Importada dos Estados Unidos, teoria da conspiração ligada a apoiadores do presidente Donald Trump se espalha pelo mundo e tem representantes nas eleições municipais brasileiras. Oriundas do submundo da internet, as mentiras atacam adversários com acusações de pedofilia e satanismo. Alguns candidatos já mostraram identidade com as teses.

Não é preciso muito esforço para lembrar de mentiras que buscam envolver a esquerda com a pedofilia ou o satanismo. Vimos isso em 2018, com ataques a Haddad, e neste ano, em um tweet de Bolsonaro. Mas isso tudo pode ser só a ponta de uma rede de mentiras fundada em uma teoria da conspiração chamada QAnon. A chegada das eleições no Brasil requer atenção especial a esse fenômeno.

O nome ainda pode soar estranho para muita gente mas o QAnon, surgido nos Estados Unidos, já se espalha pelo mundo e preocupa o Facebook e o Twitter. Em essência, a teoria defende que políticos considerados de esquerda, como Hilary Clinton e Barack Obama, controlavam o governo dos EUA para operar redes de pedofilia e satanismo. Segundo essa grande mentiraTrump se candidatou à presidência em 2016 para frear isso.

O QAnon espalha muitas teses absurdas e está prestes a eleger um representante no Congresso estadunidense. Não tem líderes e esconde-se no anonimato, mas tem uma missão clara, pautada na mentira: acabar com um diabólico projeto de uma elite pedófila, que inclui, entre outros, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, o papa, Xuxa e Angelina Jolie. O tal plano maligno quer destruir a civilização judaico-cristã e traficar crianças que são estupradas e assassinadas secretamente.

Lembram de Bolsonaro falando em “cristofobia”? E das falsas acusações de pedofilia ao youtuber Felipe Neto? Parece que aqui no Brasil as ideias do QAnon ganhou contornos particulares, adaptando-se a temas do momento. No final de setembro, circulou a mentira de que o Exército descobriu fazendas ligadas ao tráfico infantil e à extração de minérios na Amazônia, comandados por ONGs que compraram a região no governo LulaFake news sem pé nem cabeça.

Os conspiracionistas do QAnon têm se espalhado, chegaram a Alemanha, Holanda, Reino Unido, Itália. Nos EUA seguem crescendo, conquistando jovens e mulheres brancas da periferia. Para combater fake news, Facebook e Twitter decidiram eliminar todas as páginas ligadas ao grupo. No YouTube, diversos vídeos ainda defendem a teoria da conspiração.

No Brasil, há pelo menos quatro candidatos a vereador em quem é preciso prestar atenção nestas Eleições, como identificou o The Intercept Brasil. Alan Lopes (PSD-RJ) é um dos que mais espalham mentiras ligadas às ideias do QAnon. Ele faz referências a uma Operação Storm, operação militar inventada pelo QAnon, que lutaria contra redes internacionais de pedofilia satanistas. Eduardo Bolsonaro também já fez referência à operação e a ministra Damares Alves (apelidada de Damares Storm por bolsonaristas) é apontada como uma das responsáveis por trazê-la para o Brasil.

Dom Lancellotti (Republicanos-CE), Luís Alexandre Mandú (Solidariedade-SP) e Daniel Rocha (PODE-MG) também já fizeram referências ao QAnon nas redes sociais.

O caldeirão de fake news do QAnon pode trazer prejuízos incalculáveis à sociedade. Exemplo disso é a teoria de que as antenas de 5G é que causaram a pandemia de coronavírus, afirmação sem qualquer fundamento científico que foi absorvida pelo grupo e espalhada pelo mundo, chegando ao Brasil. Outro exemplo: nas Eleições dos EUA, em 2016, um homem apareceu atirando em uma pizzaria, pois acreditava que crianças eram escondidas no porão da loja, em um esquema de tráfico sexual que envolvia Hillary Clinton.

Como se não bastassem as fake news que há muito já circulam por aqui, as Eleições deste ano contam ainda com uma teoria conspiracionista internacional, no que pode ser um laboratório para 2022. Precisamos estar atentos e atentas e denunciar.