O líder kayapó Ropni Metyktire, mais conhecido como cacique Raoni, 89 anos, indicado para o Nobel da Paz de 2020, recebeu alta médica neste sábado (25), em Sinop (MT). Ele havia dado entrada no Hospital Dois Pinheiros, com um quadro de hemorragia digestiva, no último dia 18.

Essa foi a segunda unidade hospitalar onde recebeu cuidados. Em um primeiro momento, no dia 16 de julho, foi encaminhado de sua aldeia, na terra indígena Capoto-Jarina, para um hospital em Colíder (MT). Na ocasião, já apresentava sintomas de desidratação.

Durante o período de internação, o líder kayapó foi submetido a uma transfusão de sangue e a uma bateria de exames, que detectou úlceras intestinais, inflamação no cólon, fibrilação atrial crônica e enfisema. Como consequência do sangramento digestivo, desenvolveu anemia em nível grave.

Em entrevista realizada na manhã de hoje, o médico Douglas Yanai afirmou que o líder indígena chegou abatido ao hospital e que suspeita que a morte da companheira do cacique, Bekwyjkà Metuktire, no mês de junho, tenha relação com os problemas de saúde desencadeados.

“Agora estou curado e queria dizer que a doença chega em qualquer dia e acomete alguém da nossa família. Queria que todas as pessoas pensassem nisso e pudessem amar, respeitar o outro, porque a gente não sabe o dia de amanhã, se nossos amigos vão ficar doentes”, afirmou o líder, em coletiva de imprensa.

Cacique Raoni é uma liderança de forte influência e que mantém interlocução com diversas figuras de semelhante proeminência, como o Papa Francisco. Reconhecido pelas mobilizações em prol dos povos indígenas e da floresta amazônica.

O governo do estado disponibilizou um avião para transportar Raoni até a aldeia Metuktire, no território Xingu.

Conquista do Xingu

O cacique Raoni, 89 anos, é um reconhecido ambientalista e defensor dos direitos dos povos indígenas e o mais antigo líder do grupo Kayapó, que vive em aldeias espalhadas nos estados do Mato Grosso e Pará. Sua incansável luta por demarcação de terras e proteção da Floresta Amazônica o levou a ganhar o respeito e admiração não apenas de seu povo, mas de todas as comunidades indígenas brasileiras, além de chefes de estado estrangeiros, como Emmanuel Macron e ambientalistas.

Raoni Metuktire nasceu por volta de 1930 e seu primeiro contato com homens brancos aconteceu em 1954. Ele ganhou projeção internacional nos anos 1980, liderando uma campanha global ‘Save de Rainforest’ (Salve a Floresta), juntamente com o músico Sting. Eles visitaram 17 países de abril a junho de 1989. A campanha foi muito bem sucedida e deu ao cacique Raoni a oportunidade de aumentar a conscientização mundial sobre desmatamento. Doze fundações para proteção da Floresta foram criadas para angariar fundos para a criação de uma reserva contínua abrangendo a Bacia do Alto e Médio Rio Xingu, entre o Mato Grosso e o Pará.

O sonho de Raoni era unir cinco territórios demarcados – Baú, Kayapó, Panará, Capoto/Jarina, Bàdjumkôre com o Parque Nacional do Xingu se realizou em 1993. As terras do Xingu foram unificadas, criando uma das mais importantes reservas florestais do planeta, com 280.000 km² – área superior ao Reino Unido.

Nobel da paz

Em 2010, Raoni saiu de sua aldeia, mais uma vez, para lutar pelos direitos dos povos indígenas. Ele opôs veementemente a construção da hidrelétrica de Belo Monte, um projeto que devastou uma extensa área de floresta, deslocou milhares de pessoas e afetou a sobrevivência de povos tradicionais que dependem do rio Xingu.

O comprometimento e determinação do cacique Raoni para defender os direitos dos povos indígenas é interminável. Em janeiro, ele realizou um evento histórico que reuniu na aldeia Piaraçu, mais de 600 representantes de 47 etnias indígenas para implementar uma estratégia de resistência contra a politica de desmatamento do atual governo brasileiro.

Mais que um embaixador que representa a proteção da Floresta Amazônica e seus habitantes tradicionais, Raoni é ‘um símbolo vivo da luta pela proteção do meio ambiente’, como disse uma vez o ex-presidente francês Jacques Chirac. O cacique foi nomeado para o Prêmio Nobel da Paz 2020.

Com informações da Agência Brasil e G1