Muitos brasileiros que já receberam a primeira dose da vacina contra a COVID-19 estão deixando de comparecer para a segunda aplicação. “Vão precisar novamente das duas doses se passar muito tempo”, avisa especialista.

Do Sputnik News

O único imunizante de apenas uma dose aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) até o momento é o da Johnson & Johnson, mas a vacina ainda nem chegou ao Brasil. Apesar disso, muitos brasileiros que tomaram a primeira injeção estão deixando de comparecer ao posto de saúde novamente para receber a segunda dose contra a COVID-19.

O Ministério da Saúde anunciou, na última terça-feira (13), que 1,5 milhão de pessoas estão nesta situação, o que coloca em risco a eficácia do próprio processo de vacinação.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) recomendou que sete municípios encontrem as pessoas que deixaram de tomar a segunda dose para conscientizá-las da necessidade da segunda aplicação. As cidades envolvidas neste caso são São Gonçalo, Niterói, Maricá, Rio Bonito, Silva Jardim, Tanguá e Itaboraí.

Do total de pessoas do país que já deveriam ter tomado a segunda injeção, 143.015 seriam moradores do estado do Rio de Janeiro.

Trabalhadores da Saúde preparam doses da vacina CoronaVac durante a vacinação para pessoas de 71 anos ou mais no Rio de Janeiro, no Brasil, no dia 31 de março de 2021

REUTERS / RICARDO MORAES Trabalhadores da Saúde preparam doses da vacina CoronaVac durante a vacinação para pessoas de 71 anos ou mais no Rio de Janeiro, no Brasil, no dia 31 de março de 2021ó

O Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) informou, nesta quinta-feira (15), que o número real divulgado pelo ministério é menor, porque muitos municípios estariam atrasando a inserção de dados no sistema do governo federal.

Ainda assim, a situação já preocupa autoridades de Saúde do país.

Segundo o médico Alexandre Chieppe, sanitarista da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, tomar apenas uma dose, além de não promover a proteção necessária contra a doença, ocasionará o desperdício da primeira vacina aplicada.

“Uma vez que a pessoa retome a vacinação, vai precisar novamente das duas doses caso passe muito do tempo que deveria tomar a segunda dose”, explicou o especialista em entrevista à Sputnik Brasil.

Chieppe ressalta que o país enfrenta um grande desafio de imunizar a população para “garantir uma relativa volta à normalidade”.

As duas vacinas únicas que estão sendo utilizadas no Brasil atualmente possuem intervalos distintos de aplicação entre as doses.

Enquanto a segunda dose da CoronaVac deve ser aplicada em até 28 dias, o imunizante da Oxford/AstraZeneca precisa de um intervalo de três meses entre as injeções.

“É fundamental tanto para otimizar os recursos necessários, como para garantir a saúde das pessoas e a imunidade contra o novo coronavírus, que todas aquelas pessoas se atentem para a necessidade de tomar as duas doses da vacina”, alertou o sanitarista.

Falsa sensação de segurança

A CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan e desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, tem uma eficácia geral de 50,38%. Contra graves, a taxa sobe para 100%.

Idosa de 68 anos recebe a primeira dose da CoronaVac em Ribeirão Preto (SP), no dia 2 de abril de 2021

FERNANDO CALZZANI / PHOTOPRESS Idosa de 68 anos recebe a primeira dose da CoronaVac em Ribeirão Preto (SP), no dia 2 de abril de 2021

Já a vacina da Oxford/AstraZeneca, produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Oxford, possui eficácia de 82,4% após a aplicação das duas doses. O imunizante também previne em 100% contra casos graves.

Mas estes números valem apenas para aqueles que tomarem as duas doses.

“Só assim há uma ativação suficiente do nosso sistema imunológico para produzir as defesas necessárias, e não somente contra a infecção, mas principalmente nos protegendo contra as formas graves da COVID-19”, afirmou Chieppe.

O especialista explica que a principal razão para, eventualmente, as pessoas não tomarem a segunda dose é a falsa sensação de que estariam protegidas com a primeira.

“É um erro. As pessoas precisam se conscientizar de que a não aplicação da segunda dose ou implica em uma proteção inadequada ou a necessidade de repetir e reiniciar todo o esquema de vacinação. É um apelo para que as pessoas se sensibilizem sobre a necessidade de voltar ao posto de vacinação em que recebeu a primeira dose e fique protegido contra a infecção”, disse o sanitarista da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro.

Servidor público manipula dose de vacina da Oxford/AstraZeneca contra COVID-19, em Brasília, 23 de janeiro de 2021
© FOTO / AGÊNCIA BRASIL / TOMAZ SILVA
Servidor público manipula dose de vacina da Oxford/AstraZeneca contra COVID-19, em Brasília, 23 de janeiro de 2021

O especialista ainda pede que, mesmo após as duas doses, as pessoas mantenham as medidas de precaução, com uso de máscara e distanciamento social, durante esta fase aguda da doença, com o número de novos casos e mortes em alta.

“O fato de a gente estar vacinado, mesmo com as duas doses, não nos impede completamente de adquirir a infecção por coronavírus. Protege, em grande medida de casos graves, mas o vírus continua circulando. Para não ser um vetor desse vírus, as medidas de precaução precisam ser mantidas até que o processo de vacinação avance muito no Brasil, o que deve acontecer certamente no segundo semestre”, afirmou.