Após o presidente Jair Bolsonaro afirmar que cabe às Forças Armadas de um país decidir se um povo vai viver em uma democracia ou em uma ditadura, a Sputnik Brasil conversou com um cientista político para entender melhor as suas repercussões.

Do Sputinik

Durante uma conversa com apoiadores na saída do Palácio do Planalto nesta segunda-feira (18), Bolsonaro voltou a insistir na tese de que a democracia só está vigente no Brasil por vontade das Forças Armadas.

Em um vídeo que circulou pelas redes sociais bolsonaristas, o presidente afirma a seus apoiadores que “quem decide se um povo vai viver numa democracia ou numa ditadura são as suas Forças Armadas”.

“Não tem ditadura onde as Forças Armadas não apoiam. No Brasil, temos liberdade ainda. Se nós não reconhecermos o valor desses homens e mulheres que estão lá, tudo pode mudar”, declarou Bolsonaro.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o cientista político Antônio Marcelo Jackson, professor do Departamento de Educação e Tecnologias da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, assinala que as palavras de Bolsonaro revelam uma contradição, pois ele foi eleito de forma democrática para o cargo, e também representam, ao mesmo tempo, uma ameaça às instituições e um aceno às suas bases.

“Qualquer palavra vinda de uma pessoa que foi eleita para ser presidente da República de um país que vai contra os interesses básicos, inclusive daquilo que o elegeu – o que revela uma contradição -, é uma ameaça à democracia”, afirma o professor da UFOP.

Além disso, o especialista ressalta que a fala do presidente se dá quase que imediatamente após a publicação de pesquisas que mostram uma nova queda em sua popularidade, voltando para o patamar do início da pandemia, o que o coloca no que se chama de núcleo duro de seus eleitores, que gira em torno de 30%. Segundo especialista da UFOP, é nesse núcleo que mensagens como as de ontem (18) têm maior ressonância.

“O núcleo duro do bolsonarismo consiste em pessoas que não são dadas à democracia. Há um percentual de pessoas no Brasil que não é adepto da democracia e que encontra em Bolsonaro o seu líder ideal. Então, ao dar essa declaração, Bolsonaro também está falando para seus apoiadores”, opina Jackson.

O cientista político considera que essas declarações têm grande repercussão, pois geram fortes reações de políticos, tanto ligados à esquerda quanto à centro-direita, que aproveitam a oportunidade para utilizá-la como uma forma de aumentar sua evidência e seu capital político, como é o caso do governador de São Paulo João Doria (PSDB), que vem protagonizando um embate com Bolsonaro desde o início da pandemia e já demonstrou diversas vezes que pretende concorrer à presidência em 2022.

 

Para Jackson, Doria se aproveita de mais uma “bobagem” dita por Bolsonaro, e do bom momento político que vive devido à sua aposta na CoronaVac – a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, que teve o seu uso emergencial aprovado no domingo (17) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – para criticar duramente o presidente e ampliar sua plataforma política, pensando em 2022. 

​O especialista da UFOP, no entanto, acredita que, apesar de ser “uma fala completamente absurda”, há um certo cálculo por trás da mesma, pois Bolsonaro tem o costume de levantar polêmicas para mudar o foco de derrotas de seu governo e dos problemas que surgem em seu entorno.

“A fala de Bolsonaro é absolutamente absurda, mas ele faz essa provocação no momento em que cai a sua popularidade e no momento em que a vacina desenvolvida pela China em parceria com o Instituto Butantan, que ele sempre foi contra, é aprovada pela Anvisa, o que representa uma derrota política para ele”, opina.

Além de fortalecer a posição de Doria, Jackson considera que a fala de Bolsonaro expõe as Forças Armadas ao ridículo e que caberia aos militares, tanto da reserva quanto da ativa, dizer basta, pois, se isso continuar acontecendo, as Forças Armadas do Brasil “serão tratadas com achincalhe total”.

“Nenhum presidente, de qualquer lugar do mundo, tem como papel achincalhar suas instituições. Bolsonaro, diretamente ou por meio de seus filhos, já achincalhou o Supremo Tribunal Federal, achincalha o Poder Legislativo, os governos estaduais e a própria ideia de federação. Além disso, cada vez que ele faz uma declaração como essa, ele também achincalha as Forças Armadas. Bolsonaro ainda não entendeu que ser eleito presidente da República não lhe dá poder supremo. Ele não entendeu que ele deve servir ao povo […] Acho que ele nunca entendeu muito bem a ideia de cargo público”, conclui o professor da UFOP.

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