Cláudia conta que aos 19 anos foi isolada em sítio para “casos perdidos” da Batista Lagoinha, igreja da ministra Damares e da cantora Ana Paula Valadão.

Mariama Correia

O violão de Cláudia Baccile está guardado. Ela parou de tocar desde que foi expulsa do Centro de Treinamento Ministerial Diante do Trono (CTMDT), da igreja evangélica Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Foi em 2009. Na época, a designer tinha 19 anos e queria ser ministra de louvor como Ana Paula Valadão, cantora e pastora líder da banda Diante do Trono.

A fama do grupo gospel – reconhecido como um dos maiores ministérios de louvor da América Latina – atraía estudantes de todo o país, e até do exterior, para o CTMDT. Segundo Cláudia, o seminário era uma espécie de faculdade do Diante do Trono, embora não fosse reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). Os cursos eram pagos e os internos passavam por um processo seletivo do qual faziam parte cartas de recomendação de pastores e o preenchimento de um formulário que, entre outras coisas, perguntava sobre experiências homossexuais.

Reprodução/Facebook Banda gospel Diante do Trono foi criada na Igreja Batista da Lagoinha, da qual a ministra Damares Alves já foi pastora

Cláudia conta que deixou a família, em Brasília (DF), para estudar “louvor e adoração” com as estrelas do Diante do Trono, incluindo a própria Ana Paula Valadão, e outros professores. Dois anos depois, o vestido da formatura já estava comprado. A mãe dela voou até Minas para participar da festa. No dia do baile, mesmo tendo sido aprovada em todas as disciplinas, ela foi expulsa e impedida de pegar o diploma por ser lésbica.

“O pastor líder disse que o nome do ministério não podia ser associado a pessoas como eu”, lembra. Era o desfecho de uma sequência de experiências traumáticas no ambiente religioso, que causaram na jovem danos psicológicos permanentes.  Para “curar” a homossexualidade, ela relata que foi isolada em um sítio, submetida a exorcismos, e fez sessões de terapia com psicólogos da própria Igreja Batista da Lagoinha.

Cláudia e a esposa – Foto: Arquivo pessoal

O convite da formatura do seminário tem a imagem de Cláudia, mas ela foi impedida de participar da celebração
Abominação aos olhos de Deus
Aos 30 anos, e casada com uma mulher, Cláudia fala com certa liberdade sobre sua experiência. Mas ainda convive com as sequelas do sofrimento intenso nos anos de seminário. No ano em que foi expulsa da escola, ela deixou de frequentar a igreja. Caiu em uma depressão profunda que reduziu sua imunidade a ponto de ser internada com múltiplas infecções. Ela ainda toma antidepressivos e ansiolíticos.

Desde os 5 anos, a designer se reconhece como lésbica. Mas não tinha ficado com mulheres até se apaixonar por uma aluna do seminário. Elas tiveram um caso quase platônico, sem relações sexuais, porque achavam que a homossexualidade era pecado.

Movida pela culpa, ela revelou seus sentimentos à liderança da escola, que impôs o afastamento total das duas como condição para a continuidade dos estudos. “Tive que ler um versículo da Bíblia para ela na frente dos pastores. O texto falava que a homossexualidade é abominação para Deus. Ela saiu da sala chorando. Foi horrível”, lembra. Conforme seu relato, professores vigiavam os movimentos das estudantes e expunham o caso para outros alunos. Ela diz que teve o computador pessoal confiscado por uma das líderes, que vasculhou o dispositivo para achar trocas de mensagens dela com a outra aluna.

Violência e discriminação contra pessoas LGBTQI+ são crimes no Brasil desde julho de 2019. Felipe Daier, advogado especializado em direitos LGBTQI+, explica que “assim como o racismo, são crimes inafiançáveis e imprescritíveis, com pena de um a três anos de prisão”. Cláudia nunca fez uma denúncia formal contra o seminário, que parou de funcionar em 2018, em razão de uma crise financeira do Diante do Trono.

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