O Brasil já está perdendo muito em matéria de comércio internacional e relações diplomáticas devido a essa condução desastrosa tanto na pauta ambiental quanto no combate ao coronavírus, avalia professor da UERJ.

O site de notícias russo Sputinik aponta deterioração da imagem do Brasil no mundo. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes  afirmou que a imagem nacional está “muito ruim” no exterior. Em videoconferência com empresários em junho, o homem-forte da economia disse não acreditar que o Brasil caminha para uma recessão, mas sim para uma recuperação. Ao contrário de Guedes, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o PIB brasileiro encolherá 9,1% em 2020. O Banco Central também aponta para uma retração, embora menor: 6,4%.

“Estão na verdade disfarçando velhas teses protecionistas contra o Brasil, jogando pecha independentemente de haver embasamento factual ou não”, disse Guedes.

Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará

Para os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o que se aproxima é, na realidade, um afastamento dos outros países e empresas do Brasil por conta dos rumos do país.

O professor de História e Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Roberto Santana ressalta que existe um “consenso” internacional sobre a importância da agenda ambiental e que o Brasil perdeu a importância que tinha na discussão desta pauta.

“O aumento das queimadas na Amazônia, o avanço do garimpo ilegal, do agronegócio sobre a Amazônia, e os ataques, inclusive com assassinatos de populações tradicionais, principalmente povos indígenas. Isso é muito nocivo para a imagem do país no exterior, isso retira o Brasil de uma condição de grande ator nas discussões sobre as questões ambientais internacionais”, afirma Santana.

Com esta situação, diz o professor da UERJ, marcas e países já começam a se afastar do Brasil e um dos sintomas deste quadro é o acordo entre União Europeia e Mercosul. Santana ressalta a resistência dos europeus, principalmente da França, em ratificar a parceria por conta das cláusulas ambientas presentes no acordo.

Representantes da Alemanha, Bélgica, França e Hungria já expressaram reservas sobre o acordo entre os dois blocos.

O professor da UERJ também afirma que a previsão de Guedes sobre a retomada econômica do país “não tem a menor relação com a realidade” e que a recessão econômica global que acontecerá por consequência da COVID-19 será mais forte no Brasil.

China já cancelou compra de carne brasileira

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fernando Brancoli também acredita que as escolhas políticas de Bolsonaro trarão prejuízo ao país. Para ele, tanto a ausência de políticas públicas quanto a defesa da cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada, mostram a “incapacidade” do governo em lidar com a pandemia.

O analista também relembra a decisão da China de suspender as importações de determinados frigoríficos brasileiros após o registro do aumento de casos de COVID-19 entre os trabalhadores do setor.

“A gente pode argumentar que isso pode transbordar para outros pontos, em parte também porque o que tem sido visto, principalmente na Europa, é de que a incapacidade do governo Bolsonaro de lidar com a pandemia é um reflexo maior de uma certa incompetência generalizada do governo”, afirma Brancoli

Enquanto as críticas internacionais se acumulam, os líderes brasileiros afirmam não entender. A Sputnik Brasil ouviu analistas para discutir as possíveis consequências do isolamento do Brasil na arena global.
Após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmar que a pandemia o coronavírus não passava de uma “gripezinha” e que ele não corria risco por seu “histórico de atleta”, o Brasil tem um dos dos piores registros no combate ao coronavírus. O país é o segundo em todo o mundo com mais casos e mortes de COVID-19, atrás apenas dos Estados Unidos.

A pauta ambiental também traz dores de cabeça ao Palácio do Planalto. O desmatamento cresceu pelo 14º mês consecutivo na Amazônia em julho, Bolsonaro já demitiu o cientista Ricardo Galvão, então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por divulgar dados sobre a devastação ambiental e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi gravado afirmando durante a reunião ministerial de 22 de abril que o foco da imprensa na pandemia deveria ser aproveitado para “passar o trator”.