Reportagem do site The Intercept Brasil mostra que capital financeiro concentra renda e oprime as famílias brasileiras, que estão cada vez mais endividadas e não conseguem fazer frente aos juros altíssimos do cartão de crédito e do cheque especial, enquanto os bancos tem o maior lucro da história no Brasil.

Por Rosana Pinheiro Machado – Enquanto bancos têm lucro recorde, pessoas adoecem tentando pagar boletos. Em 2019, o lucro acumulado do Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e Banco do Brasil foi de R$ 59,7 bilhões, o maior desde 2006. A euforia do capital financeiro se contrasta com o sofrimento financeiro de grande parte da população. Segundo a CNC, 65,1% das famílias brasileiras estão endividadas — índice recorde desde 2013.

Desde os escritos do pensador francês Marcel Mauss (1872- 1950), sabemos que a dívida é uma dimensão estruturante das relações humanas. Quem doa fica na posição de poder e prestígio. Quem deve fica em desonra e posição de inferioridade. A vida coletiva em todas as sociedades é marcada por uma constante dança para que essas relações de crédito sejam balanceadas em uma economia humana de reciprocidade. Mas isso, segundo o best-seller “Dívida“, de David Graeber, é impossível alcançar em economias de mercado, que, segundo o autor, são estruturadas sobre a violência estatal produtoras de endividamento e subordinação.

Leia a íntegra da matéria no The Intercept Brasil.

Brasil colônia de banqueiros

Em seu blogspot o economista Rodrigo Santanna faz comparações importantes sobre como os bancos estrangeiros tratam o consumidor brasileiro e o cliente de seus países de origem.

Ele relata que em 2015, segundo o Banco Central, os bancos cobravam juros de 104% no crédito comercial; 403% no crédito rotativo; 253,2% no cheque especial; 25% a 30% no crédito consignado. Para pessoa física, 103%.

“É evidente que parte fundamental da renda nacional é apropriada pelos bancos via juros, sem nenhuma razão econômica que a justifique a não ser o poder político e o poder econômico que controlam e exercem. Os efeitos e as consequências dessa apropriação são fatais para o crescimento e acarretam uma extraordinária concentração de renda, agravada pela estrutura tributária e pelos pagamentos de juros da dívida interna”, frisa.

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A tabela acima mostra que a taxa real de juros para pessoa física (descontada a inflação) cobrada pelo HSBC no Brasil é de 63,42%, quando é de 6,60% no mesmo banco para a mesma linha de crédito no Reino Unido.

Para o Santander, as cifras correspondentes são 55,74% no Brasil e 10,81% na Espanha. Para o Citibank são 55,74% no Brasil e 7,28% nos EUA. O Itaú cobra sólidos 63,5%.

Comenta o estudo do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas):

“Para empréstimos à pessoa física, o diferencial chega a ser quase 10 vezes mais elevado para o brasileiro em relação ao crédito equivalente no exterior.

 

As empresas brasileiras não tem como competir com empresas estrangeiras que tem acesso ao crédito muito mais barato.

O Banco Santander  cobra em empréstimos até 20 vezes mais de seus clientes brasileiros, quando comparado aos clientes espanhóis.
Os números mostram que a Espanha tem uma relação de endividamento/PIB 30% maior que do Brasil e, nem por isso, as empresas espanholas e cidadãos pagam taxas de usura que se praticam no Brasil.

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Os juros no Brasil são um obstáculo, uma trava ao investimento e ao consumo das empresas e famílias. Os preços finais com juros são, em média, 2 vezes os preços à vista do bem de consumo. Parte fundamental do lucro das empresas é apropriada pelo sistema bancário e se expressa no ditado popular “trabalho para o banco”.

O lucro do Itaú foi de R$ 20,6 bilhões em 2014, um crescimento de 30,2%, e o Bradesco de R$ 25,6 bilhões. Dos 54 bilionários brasileiros, 13 são do setor bancário, segundo a revista Forbes.

A primeira grande falha é do BC que deve regular o sistema bancário e financeiro e não o faz, já que é capturado pelo próprio sistema e está a serviço de seus objetivos e de sua lógica da especulação financeira.

O custo financeiro de nossas empresas é o maior entrave ao nosso crescimento e competitividade, mais grave que o custo tributário e logístico. Trata-se de um oligopólio de alto custo para o país, um grave problema sistêmico que precisa ser reformado.