu suplente no Senado e está sendo acusado pelo Ministério Público de Roraima de organizar o esquema de corrupção na saúde no Estado.

Em entrevista a VEJA, Maria Madalena, servidora que foi exonerada da saúde, detalhou como funcionava o suposto esquema de arrecadação de propinas. De acordo com ela, os fornecedores tinham que desembolsar até 20% do valor do contrato. Caso contrário, os recursos não seriam liberados ou os serviços poderiam ser suspensos.

“O Pedro Rodrigues operava o esquema para o pai. Era ele quem pedia e pegava a propina que variava de 10% a 20% do valor dos contratos”, diz ela

Maria Madalena prestou depoimento à Polícia Federal. Ela era contratada no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Leste de Roraima, que era comandado por Adriano de Almeida Corinthi, indicado por Chico Rodrigues.

A unidade faz parte de um grupo de 34 entidades públicas espalhadas pelo Brasil para prestar atendimento a populações indígenas.

O relato do esquema ilegal no DSEI Leste de Roraima também foi confirmado pela empresária Barbara Letícia Pantoja Gomes. Responsável pela fornecedora de alimentos Dona Chicoria, ela diz que recebeu uma ligação de um tal de Jean que se identificou como assessor do senador Chico Rodrigues e que propunha um encontro com o parlamentar em Brasília. Após a empresária declinar do convite, o interlocutor disse que ela deveria comprar alimentos de um integrante do grupo dele. Barbara se recusou.

Com isso, os pagamentos para a sua empresa começaram a atrasar. Indignada, ela resolveu prestar um depoimento à Polícia Federal no qual disse acreditar que “a motivação desses atrasos é justamente forçar a ceder à pressão e ingressar nesse esquema de ‘parceria’”.

Procurada por VEJA, a empresária confirmou que foi chantageada e que, até hoje, sente medo de ter revelado o esquema para as autoridades

 

Um áudio pela culatra

No áudio num grupo de whatssap formado por senadores Vanderlan diz:

“Meus amigos, senadores, senadoras. Este episódio aí nós não podemos aceitar de forma alguma. Conheço Chico Rodrigues há mais de 30 anos, quando cheguei em Roraima nos anos 80 (1980).

Não tem nada que desabone a conduta do Chico Rodrigues.

Não podemos em hipótese alguma aceitar esta interferência, uma decisão absurda de um ministro do Supremo, que não sei porque tomou esta decisão tão autoritária.

Espero que nosso presidente Davi (Alcolumbre), e creio que ele não vai  aceitar em hipótese alguma que Chico Rodrigues, nosso amigo, companheiro de  todas as horas não tenha nem direito a defesa e nem a se explicar.

O que eu espero, e espero que todos os nobres senadores e senadores dêem este apoio num momento tão difícil como este e que ele tenha a chance de dizer o porque disto que aconteceu.

Todas as suas declarações de imposto de renda constam que ele disse que sempre tem recursos, não somente o que foi encontrato, mas muito mais do que isto. Espero que Davi tome aí providências e o amparo legal ao nosso amigo e companheiro Chico Rodrigues”.

E nesta última frase do áudio, fica a pergunta do eleitor para o senador Vanderlan Cardoso: Se Chico Rodrigues tem renda compatível com a movimentação financeira, por que ele tentou esconder os R$ 33 mil nas nádegas?

O senador Chico Rodrigues foi eleito com discurso de  combate à corrupção. Ele surfou na onda Bolsonaro nas eleições de 2018 que dizia, entre outras coisas: “Vamos acabar com a mamata!”.

Saint Exupery, autor da obra imortal “O pequeno príncipe”, dizia que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Chico Rodrigues cativava a mamata.

Mas segundo o presidente Jair Bolsonaro “a corrupção acabou no Brasil”.

Ou não?