Em artigo publicado na edição desta semana da Revista Carta Capital, o sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi, analisa o primeiro mês do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e avalia que o fiasco de Davos (Suíça), o crime ambiental de Brumadinho (MG) e as trapalhadas dos ministros pode decretar o fim prematuro do bolsonarismo.

 

O primeiro mês de Bolsonaro

 

Por Marcos Coimbra

O primeiro mês de Bolsonaro e sua turma no governo foi ridículo e assustador. Nada, no entanto, que não se pudesse antecipar.

Imprevisível era que esses 30 dias terminassem em tragédia. Mas aconteceu, com o rastro de morte e destruição provocado em Brumadinho por mais um desastre humano e ambiental. Juntamente com a lama, lá se foi o discurso econômico da turma.

É cedo para decretar, mas tudo indica que, muito antes do que se poderia imaginar, o “bolsonarismo” morreu. Ao longo das próximas semanas e meses, teremos pesquisas para dar números ao fenômeno, cujos sinais são visíveis.

Dizer que o bolsonarismo acabou não significa supor que não há mais quem goste do cidadão. Gente assim ainda existe, até porque foi cedo atraída e estabeleceu laços com o personagem. Em sua maioria, é saudosa da ditadura militar, acredita na violência como remédio para tudo, é intolerante, agressiva e ressentida.

Tanto no Brasil quanto em outros lugares, pessoas com esse perfil são lamentavelmente comuns, em especial quando os países atravessam crises econômicas e há muita frustração de expectativas. Bolsonaro tornou-se seu candidato por ser igual a elas.

Segundo as pesquisas, o bolsonarismo de origem não é muito grande, mas tem tamanho significativo: em 2018, ocupava um nicho de cerca de 15% do eleitorado. Na média de todos os levantamentos publicados, o capitão só saiu dele no fim de agosto, em plena campanha, quando atingiu 20%. Alcançou 25% quando faltava menos de um mês para o pleito, turbinado pelo desânimo com os outros candidatos conservadores e depois da misteriosa “facada”.

Houve um momento, logo após a eleição, em que parecia ter potencial para crescer, consolidando a votação obtida e se enraizando na opinião pública. Antes do fim do ano, a hipótese se desfez. O primeiro mês a sepultou.

Será que o bolsonarismo genuíno ainda tem o apoio de 20% da população? Ou refluiu para o piso de 15%?

Quem sabe hoje nem sequer chegue a isso?

Tudo indica que não apenas não conseguiu crescer e alcançar o porte necessário a reivindicar algo próximo a uma hegemonia como retrocedeu e retornou ao gueto social onde nasceu. Em menos de um mês, desapareceu a pequena liderança que possuía. Até Temer durou mais.

A dissolução do bolsonarismo não muda, contudo, o antipetismo que existe em nossa sociedade. Uma coisa é Bolsonaro ser o que é, outra é a parcela antipetista mudar de opinião