Há um implacável esforço no rastreamento de possíveis casos de coronavírus pelo governo chinês.

*Rodrigo Zeidan

Cheguei no dia 8 a Xangai, e este sábado (19) é meu 11º dia de quarentena. Passei os sete primeiros dias em um hotel adaptado para isso, e os últimos sete estão sendo em casa.

O processo de desembarque parece um filme de ficção científica. Todos, exceto os passageiros, estão em trajes de proteção dos pés à cabeça.

Entro numa fila, reporto meus dados, passo pela imigração e vou para outra fila ter a amostra coletada para o teste PCR de Covid-19.

Pego as malas e sou levado para o hotel, onde todos também estão em trajes de “astronauta”. Me avisam: só posso abrir a porta para receber refeições, deixar o lixo e, no quinto dia, ser testado de novo.

Já tinha feito um teste para pedir o visto, outro para poder embarcar e ainda terei mais um, no dia fim da quarentena. Aí poderei sair pela cidade, onde está quase tudo aberto. Pago diretamente por uma parte: hotel e alguns dos testes.

Parte da razão pela qual não há casos de transmissão local do vírus na China fica clara: um implacável esforço no rastreamento de possíveis casos, com isolamento daqueles sob suspeita. Chegou-se a testar os mais de 10 milhões de residentes de Wuhan.

Num surto em Pequim, em junho, foram realizados 2,3 milhões de testes em uma semana. Hoje, o país conseguiria testar 5 milhões de pessoas por dia. Mas tem mais. Há enorme esforço coletivo para conter qualquer novo surto.

Para cumprir parte da quarentena em casa, as autoridades contataram meu condomínio, que poderia se negar a me receber. Às vezes, o condomínio checa se há comunicação de ar entre apartamentos, para fechá-la. É comum a instalação de sensor ou câmera para monitoramento da quantidade de vezes que a porta é aberta.

Felizmente, meu pedido é aprovado, e a síndica ainda arranja uma tradutora para, com o chefe de segurança, me explicar detalhes do processo.

Até pouco tempo, havia regras rígidas de acesso ao prédio (só morador podia entrar) e uma tenda para higienização de entregas.

A transmissão do vírus é anátema ao modo de vida chinês: a sociedade faria quase qualquer sacrifício para impedir nova disseminação.

É comum a ideia de que, na China, o Partido Comunista controla e pode tudo. Não é bem assim.

Claro que o governo restringe vários aspectos da vida cotidiana, mas também existe um contrato social implícito no qual os cidadãos requerem, das autoridades em Pequim, estabilidade social.

Há centenas de protestos todos os dias, desde que contra autoridades locais. Para subir na carreira, prefeitos devem entregar crescimento e coesão social.

Quando parecia claro que o governo de Wuhan estava escondendo dados sobre o número de infectados na cidade, foi a pressão popular, em boa parte, que fez o governo central exonerar o prefeito e mudar a estratégia na luta contra o vírus.

Foi um amigo chinês que me contou, preocupado, sobre a nova e estranha gripe. Pesquisei e percebi que poderia ser relevante, escrevendo sobre isso na coluna do dia 11 de janeiro.

Assim como todos os que conheço aqui, ele não só reclamou da resposta inicial do governo como aprovou a quarentena, respeitou as regras ao pé da letra e ajudou a reforçá-las na sua comunidade.
O mundo não é binário. É possível criticar o governo chinês em algumas dimensões e reconhecer, hoje, o seu excelente trabalho na contenção do vírus.

Na China, o vírus é visto, por todos, como o caos. Quem dera tivéssemos escolhido também esse caminho no Brasil.

Rodrigo Zeidan é economista. Doutor em economia pela UFRJ, é professor associado da New York University Shanghai (China), da Copenhagen Business School (Dinamarca) e da Fundação Dom Cabral.

 

Artigo publicado na jornal FSP