Luiz Carlos Azenha, jornalista com passagens pela TV Globo,  Bandeirantes e Record  analisa a entrevista do ex-procurador Carlos Alberto dos Santos Lima à Renata Lo Prette no GloboNews, onde Lima, que é visto como ideólogo da Lava Jato, admite que os procuradores de Curitiba tinham preferência pela candidatura do capitão Jair Bolsonaro (PSL).

Santos Lima, que saiu da Lava Jato para “ganhar dinheiro”, como ele próprio enfatizou, agora presta serviço as empresas fazendo consultoria de complaice, onde supostamente ensina os empresários a seguirem as regras legais.

 

Mensagens reveladas pela Vaza Jato sugerem que a preferência dos procuradores lavajatistas por políticos  e setores empresariais como o setor dos bancos e com alguns políticos “amigos” da Operação, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro Onyx Lorenzoni, o senador Álvaro Dias e o ministro pilar central do governo Bolsonaro, Paulo Guedes

Santos Lima, ao se afastar da Lava Jato, tinha como objetivo “ganhar dinheiro”, de acordo com o que escreveu a jornalista Amanda Audi no Poder 360.

Outra jornalista, Monica Bergamo, da Folha de S, Paulo,  revelou que Santos Lima recebeu R$ 286 mil em diárias, pois era lotado na Procuradoria em São Paulo mas servia em Curitiba.

Santos Lima fez uma recente aparição no programa Painel, da GloboNews.

Ele polemizou com o advogado Walfrido Warde, que vê abusos na atuação da Lava Jato, se confirmados os vazamentos do Intercept Brasil.

Santos Lima afirma que, se fosse Moro, não teria aceitado cargo no governo Bolsonaro.

Para ele, a Lava Jato é de “centro”, esmagada de um lado por Bolsonaro e de outra pelo Centrão e a esquerda no Congresso.

O ex-procurador critica o Supremo Tribunal Federal, cujos ministros teriam criado para si próprios “um superforo privilegiado”.

Santos Lima defende a investigação dos negócios do ministro Gilmar Mendes, por exemplo.

Ele afirma que o Congresso, através de Rodrigo Maia, está pressionando Bolsonaro a desmontar a Lava Jato — e os choques públicos entre o presidente e Sérgio Moro seriam resultado disso.

“Todo respeito a ele, mas o mesmo não esteve comigo durante a campanha, até que, como juiz, não poderia”, escreveu recentemente Bolsonaro numa rede social, em resposta a um apoiador que pediu a ele que cuidasse bem do ministro da Justiça.

Para Santos Lima, Moro é “refém do filho” de Bolsonaro, sob investigação. Ele se refere ao senador Flávio Bolsonaro.

A Operação Lava Jato depende de integração entre os distintos órgãos de investigação, como a Receita Federal, o Coaf e outros.

Para Santos Lima, ao fazer o desmanche desta estrutura, Bolsonaro está matando a Lava Jato.

O discurso do ex-procurador é de que Moro foi “tragado” pelo sistema.

De fato, nas redes de extrema-direita, Deltan Dallagnol vem sendo taxado como alguém de “centro-esquerda”, que pretende usar dinheiro do Fundo da Petrobrás para financiar ONGs abortistas, que defendem Marielle Franco ou são associadas a George Soros.

A acusação foi feita por um blogueiro pró-Bolsonaro.

Olavo de Carvalho gravou um vídeo concordando com a tese acima. Citou de passagem Moro e Dallagnol.

No vídeo, o guru dos Bolsonaro diz que é comum um grupo corrupto tentar se apropriar do poder usando o discurso contra a corrupção — segundo ele, o PT fez isso no passado.

Para Olavo, Bolsonaro não seria parte deste grupo, mas Moro e Dallagnol supostamente sim.

Os dois vídeos — do vlogueiro e de Olavo — foram compartilhados por Eduardo Bolsonaro, o deputado federal que quer ser embaixador do Brasil em Washington.

Confirmam que o grupo mais íntimo de Bolsonaro está tocando fogo na fervura sob Moro e Dallagnol.

Durante o programa da GloboNews, Santos Lima foi contestado várias vezes pelo advogado Walfrido Warde.

Por exemplo, sob consultas informais da Lava Jato à Receita Federal, reveladas pela Vaza Jato.

Nada no papel, que depois poderia ser revelado ou legalmente questionado.

Warde quis saber quem imporia limites à Lava Jato.

Para Santos Lima, milhares de advogados e as instâncias da Justiça já o fazem.

Na entrevista, que foi ao ar em 23 de agosto, Santos Lima não menciona as corregedorias*.

Infelizmente para Santos Lima, o timing da entrevista foi péssimo.

No vazamento publicado pelo Intercept nesta segunda-feira, 26 de agosto, ficou claro que a corregedoria do CNMP engavetou crime cometido por integrante da Lava Jato.

O corregedor soube do crime cometido pelo procurador Diogo Castor de Mattos e simplesmente abafou.

Dallagnol e os amigos procuradores, que também souberam do crime, prevaricaram ao não botar a boca no trombone?

No mínimo, o órgão mais diretamente encarregado de monitorar a Lava Jato falhou miseravelmente.

Fez política.

A outra revelação de Santos Lima, publicada pelo jornalista Reinaldo Azevedo, veio no fim do programa.

Ele acreditava que Fernando Haddad ia acabar com a Lava Jato, embora no decorrer do programa tenha admitido que Lula, Dilma e Temer não tentaram fazê-lo.

Ironicamente — e Santos Lima admite isso — o candidato escolhido pela Lava Jato é quem vai acabar com a Operação.

Aqui, na altura do minuto 43:

Carlos Fernando dos Santos Lima: Infelizmente, no Brasil, nós vivemos um maniqueísmo, né? Então nós chegamos… Inclusive, no sistema de dois turnos, faz com que as coisas aconteçam dessa forma. É evidente que, dentro da Lava Jato, dentro desses órgãos públicos, de centenas de pessoas, existem lavajatistas que são a favor do Bolsonaro. Muito difícil seria ser a favor de um candidato que vinha de um partido que tinha o objetivo claro de destruir a Lava Jato. Seria muito difícil acreditar que…

Renata Lo Prete: Você está se referindo a Fernando Haddad?

Carlos Fernando dos Santos Lima: A Fernando Haddad, obviamente. Então nós vivemos este dilema: entre a cruz e a caldeirinha; entre o diabo e o coisa ruim, como diria o velho Brizola. Nós precisamos parar com isso. Nós realmente temos que ter opções. Infelizmente, um lado escolheu o outro. E, naturalmente, na Lava Jato, muitos entenderam que o mal menor era Bolsonaro. Eu creio que essa era uma decisão até óbvia, pelas circunstâncias que Fernando Haddad representava justamente tudo aquilo que nós estávamos tentando evitar, que era o fim da operação. Agora, infelizmente, o Bolsonaro está conseguindo fazer.

PS do Viomundo: Nosso leitor Zé Maria esclarece que

Para não fazer confusão, na cúpula do MPF, existe uma Corregedoria-Geral atuando na Fiscalização interna, controlando regularmente as atividades. E no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), a Corregedoria Nacional do CNMP, que atua externamente – ainda que presidido pela PGR – em Processos Administrativos Disciplinares (PADs) originadas de Sindicâncias instauradas geralmente por representação de qualquer cidadão brasileiro. Até agora, o Intercept já revelou que 2 Corregedores-Gerais, dentro do MPF, articularam com Deltan Dallagnol, para evitar Processos Disciplinares de Procuradores da FTLJ. Primeiro foi o ex-Corregedor Geral, Hindemburgo Chateaubriand Filho, e agora o atual Corregedor-Geral do MPF, Oswaldo Barbosa.

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