Saída recorde de US$ 15,2 bilhões (R$ 84,5 bilhões) nos primeiros oito meses de 2020 reflete o negacionismo do presidente na relação com a pandemia de Covid-19, a falta de direção plausível na condução da economia e o desmonte da estrutura de preservação ambiental.

Entre meias verdades e mentiras deslavadas, o desgoverno Bolsonaro leva o Brasil para o abismo mais profundo da história. Na quarta-feira (23), um dia após o discurso proferido na abertura da 75ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), quando o presidente mencionou um suposto aumento de investimentos estrangeiros no país, a imprensa noticiou saída recorde de recursos externos, de US$ 15,2 bilhões (R$ 84,5 bilhões), nos primeiros oito meses de 2020. Foi o maior volume para o período desde o início das estatísticas do Banco Central (BC), em 1982.

O discurso negacionista em relação à pandemia, a desordem fiscal e o desmonte deliberado da estrutura federal de preservação do meio ambiente também levaram os investidores estrangeiros a retirar R$ 88,9 bilhões da Bolsa de São Paulo, de janeiro a 18 de setembro de 2020.

Maior saída da série histórica da instituição, iniciada em 2008, é praticamente o dobro do saldo negativo recorde de 2019, de R$ 44,5 bilhões – valor alcançado este ano ainda antes da decretação das medidas de isolamento social. Até março, R$ 44,8 bilhões já haviam escoado no mercado nacional de capitais. Os números só consideram negociações de ações já em circulação na bolsa.

A imagem negativa no exterior também pode ser observada nos dados sobre investimento direto estrangeiro, que registrou o menor resultado para um primeiro semestre em 11 anos. Nos primeiros seis meses de 2020 entraram no país US$ 22,8 bilhões (R$ 126,7 bilhões), queda de 27% na comparação com os US$ 31,147 bilhões (R$ 173,1 bilhões) do mesmo período do ano passado. Foi o menor patamar desde os US$ 13,9 bilhões (R$ 77,2 bilhões) registrados em 2009, em plena crise econômica mundial.

Os dados do fluxo cambial consideram os resultados das exportações e importações do país (conta comercial), e o fluxo financeiro de investimentos, aportes em títulos ou dividendos remetidos e recebidos do exterior (conta financeira). As saídas se concentram na conta financeira: foram US$ 89,6 bilhões (RS 498 bilhões) no período de 12 meses até agosto.

Em 2019, US$ 62,24 bilhões (R$ 346 bilhões) evaporaram da economia brasileira. A fuga de dólares contribuiu para a alta da moeda ianque em relação ao real, que se reflete até hoje. A frustração com o megaleilão do pré-sal, que não atraiu investidores estrangeiros, já sinalizava a derrocada. O ministro-banqueiro da Economia, Paulo Guedes, esperava movimentar R$ 106 bilhões, mas os lances só chegaram a R$ 70 bilhões.

Saída começou com o golpe

Gestores ouvidos pelo portal ‘ Estadão/Broadcast’ alertam para o risco de não só estrangeiros deixarem de aplicar aqui, como de brasileiros começarem a remeter recursos para o exterior. Eles calculam que, nos fundos globais, a participação do Brasil, que já foi de 2,5%, caiu para 0,3% no fim de maio. Menor índice desde 2015, ano marcado pela crise política e econômica que desencadeou o impeachment espúrio da presidenta legitimamente reeleita Dilma Rousseff.

Nas carteiras dedicadas aos mercados emergentes, a fatia baixou para 7%, também o menor nível desde 2015. O Brasil chegou a ter participação de 16,5% em 2011, mesmo nível da China. Desde então, Coreia do Sul, Índia e Taiwan passaram a ter maior participação nessas carteiras que os ativos brasileiros, conforme dados da consultoria americana EPFR. A China tem hoje fatia perto de 30%.

O Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 450 maiores bancos do mundo, avalia que a fuga de capital externo no Brasil está bem acima do nível de outros emergentes. “O mundo virou as costas para o Brasil faz tempo”, afirma Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central. “A imagem do Brasil está péssima no exterior.”

Fiqueiredo diz que a forma como o país lida com a crise do coronavírus, “o enorme barulho político” e os juros baixos contribuem para afastar os investidores, sobretudo os de curto prazo, que aplicam no mercado financeiro, na Bolsa ou renda fixa. Os de mais longo prazo, que olham para projetos de infraestrutura, ainda mantêm o país no radar. “A percepção do Brasil lá fora hoje é a pior possível”, repete.

Para o economista sênior para América Latina da consultoria inglesa Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, a forma “surreal” como Bolsonaro lida com a pandemia contribui para estender sua duração, piorando a atividade econômica e trazendo mais preocupações sobre as contas fiscais, deterioradas há tempo. Antes do início da crise sanitária, a dívida pública estava em 75% do Produto Interno Bruto (PIB). Já alcançou os 86% e pode chegar a quase 100% até o início de 2021.

A ausência de um plano claro de resolução da deterioração fiscal assusta os donos do ‘big money’. O relatório de receitas e despesas do orçamento deste ano, anunciado na terça (22) pelo Ministério da Economia, mostra que o déficit primário nas contas do governo chegará a R$ 861 bilhões. Outra insegurança a afastar investimentos e a congelar a intenção de consumo, motor da retomada econômica.

“Há um risco muito grande de Bolsonaro entregar em 2021 a segunda pior média de crescimento desse período democrático, um triênio que só não seria mais baixo que o Fernando Collor. Para investimento direto, que depende de crescimento, esse é o pior cenário”, conclui Vale.

Desmonte da área ambiental

Daniela da Costa-Bulthuis, gestora para o Brasil da corretora holandesa Robeco Asset, aponta para as consequências do descaminho na área ambiental: “O país está perdendo o capital de longo prazo, que é o que vem para ficar e que vai aumentando os investimentos ao longo do tempo”, alertou. “Em um exemplo hipotético, o estrangeiro pode ficar receoso de investir em uma fábrica de alimentos no Brasil e, dali a certo tempo, algum produto agrícola brasileiro ser proibido no mercado internacional por causa de práticas contra a preservação ambiental.”

Para Daniela, o governo deveria escutar o que a comunidade estrangeira tem a dizer. “Quando os investidores estrangeiros alertam sobre a situação ambiental brasileira, não é uma questão política. Estamos olhando os dados oficiais, e eles apontam que o desmatamento está avançando”, explicou. “E o Brasil não é o único país que recebe alertas de investidores estrangeiros. No mundo atual, não é possível conduzir atividade predatória no meio ambiente no longo prazo.”

“Deixamos a desejar em competitividade e potencial de crescimento. As questões ambientais estão ganhando força e, agora, temos um fator adicional de preocupação”, afirmou ao Portal ‘G1’ a economista Zeina Latif. “O Brasil vinha perdendo participação no fluxo global de investimentos porque a China passou a preferir estimular a própria economia. A taxa de investimento mais baixa reforça as fragilidades da economia.”

Para ela, a saída de recursos não só tirou dinheiro do país como também evoluções que viriam de expertise internacional e exigências de governança de países ricos. Além disso, investimento estrangeiro é reflexo de confiança interna, que o Brasil de Bolsonaro não tem.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, avalia que a atitude de Bolsonaro, de minimizar eventos como os incêndios no Pantanal ou o crescimento do desmatamento na Amazônia, intensifica desconfianças sobre o agronegócio, o setor mais produtivo do país. Os prejuízos recaem sobre a reputação, pois economias desenvolvidas percebem demanda por produtos com cadeia produtiva mais sustentável, e de relevância em longo prazo, em desfavor dos produtos brasileiros no comércio mundial.

“É verdade que boa parte dos nossos compradores, como China e Oriente Médio, têm menos preocupações sobre isso que os países desenvolvidos. Mas tais ações do governo podem afetar outras áreas, como acordos de livre comércio, que não conseguem mais avançar enquanto o governo não mudar radicalmente de atitude sobre o meio ambiente”, afirma o economista.

Subserviência a Trump

Com saída de capitais, alguma estabilidade vem da balança comercial positiva. Segundo o jornal ‘ El País’, de janeiro a 14 de setembro, as exportações cresceram 5,1% sobre o mesmo período do ano passado, enquanto as importações recuaram 24,4%. Além do superávit, um dos efeitos da alta do dólar, o país ainda detém as robustas reservas cambiais acumuladas durante as gestões de Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

A China segue como o maior parceiro comercial do Brasil. Para cada dólar que o país exportou para os Estados Unidos no primeiro semestre, foram US$ 3,40 para os asiáticos. Mas enquanto o Brasil acumula superávit comercial com os chineses, tem déficit com os americanos. O risco é a subserviência de Bolsonaro a Donald Trump.

Até porque a propalada parceria Brasil-Estados Unidos não se concretiza. Mesmo com a desaceleração do comércio mundial com a pandemia ―queda geral de 9,6% nos negócios brasileiros com o mundo ―, a balança comercial entre os dois países caiu 25% entre janeiro e agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2019.

A queda nas vendas brasileiras ao mercado norte-americano foi ainda maior, da ordem de 32% entre janeiro e agosto de 2020 em relação ao mesmo período de 2019. Os Estados Unidos também venderam menos ao Brasil, mas o ritmo da redução foi de 18%.

Do outro lado, os negócios com a China cresceram quase 6%, com a rápida recuperação do país asiático após o surto de coronavírus e a forte demanda por produtos agropecuários. Mas o Brasil insiste em concessões aos Estados Unidos, embora a recíproca não seja verdadeira.

Bolsonaro aumentou a cota de etanol que importa dos Estados Unidos, não se queixou da queda de 80% na venda de aço para os americanos e concordou em ceder a vaga de presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para um aliado de Trump. Além disso, suspendeu a obrigatoriedade de vistos para americanos que querem visitar o Brasil, sem um gesto recíproco por parte de Washington. A promessa, até agora não cumprida, de apoio para ingresso na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), também entra na conta.

“O Brasil estabeleceu essa referência em Trump, mas podemos ficar órfãos. Foram 35,4% do total das nossas exportações para a China no semestre”, disse ao Portal ‘G1’ o ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador nos Estados Unidos Rubens Ricupero. “Quem sai da bolsa e do Tesouro Nacional está com medo do que vai acontecer aqui, porque o ‘posto Ipiranga’ está sem combustível. É assim que começam as crises.”

Em encontro com os senadores, na quinta (24), o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, jurou que a parceria com os americanos deve gerar frutos, com três acordos em vias de conclusão. Tudo vai depender, no entanto, das eleições presidenciais norte-americanas, pois o democrata Joe Biden tem claras chances de derrotar o republicano Trump. E Bolsonaro ficará a ver as promessas se desfazerem no ar.