Em artigo o ex-ministro da Educação Fernando Haddad diz que ao invés de pensarem na população de seus respectivos países, ambos só pensam na reeleição .

 

Por Fernando Haddad

A eleição americana deste ano reveste-se de particular importância. Antes da pandemia, já era nítida a postura subserviente de Bolsonaro a Trump. Vergonhosa até. Sempre que pode, Bolsonaro macaqueia o ídolo ​. Do tridente do governo Bolsonaro –autoritarismo, obscurantismo e neoliberalismo–, dois são importados da matriz americana. Trump inspira postura antidemocrática e anticientífica. Só não é neoliberal.

Nesta semana, Trump ameaçou o Congresso. Sob pretexto de que o Senado não se posicionara tempestivamente sobre 15 indicações para cargos federais, invocou dispositivo constitucional jamais utilizado para sugerir a eventual suspensão das duas câmaras. Aqui, Bolsonaro, em briga com os governadores (tanto quanto Trump), afirmou que cabia a ele, e não aos governadores, a decretação do estado de sítio. Os gestos de um e outro têm dois traços comuns: autoritarismo político e malabarismo jurídico.

Em relação à ciência, as posturas pouco divergem. Aquecimento global continua sendo tabu, tanto quanto, até há pouco, as advertências dos cientistas sobre possível epidemia. A retração econômica, por enquanto, deve atenuar os efeitos da emissão de poluentes, mas a máquina de devastação de Ricardo Salles acelera: o ritmo de desmatamento da Amazônia neste ano dobrou em relação ao anterior.
Quanto ao coronavírus, mesmo descaso. Nem Trump nem Bolsonaro quiseram entender a necessidade de “achatamento” da curva de contágio para não implodir a infraestrutura de saúde. Ambos só pensam em reeleição.

O padrão do isolamento social tem um ponto –arriscaria dizer ótimo, não mínimo — de tempo e abrangência que não pode ser fixado politicamente, ainda que ao custo da aprovação popular. São responsabilidades da grande política.

A curiosidade desta pandemia, entretanto, é que fazer a coisa certa tem rendido dividendos políticos. Pelo menos até agora. Por que Bolsonaro não segue esse caminho?

Para Hélio Schwartsman, na Folha, Bolsonaro é burro: “uma guerra ou pandemia é o sonho de consumo de líderes em dificuldades, pois oferecem o pretexto para evocar o discurso da união e surfar na onda de popularidade”.

Ruth de Aquino, em O Globo, sugere que Bolsonaro é psicopata: “a psicopatia não é uma loucura, mas uma insanidade moral de quem não tem como se retificar, porque não sente culpa; não tem empatia, o que lhes interessa é o que lhes convém”. Adjetivos não excludentes.

De qualquer forma, Trump e Bolsonaro vêm gerindo mal a crise. O futuro dos dois é incerto a essa altura, mas o futuro do mundo certamente seria melhor sem os dois.