Decreto Legislativo apresentado pelo deputado goiano reduz de 240 para 65 mil hectares o Parque da Chapada dos Veadeiros, que recebeu da Unesco o título Patrimônio Natural da Humanidade.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

Na roça é comum ouvir “quem não quer ver estrelas não olha para o céu”. Parece que o deputado Waldir Soares (PSL), que é paranaense, não está acostumado aos ditos populares goianos. Ele não olha para o céu, e não olha também para a crise hídrica, para a diminuição do período de chuvas, para as queimadas e a perda da biodiversidade que tem se acelerado na última década.

Waldir Soares provavelmente não leu na última segunda-feira (9), o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), que divulgou relatório em que considera irrefutáveis e irreversíveis mudanças na temperatura do planeta causadas pelas ações humanas.

Waldir Soares, que não é ambientalista e sim delegado de polícia civil, reduz através do seu decreto, pasmem, em um terço! o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. É uma ideia infeliz. Um despropósito.

Waldir justifica em seu projeto de Decreto Legislativo (PDL) 338/2021, que “apesar de o Parque contribuir com a preservação ambiental, ressalta-se que o aumento desmedido de seu tamanho prejudica os agricultores na região”. Mais: alega que o aumento do parque, por meio do Decreto 14.471 de 5 de junho de 2017, do presidente Michel Temer (MDB), prejudicou agricultores da região.

A  ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi iniciada no governo Dilma Roussef e concluída no governo Temer. O projeto fez o parque abarcar novas áreas nos municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Nova Roma, Teresina de Goiás e São João da Aliança.

O parque foi criado em 1961, pelo presidente Juscelino Kubitschek, com 625 mil hectares. A ditadura, no governo do General Médici, reduziu sua área em 1972 para 171 mil hectares. Com o General Figueiredo, em 1981, nova redução para apenas 65 mil hectares, cerca de 10% de sua área original. Em 2017, o parque foi ampliado para 240 mil hectares, retornando a cerca de 1/3 de sua área original.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado apresenta apenas 6,77% de seu território legalmente protegido por unidades de conservação, sendo  3,88% de unidades de conservação de uso sustentável e 2,89% são unidades de conservação de proteção integral.  De acordo com especialistas, o mínimo indicado pela Convenção da Diversidade Biológica é de pelo menos 10%. Waldir provavelmente não leu esta informação.

O decreto de Waldir atende a lobby de sojicultores.

Gente que está ganhando muito dinheiro com a valorização do dólar frente ao real, que fez a soja o “ouro vegetal” cobiçado pelos exportadores do grão.

Gente que não se importa com bicho morto na estrada.

Gente que não conhece pequizeiro, jatobá, peroba rosa, marinheiro.

Gente que não sabe diferenciar arnica de erva daninha.

Gente que não se emociona com o vôo de um tucano ou com a majestosa postura de um lobo guará.

Gente que só pensa em grana e na próxima eleição.

Gente como Waldir, que veio para Goiás para se dar bem, não importando que a derrubada do cerrado afete clima, regime de chuvas e o meio ambiente.

O decreto de Waldir não reflete porque a Chapada dos Veadeiros é conhecida como “a caixa d’água do Planalto Central”.  O Parque da Chapada dos Veadeiros tem influência direta nas bacias hidrográficas da Amazônica e a do São Francisco, pois é um dos principais pontos de recarga dos aquíferos e nascentes que abastecem os afluentes destes rios e córregos  além de garantir água para Brasília e os municípios do Nordeste Goiano.

Se o presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira (PP-AL) assinar o decreto de Waldir Soares vai condenar Brasília e parte da população do Nordeste a morrer de sede, sacrificando o abastecimento da calha do Rio São Francisco.

Detonar Brasília e o Nordeste só para alguns sojicultores empestearem o cerrado com agrotóxico? Não acho que a trocar a vida de milhões, pelo lucro uns poucos, seja um bom negócio.

O site da Câmara dos Deputados abriu consulta pública sobre o PDL. Até agora, 99% dos internautas votaram contra a proposta, com mais de 5 mil votos.

Resultado parcial da consulta pública sobre o decreto legislativo que reduz a área do Parque da Chapada dos Veadeiros. Veja no final da página como dar o seu voto

Espero que o Arthur Lira engavete este maldito decreto. E faça um belo discurso no arquivamento, pois seu gesto será nobilíssimo, consagrando-o como um defensor da vida e um dos patronos da maior área de preservação do Cerrado em Goiás.

Arquive Lira.

Mande este decreto para a ponte que o partiu.

Rasgue, mande para o lixo ou jogue no vaso e dê descarga.

Goiás, Brasília, o Nordeste e o “Velho Chico”, que faz a divisa de Alagoas (seu Estado natal), com Sergipe,  serão eternamente gratos pelo seu gesto.

 

Clique AQUI e leia o decreto de Waldir Soares

 

CLIQUE AQUI para votar na ENQUETE sobre o projeto e deixar a sua opinião para o presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira