Em quarentena total desde 20 de março, a Argentina alcançou feitos notáveis no enfrentamento ao coronavírus, tendo conseguido achatar o crescimento da curva de infectados e mantendo, até agora, o seu sistema de saúde a salvo do colapso. 1.795 casos de covid-19 e 70 mortes. Números muito inferiores em comparação aos vizinhos. O Brasil, por exemplo, passa dos 17 mil casos e as mortes se aproximam de mil.

A constatação de que o isolamento total salva vidas foi feita pelos portais GaúchaZH e Rede Brasil Atual , de acordo com estes sites, as medidas rigorosas do presidente Alberto Fernández, sobretudo o confinamento obrigatório, são apoiadas por médicos argentinos.

Estamos em situação muito melhor do que outros países. Isso é reflexo das medidas drásticas. Tivemos ações rápidas e isso ajudou a achatar a curva de infectados. Se espera que o pico ocorra aqui em meados de maio. No momento, o sistema sanitário opera em sua capacidade normal, sem sobrecarga. Estamos preparados para não colapsarmos o sistema. É a forma para que mais pessoas possam sobreviver — analisa Diego Glasbauer, médico de Buenos Aires que atua na pandemia devido a sua especialização no tratamento de pessoas com incapacidades físicas e mentais, consideradas do grupo de risco.

Saídas de argentinos às ruas somente são permitidas para comprar alimentos, remédios ou sacar dinheiro. O transporte público está ativo apenas para profissionais de atividades consideradas essenciais, como trabalhadores das áreas da saúde e da alimentação. Forças policiais foram mobilizadas para fiscalizar o cumprimento das normas, que se estendem por todo o território argentino. Nas periferias das grandes cidades, o Exército está distribuindo gêneros alimentares para tentar conter movimentação de pessoas que precisam trabalhar diariamente para reunir o dinheiro da comida.

As ruas estão vazias e os mercados com muita fila. As pessoas estão assustadas, assim como a gente. O mais triste disso é estar longe da família, obviamente não podemos voltar ao Brasil. Os treinamentos foram cancelados e temos de ficar em casa — relata o ex-jogador do Inter Guilherme Parede, atualmente no Talleres, de Córdoba.

A decisão de radicalizar no enfrentamento à pandemia levou algumas cidades à paralisia total. Na pequena El Calafate, na região da Patagônia, a economia é amplamente baseada no turismo. Com as fronteiras cerradas e diante de uma crise internacional, não há visitantes. As belezas naturais de gelo do extremo sul argentino não estão sendo contempladas por ninguém: o Parque Nacional Los Glaciares foi fechado.

 Tenho uma pequena pousada que está parada em El Calafate. Não há parque, voos ou ônibus. Cerca de 80% dos nossos turistas são estrangeiros. No início, o governo nos contatou porque queria saber onde havia europeus e asiáticos hospedados. Nas pousadas e hotéis onde havia gente dessas nacionalidades, foi estabelecido um controle, eles foram isolados nos quartos, não podiam sair, e com frequência tiravam a temperatura e checavam se havia sintomas — conta o empresário Jorge Wojda, que descreve um cenário de economia totalmente paralisada em El Calafate.

Quarentena total e economia

Sobre o cenário real vivido pelos argentinos e sobre a avaliação das medidas adotadas pelo governo do país vizinho, a #RBA conversou com a empresária Monique Lemos. Monique é brasileira, do interior de Minas Gerais, e mora há mais de dez anos em Buenos Aires. Ela trabalha como assessora de brasileiros que vão para a Argentina estudar. Monique falou com a reportagem sobre receios e expectativas em meio à pandemia, no país que escolheu para viver.

O governo de Alberto Fernández adotou medidas intensas de isolamento social. Como isso foi absorvido pelas pessoas?

Monique: Penso que a Argentina vai passar por isso como país referência. Quarentena antes “do bicho pegar”. Assistência social para quase todos os setores da sociedade. Não deixar se abalar pelo setor privado. Atendimentos bem feitos, controle de carros nas ruas, necessidade de permissões para circular. Tudo feito muito rápido e muito estruturado.

Penso no estado que o Alberto pegou o governo, quebrado pelo (Maurício) Macri. Ele entrou dia 10 de dezembro e tudo isso começou rapidamente. Agora ele (Fernández) vai ficar na história como referência, por ser tão efetivo.

No começo de tudo, já estávamos agradecidos de termos um presidente que adotou precauções e mostrou comprometimento com a situação. Viemos de um governo dolorido do Macri, que destruiu a economia e teve uma atenção social muito baixa. Mudamos da água para o vinho em uma situação de emergência.

No Brasil, a preocupação com a economia é central no enfrentamento da pandemia. Muitos se preocupam com os reflexos da quarentena nas projeções do mercado e também com o desemprego. Como o governo Fernández trata da questão econômica?

É muito humanizada a forma como o Alberto vê a pandemia. Ele deixa claro que o governo não esqueceu a economia, mas o país precisa estar saudável.

O Alberto tem dito que a economia é essencial, mas não existe economia que sobreviva a um país com um grande número de mortos. Ele se mostra seguro no que está fazendo. Sua equipe vem controlando preço dos produtos no supermercado, espaços que possam ser transformados em locais de atendimento para infectados com sintomas leves, fazendo com que autônomos recebam 10 mil pesos, criando formas para que aposentados possam receber sem ir ao banco. Ele tem sido muito incisivo na questão daqueles que furam a quarentena. Sentimos que é um protocolo sério de uma liderança séria.

“Nunca, na minha vida, senti tanto a necessidade e a presença do Estado. Precisamos de um projeto. Sinto confiança aqui, na Argentina, porque temos tudo às claras (…) Tem sido um alívio estar aqui”.

Como empresária, como vê o cenário de óbvia desaceleração da economia? Como o governo trata o setor produtivo na Argentina?

Eu, como empresária, tenho que postergar a vinda dos alunos para cá e tenho trabalhado com estudo online. A maioria das faculdades estão mantendo algumas aulas online, passaram um calendário para reiniciar no dia 1º de junho, coisa que acho que não vai ser cumprida. Está claro que não é prioridade do governo que as aulas voltem neste ano.

Sobre o mercado, não chega a ter um desespero como no Brasil. É difícil ver alguém que não quer saber da doença e quer abrir o comércio. Da última vez que vi, 87% das pessoas concordavam com a quarentena. E as pessoas estão tratando de ser criativas com os negócios, fazendo de tudo para manter o mínimo possível para pagar custos fixos.

Como é o diálogo do empresariado com o governo?

Algumas empresas quiseram demitir em massa, mas o escracho na imprensa e nas redes foi bem grande. Não é bem visto. É um compromisso a se respeitar, o salário dos trabalhadores. Não sei se essa pressão que os empresários fazem no Brasil é parecida com o que acontece aqui. Aqui tem respostas para questões do empresariado. Eles estão em diálogo com o presidente. Esse presidente mantém comunicação com todos os setores. Não tem rixa, não tem conflito. Sindicatos, empresariado, todos estão na mesa e são ouvidos pelo Alberto para encontrar uma solução.

Fernández tem uma grande popularidade entre os argentinos. Sua postura contribui para isso? Como os argentinos enxergam o kirchnerista?

A aprovação do Alberto tem sido quase total. Desde o primeiro anúncio, no dia 19 de março, quando disse que não podíamos mais sair nas ruas, ele deixou claro que, aqueles que têm tarefas essenciais, como pessoal da saúde e de abastecimento de alimentos, teriam que tirar uma permissão pelo site do governo. Quem está na rua precisa desse “permiso”, um papel que diz aonde você trabalha, sua categoria, e se ela está na lista de atividades essenciais.

Todos os discursos dele até agora foram sérios e esperançosos. Além de explicar muito bem os protocolos seguidos, eles explicam muito os porquês desta quarentena tão forte. Poucos países estão cumprindo este protocolo de quarentena. Mas os que estão, não estão em situação de emergência.

No Brasil, o presidente, Jair Bolsonaro, tem ignorado a importância do isolamento social. Ele aposta, dia após dia, na eficácia de um medicamento; a cloroquina e seu derivado, hidroxicloroquina. Existe expectativa na Argentina sobre tal droga?

Para falar a verdade, em jornais e televisão, nunca ouvi falar desses remédios como opção; muito menos alguém do governo usando desse tipo de medicamento como algum tipo de solução. Ninguém se atreve a fazer nenhum tipo de recomendação médica pela televisão, ou que não seja amparado por um médico.

Quem aparece para falar na televisão são infectologistas. Não é qualquer um que sai falando. Não tem essa repercussão que teve por aí. Tem, claro, artigos sobre esses remédios. Mas, de jeito nenhum, estamos comprando isso. Sabemos que na Argentina esse medicamento é produzido. Mas, em nenhum momento, tiraram proveito disso para falar que isso vai cuidar da população.

Tenho visto os discursos do Bolsonaro. Acho que é surreal para o mundo inteiro o que ele tem feito. Aqui ele é motivo de chacota. Não conseguimos sequer terminar de escutar o que ele está falando. A realidade que vivemos aqui é tão outra, de cuidado, de não passar informação errada. Inclusive, a quarentena tem sido anunciada de maneira fragmentada para não assustar as pessoas. Temos um cuidado.