Candidato apoiado pelo ex-presidente Rafal Correa, Arauz é confirmado no segundo turno, mas segunda vaga está entre  o candidato indígena Yaku Pérez e o direitista Guilherme Lasso

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) do Equador divulgou na noite de domingo (07) resultados preliminares das eleições gerais realizadas no país. Segundo o mecanismo de contagem rápida do órgão, a disputa será decidida em segundo turno.

O candidato Andrés Arauz, da coalizão progressista União pela Esperança (Unes), está garantido na disputa que ocorrerá no dia 11 de abril. Os dados do CNE apontam para 31,5% dos votos para o presidenciável apoiado por Rafael Correa, confirmando a vantagem indicada pelas pesquisas de boca de urna divulgadas mais cedo no próprio domingo.

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Entretanto, a segunda vaga para a próxima etapa das eleições ainda não está definido, de acordo com os números apresentados pelo órgão eleitoral.

Com uma leve vantagem, o candidato indígena Yaku Pérez, do partido Pachakutik, aparece com 20,04% dos votos, mas quando considerada a margem de erro, ele poderia ter entre 19% e 20,98%.

Guillermo Lasso, direitista do Movimento CREO, teria alcançado 19,97% dos votos, mas com a margem de erro, seus números variam entre 19,20% e 20,75%.

O método utilizado pelo CNE separou uma amostragem de 2.425 atas de votação, das quais foram apuradas 2.193. A contagem foi finalizada às 20h27 do horário local (22h27 de Brasília).

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Segundo a Constituição do Equador, para vencer a eleição presidencial no primeiro turno, o candidato deve obter mais de 50% dos votos ou mais de 40% dos votos, abrindo 10 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo colocado.

Os resultados preliminares do CNE entraram em contradição com pesquisas de boca de urna, divulgadas logo após o encerramento da votação, que indicavam uma disputa em segundo turno entre o candidato Andrés Arauz e Guillermo Lasso.

Em pronunciamento após a divulgação dos dados da contagem rápida, Arauz criticou o CNE pela atitude de “divulgar resultados que só causam incertezas na população”.

“Eles divulgaram a contagem rápida antes mesmo de ter concluído. Foi divulgado um subconjunto de um subconjunto de atas, o qual mostra um empate técnico entre o segundo e o terceiro candidato. De um ponto de vista matemático, não é recomendável publicar esse tipo de resultado, porque isso gera incerteza e indefinição”, disse.

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Arauz ainda celebrou os números alcançados por sua candidatura e disse que a vitória alcançada será traduzida por todo o país.

Pelo Twitter, Yaku Pérez declarou que está no segundo turno e disse que foi o segundo colocado nas eleições. O candidato ainda pediu que seus apoiadores fiquem vigilantes à apuração dos votos. “Se for necessário, essa noite dormiremos do lado de fora do CNE para vigiar o respeito da decisão dos equatorianos”, disse.

Guillermo Lasso, por sua vez, afirmou ter “certeza” de que estará no segundo turno, mas pediu o respeito às leis e à apuração completa dos votos.

O candidato também fez críticas a seus rivais e disse que não permitirá que “os representantes dos maiores corruptos dos últimos 14 anos voltem a governar”.

O economista, o empresário e o líder indígena

Apesar de muito jovem, Andrés Arauz tem uma vasta formação acadêmica e já ocupou diversos cargos no governo de Correa. Formado em economia pela Universidade de Michigan, tem mestrado em economia do desenvolvimento pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO-Equador), e também é PhD em Economia Financeira pela Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).

Arauz foi diretor do Banco Central do Equador em 2009, quando tinha 26 anos de idade. Também serviu como ministro do Conhecimento e Talento Humano e ministro da Cultura durante o governo de Correa.

Durante a campanha, o candidato da Unes prometeu reverter as políticas neoliberais de Moreno, criar bônus para trabalhadores afetados durante a pandemia, apostar na industrialização e, no âmbito internacional, resgatar organismos como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), progressivamente abandonadas pelos governos de direita da região.

O principal rival de Arauz nessas eleições é Guillermo Lasso, um empresário de 65 anos que é acionista do Banco Guayaquil e concorre à Presidência pela coalizão de direita chamada Movimiento Creando Oportunidades, ou Movimento CREO.

Disputando pela terceira vez a presidência do país, Lasso foi derrotado pelo atual presidente Lenín Moreno no pleito de 2017, mas se aproximou do governo após a guinada neoliberal do mandatário.

Lasso chegou a ser ministro da Economia do país em 1999, quando ocupou o cargo por um mês durante o episódio conhecido como Feriado Bancário, que congelou as contas de milhões de equatorianos, desvalorizou a então moeda nacional e provocou a dolarização da economia. O período foi reconhecido como uma das piores crises financeiras do país.

O candidato da direita é acusado de ter aumentado seu patrimônio em milhões de dólares por especulações financeiras durante o período. Além disso, Lasso aparece no vazamento dos Panama Papers como dono de 49 empresas offshores.

Considerado uma surpresa nessas eleições, o líder indígena Yaku Pérez pode ir ao segundo turno das eleições presidenciais. Candidato pelo partido Pachakutik, ligado ao movimento indígena Conaie, Pérez realizou sua campanha marcado pelas jornadas de protestos que ocorreram em 2019.

O presidenciável aposta em um programa ligado às pautas ecológicas, ao combate à mineração ilegal e à preservação ambiental dos recursos naturais do país. Entretanto, analistas políticos apontam semelhanças entre seu programa e o de Lasso, em pontos como o fim dos impostos sobre saída de capitais.

Além disso, Pérez é criticado por ter negociado com Lenín Moreno durante as manifestações de 2019 e apoiado reformas neoliberais do governo no Legislativo.

O cenário das eleições

As eleições presidenciais deste ano foram marcadas por um cenário de disputas jurídicas por candidaturas, denúncias prévias de fraude e suspeitas de possíveis suspensões do pleito.

A candidatura de Andrés Arauz promete trazer o “correísmo” de volta ao comando do país. Isso porque a política equatoriana foi palco de um rearranjo nos posicionamentos entre esquerda e direita após Lenín Moreno, atual presidente, que era vice de Correa, abandonar sua plataforma de governo depois de eleito e aplicar medidas neoliberais.

A traição de Moreno” é o termo mais utilizado pelos apoiadores de Arauz para definir os movimentos do mandatário e destacar o compromisso de retomada dos projetos iniciados durante os mandatos de Correa que começaram em 2007.

A esquerda ainda acusa Moreno de ter iniciado uma perseguição judicial contra quadros progressistas que se mantiveram fiéis aos projetos e propostas iniciadas durante os anos de Correa. O lawfare, termo utilizado para indicar o uso da justiça com finalidades políticas, foi denunciado pelos setores da esquerda nos casos da prisão do ex-vice-presidente Jorge Glas e nos processos contra Correa, que hoje vive na Bélgica, podendo ser preso se voltar ao Equador.