Terror dos corruptos nos anos 1990, o Procurador da República Luz Francisco de Souza concedeu ampla entrevista do jornalista Eduardo Militão, do UOL em Brasília. Francisco foi responsável pelas prisões do senador Luis Estevão (PMDB-DF), de Hidelbrando Pascoal (DEM-AC), o “Hidelbrando Moto-Serra”, acusado de matar adversários políticos com o instrumento de trabalho de lenhadores. Também foi autor da denúncia que levou à cassação do senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e à prisão do ex-ministro Henrique Alves (MDB-SE).

Luiz Francisco de Souza fez severas críticas à operação Lava Jato e ao seu coordenador, o procurador Deltan Dallagnol. Ele condena de prisão em segunda instância, e diz que o encarceramento em massa não resolve o problema da violência no Brasil. O procurador vê possibilidade de ocorrer impeachment do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ), ataca a política de extermínio do governador do Rio de Janeiro “Adolf” Witzel (PSC), diz que o ex-presidente Lula errou no caso do Sítio de Atibaia, mas ressalta que não há provas robustas para condená-lo neste caso, e nem no do apartamento do Guarujá.

O procurador, que atua no MPF de Brasília, elogia o garantismo do ministro Gilmar Mendes. Ele afirma que o mundo está se revoltando com o Estado Mínino, cita o economista Thomas Pikety, que defende mais controle do Estado sobre a riqueza e entende que o Brasil deve copiar mais a Noruega e os países escandinavos no trato com a coisa pública do que os Estados Unidos de Donald Trump. Leia a íntegra da matéria no site do UOL.

Veja alguns pontos da entrevista:

Deltan Dallagnol
“Como membro do MP, eu sinto vergonha de ter o Deltan dentro da minha instituição. A gente é principalmente defensor de direitos humanos, de garantismo, do combate à verdadeira corrupção, o que significa defender o patrimônio público, as estatais, e não quebrar as empresas. As empresas são principalmente dos trabalhadores. A Odebrecht tinha 250 mil trabalhadores. Acho que só sobraram 60 [mil], e agora acho que não vai sobrar nenhum”

Prisões em massa
“A fábrica número um de crimes é a miséria, a destruição maciça dos direitos trabalhistas sociais. Mas depois é a prisão. Estão errados esses engraçadinhos que dizem assim: “A gente tem que combater o crime mandando mais gente para as prisões”. Assim como aquele fascista lá do Adolf Witzel [trocadilho pejorativo entre os nomes do ditador nazista da Alemanha Adolf Hitler (1889-1945) e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel] que manda mirar na cabeça de adolescentes negros, matando aquela menina Ághata [Felix, garota de 8 anos morta no Rio de Janeiro por causa de tiros da polícia] pelas costas”.

“Esse caminho (encarceramento em massa), na verdade, é o caminho do genocídio, da multiplicação dos crimes, porque você pega as pessoas pobres e manda para os presídios. E elas voltam monstros. O caminho é o da Noruega, de ampliação do Estado, um controle maciço da Receita sobre o patrimônio de cada pessoa”.

Prisão em segunda instância
“A Constituição é bem clara. Só pode ter prisão por duas razões: ou a prisão cautelar, que é a prisão preventiva; ou a prisão após o trânsito em julgado. Não pode ter prisão automática. Isso é coisa da ditadura militar. Na ditadura, por exemplo, se o cara tinha um processo cuja pena era mais de dez anos, a pessoa era presa automaticamente. Isso é uma coisa absurda, injusta, louca e irracional”.

Bolsonaro
“Eu espero, na verdade, que nem chegue ao final. O [presidente dos EUA, Donald] Trump, por exemplo, está sob [processo de] impeachment. Aí, se Deus quiser, vai cair em março. Eu espero que o Bolsonaro também seja objeto de impeachment muito antes. É o que eu espero, porque, de fato eu sinto profunda vergonha, como brasileiro, como pessoa pública, de ter um presidente igual a esse. É uma coisa que é trágica, que é totalmente irracional como é que a gente chegou a um nível desse”

Lula
“Sobre o Lula, aquele caso lá do apartamento é um absurdo total. Não existe propriedade de fato. Propriedade de fato é posse. Ele nunca teve a posse, nunca teve a propriedade”.

“No caso do sítio, eu acho que o Lula errou, porque ele nunca deveria ter dado as palestras como Fernando Henrique Cardoso deu. Mas ele deu aquelas palestras após sair do cargo. Após sair cargo, não no cargo, como o Dallagnol fez. Então, ele não deveria ter dado palestras. E eu acho também que não deveria ter ido no sítio do amigo dele, o Jacó Bittar”.