A Universidade Federal de Goiás, que  disponibilizou seus técnicos e cientistas para prefeituras e o governo do Estado –  e vem tendo papel decisivo na política de controle e investigação de casos do novo coronavírus, fortalecendo as politicas de combate à virose -, faz nota pública contra campanha de calúnia, mentiras e difamação nas redes sociais.

Marcus Vinícius

O  boletim da Secretaria de Saúde de Goiás registrou ontem  24.666 contágios de coronavírus 2019 (Covid-19) no território goiano. Destes, há 475 óbitos confirmados. No Estado, há 59.981 casos suspeitos em investigação. Outros 29.446 já foram descartados. Há 41 óbitos suspeitos que estão em investigação. Já foram descartadas 433 mortes suspeitas nos municípios goianos. Seja em Goiânia, Aparecida de Goiânia ou junto ao governo do Estado, os professores, técnicos e cientistas da Universidade Federal de Goiás vem trabalhando no controle e investigação de casos da pandemia.

Mas o país vive uma disputa ideológica esdrúxula, e Goiás não escapa dela. Através das chamadas fake news (notícias falsas), grupos negacionistas, formados principalmente pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (Sem partido), negam a existência da covid19. Para estes grupos, o coronavírus é “invenção da Rede Globo”, “mentira dos comunistas” ou outras coisas sem sentido. Por isto, embora tenha um papel fundamental no combate à virose, a UFG também tem sido alvo das fake news. E por isto, a universidade emitiu nota se posicionando publicamente contra a divulgação de mentiras, notíticas falsas e calúnias que somente contribuem para que mais pessoas se contaminem, agravando o quadro já dramático da pandemia, que já ceifou a vida de cerca de 60 mil brasileiros.

Bolsonarismo e negacionismo matam

A reportagem do jornal Folha de S. Paulo trouxe hoje um estudo que revela que as falas do presidente Jair Bolsonaro, definindo o covid19 como “gripezinha” e seu discurso contra o isolamento social e pela abertura total da economia contribuíram para aumentar o número de mortes no Brasil, e entre as principais vítimas estão seus próprios apoiadores. Esta é  “a conclusão do estudo: “Ideologia, isolamento e morte: uma análise dos efeitos do bolsonarismo na pandemia de Covid-19”, de quatro pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC), da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade de São Paulo.”

A matéria da Folha ainda acrescenta que “o trabalho sustenta que a votação do presidente no primeiro turno, por município, tem correlação negativa com a taxa de isolamento; e correlação positiva com mortes por Covid-19. Em resumo, onde Bolsonaro teve mais votos, o isolamento tem sido menor —e o número de óbitos, maior,” aponta o estudo.

“Não conseguimos estimar quantas pessoas morreram a mais por conta das falas do presidente, mas certamente teríamos menos óbitos, principalmente entre seus apoiadores, se ele tivesse agido de forma diferente”, diz um dos autores do trabalho, Ivan Filipe Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP e professor da UFABC.

A cada vez que Bolsonaro minimizou a Covid-19, foram registradas quedas significativas nas taxas de isolamento social em todos os estados. Esses resultados, cruzados com a votação do presidente no primeiro turno de 2018 e com o número de mortes acumuladas por município, revelam que os óbitos foram maiores onde Bolsonaro teve mais votos, ressalta a pesquisa.

UFG combateu a meningite em Goiás

Durante a ditadura militar, nos governos dos generais Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979), a meningite meningocócica explodiu no Brasil e Goiás foi um dos locais onde ela se alastrou perigosamente. Os jornais, rádios e televisão (não existia internet) foram proibidos pelo governo militar de divulgar o número de casos, ou até mesmo a existência da epidemia. Algo que o presidente Bolsonaro tentou fazer em relação ao covid19, mas não conseguiu.

Neste período sombrio da história do Brasil a UFG (Universidade Federal de Goiás), contribuiu para o estudo e erradicação da doença em Goiás, através da pesquisa datado de 1973, sob o título: “Meningite Meningogôcica em Goiás – Evolução do Estado Endêmico para o Epidêmico”, assinada pelos médicos Joaquim Caetano de Almeida Netto, Cleomenes Reis, Lélio Leonardo Batista, Bendito Pereira Damasceno e Dione Damasceno. O relatório resume o quadro: “Os autores apresentam os dados relativos a incidência de meningite meningocócica na casuística do Hospital “Oswaldo Cruz” de Goiânia, De um total de 418 pacientes encaminhados ao Hospital “Oswaldo Cruz”, no primeiro período assinalado houve um aumento importante  do presente estudo, ou seja, de 10/70 a 09/72, foram feitas bacterioscopias do líquido céfalo raquidiano (L.C.R.) de 351 e culturas de 208. A partir de 10/72 a 06/73, (2<? período do estudo), dentre 268 casos de meningites, 261 submeteram-se à bacterioscopia do LCR e 234 a culturas”.

Estes estudos, somado aqueles feitos por outras instituições federais de ensino levaram o governo da ditadura a realizar a vacinação em massa da população nos anos de 1975 a 1977, quando a doença foi finalmente debelada do país, que desde então não viu surgir nenhuma nova epidemia de meningite.

 

Leia íntegra da nota da UFG

A Universidade Federal de Goiás (UFG) repudia de forma veemente qualquer tipo de difamação no sentido de desacreditar o trabalho científico de pesquisadores que trabalham arduamente colaborando pelo bem estar social. A comunidade da UFG está perplexa diante dos ataques que professores da instituição têm sofrido em virtude de estudos publicados que reforçam a necessidade de isolamento social para o combate à Covid-19.

Reforçamos o caráter científico das pesquisas, sempre baseada em critérios rigorosos de apuração e checagem dos fatos à luz da ciência, bem como a capacidade técnica dos pesquisadores e professores envolvidos, que formam uma equipe interdisciplinar de excelência internacional e com ampla experiência em bioestatística, modelagem computacional e epidemiologia. Entendemos que podemos dessa forma contribuir para auxiliar o planejamento e a gestão de políticas públicas no Brasil, formando uma frente ampla para o enfrentamento da pandemia da Covid-19.

O estudo apresentado ao Governo de Goiás, no dia 29/06, feito pelos pesquisadores da UFG Thiago Rangel (ICB), José Alexandre Diniz Filho (ICB) e Cristiana Toscano (IPTSP) alerta para a rápida expansão da Covid-19 no Estado, inclusive para o interior do Estado. O estudo também mostra claramente que milhares de mortes ocorrerão em Goiás se nenhuma medida for tomada e se a pandemia continuar a avançar na mesma velocidade.

Até o presente momento, o modelo de expansão da doença criado pelos pesquisadores da UFG tem sido capaz de prever corretamente os eventos de número de óbitos e hospitalização a partir dos níveis de isolamento social no Estado, o que leva à conclusão que é preciso reforçar ainda mais a necessidade de adotar um isolamento social mais rigoroso, associado a outras medidas que permitam um combate mais eficiente da pandemia.

A preocupação primeira da UFG é no sentido de poupar vidas e não há outro caminho conhecido até o momento que não seja o isolamento social cumprido de forma responsável por todos os brasileiros.

O resultado do isolamento social conseguido no início da pandemia em Goiás, já respaldado nas primeiras versões do modelo desenvolvido pelo grupo de pesquisadores, permitiu que o Governo do Estado pudesse se preparar melhor para atender aos goianos acometidos pela infecção da Covid-19. No entanto, a diminuição do engajamento social quanto à adoção do isolamento ao longo do tempo culminou em um aumento alarmante do número de casos nas últimas semanas.

A UFG reforça, com base empírica e científica, que caso não haja diminuição da taxa de transmissão da doença o sistema de saúde atual, não será possível atender a todos os pacientes que dele necessitarem com a quantidade atual de leitos disponíveis. A única intenção desses estudos é utilizar da capacidade técnica e científica da UFG para auxiliar e subsidiar políticas públicas para nosso Estado.

Infelizmente vivemos um momento em que foi disseminada a crença que há uma oposição entre economia e saúde, o que é inverídico visto que ambas se estruturam de forma a promover o bem estar coletivo e não apenas individual ou de minorias privilegiadas. A UFG segue ao lado da sociedade e não deixará de continuar subsidiando políticas públicas com informações científicas para evitar calamidades de efeitos catastróficos e não conhecidos resultantes da pandemia.

Desde março deste ano a instituição tem trabalhado incansavelmente, em diversas frentes, para continuar devolvendo a sociedade o investimento recebido ao longo dos seus quase 60 anos de idônea história e irrefutável contribuição ao desenvolvimento de nossa sociedade. E assim prosseguiremos preservando a vida, a liberdade de pensamento e acima de tudo a dignidade da pessoa humana.

Comunicação UFG