Há muito tempo que estamos batendo na mesma tecla aqui nesta coluna: a política externa brasileira de viés ideológico, à cabo do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e de seus filhos Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e do Chanceler (?) Ernesto Araújo podem levar o agronegócio à falência. Hoje, mais uma prova do desastre apareceu: a BRF anunciou a paralisação do abate de aves na sua planta em Carambeí (PR), cidade de 22 mil habitantes que fica próxima à Ponta Grossa, no mesmo Estado.
 
Marcus Vinícius
 Nada menos do que 90% do abate de aves na região é destinado ao mercado árabe, que parou de comprar frangos, desde que o Brasil trocou a política de neutralidade em relação aos conflitos no Oriente Médio, pelo alinhamento automático aos Estados Unidos e Israel.
A notícia foi veiculada em primeira mão pelo jornalista Frédi Vasconcelos, no site Brasil de Fato. a planta da BRF vai ficar suspensa por 60 dias e dos 1.500 operários, apenas 300 ficarão na fábrica, para serviços de manutenção e limpeza. Se as atividades não voltarem, todos trabalhadores podem perder o emprego.
A decisão da BRF se deu por conta de queda nas exportações, depois que o presidente Jair Bolsonaro sinalizou sua preferência por Israel em detrimento do comércio de US$ 11 bilhões de dólares com os países árabes.  A direção da BRF alegou excesso de estoques e baixa demanda, a produção está suspensa por 60 dias, a partir de junho, medida que pode chegar a até cinco meses. Nesse período, os trabalhadores teriam de viver com seguro-desemprego.
A reportagem do Brasil de Fato ouviu o  secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Carambeí e Região, Wagner do Nascimento Rodrigues, que disse que 90% da produção dessa planta é vendida para o mundo árabe, com o chamado abate Halal, que segue preceitos muçulmanos.
 “Na minha leitura, (a paralisação) é reflexo da política externa do atual governo, da aproximação com Israel e por ter deixado de lado a política neutra que o Brasil tinha em relação aos conflitos dos árabes”, sintetiza.
Paraná hoje, Goiás amanhã
 A cadeia do frango em Goiás, que  tem plantas e produtores agregados em Rio Verde, Mineiros, Jataí, Buriti Alegre, Itumbiara, Goiatuba, Palmeiras de Goiás e Itaberaí empregam cerca de 40 mil trabalhadores diretos  e indiretos.  No Paraná, segundo a matéria do Brasil de Fato, a paralisação das atividades da BRF traz danos à toda cadeia produtiva da região. Buriti Alegre é o único frigorífico goiano credenciado para o fornecimento de frango Halal, que segue as regras de abate segundo as leis muçulmanas.

Importação

Em 2018, o Brasil enviou 486,4 mil toneladas de carne de frango para a Arábia Saudita, o equivalente a 12,1% do total embarcado no ano. A China foi o segundo maior mercado. O mundo árabe compra 919,3 mil toneladas de frango do Brasil, o que corresponde a 22,9% das exportações de aves brasileiras, sendo dividido entre Arábia Saudita com 486,4 mil toneladas, (12,1%), os Emirados Árabes com 309,7 mil toneladas (7,7%) e o Kwait com 123,2 mil toneladas (3,1%). A China vem a seguir com 438 mil toneladas (10,9%), seguida de perto pelo Japão, com 397,9 mil toneladas (9,9%).

Segundo o Wagner do Nascimento, “para o Paraná foi terrível quando a BRF encerrou a planta de perus em Francisco Beltrão; 400 aviários da região foram fechados. Se parar a produção de frangos em Carambeí, muitos vão quebrar. A cadeia é integrada, não tem para quem vender”, argumenta.
Hora de reagir
No Paraná, produtores e trabalhadores reclamam da inoperância do governador Ratinho Júnior (PSD), que ainda não levantou a bunda da cadeira para conversar com o presidente Bolsonaro ou com o Itamaraty, para tentar reverter o embargo árabe às importações de frango.
Talvez seja melhor o governador Ronaldo Caiado (DEM) não seguir o exemplo de seu colega do Paraná, e agir antes que a crise se instale também em Goiás.

O que é o abate Halal?

O termo halal em árabe significa “legal”, “permitido para consumo”. Este abate leva em conta preceitos da religião muçulmana que leva em conta o respeito a todos os seres vivos e também as questões sanitárias.  Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a preocupação com a higiene do alimento também se estende ao bem-estar do animal, no caso dessas proteínas. 

Para os islâmicos, o ritual de abate do boi ou do frango deve ser feito apenas pela degola, como forma de garantir a morte instantânea do animal. No sistema tradicional de abate bovino, a insensibilização, por meio de métodos que levam ao atordoamento, deve ser feita antes da sangria.

Segundo o Mapa, “todos os procedimentos com o abate devem ser realizados por um muçulmano praticante, em geral árabe, treinado especificamente para essa função”.

Ainda conforme o Ministério da Agricultura, o oficio do degolador é estritamente ligado às tradições religiosas e o abate envolve diversos ritos. Um deles estabelece que cada animal, que passa pela mão desse profissional, seja oferecido a Alá antes de ser morto.

Nesse momento, ele deve pronunciar, em árabe, a expressão “em nome de Deus” e só depois sacrifica o animal. Esse oferecimento ocorre na intenção de que o animal não sofra e que o sacrifício seja apenas para o sustento de quem dele se alimenta.

Veja a lista dos frigoríficos autorizados, atualmente, a exportar frango para a Arábia Saudita, segundo o Ministério da Agricultura:

  1. BRF de Dourados (MS)
  2. BRF de Videira (SC)
  3. BRF de Capinzal (SC)
  4. SHB (BRF) de Francisco Beltrão (PR)
  5. SHB de Buriti Alegre (GO)
  6. SHB de Dois Vizinhos (PR)
  7. SHB de Nova Mutum (MT)
  8. Frigorífico Nicolini (BRF) de Garibaldi (RS)
  9. JBS de Passo Fundo (RS)
  10. JBS de Montenegro (RS)
  11. Seara (JBS) de Brasília (DF)
  12. Seara de Campo Mourão (PR)
  13. Seara de Itaiópolis (SC)
  14. Seara de Amparo (SP)
  15. Seara de Itapiranga (SC)
  16. Seara de Ipumirim (SC)
  17. Vibra Agroindustrial de Itapejara D’Oeste (PR)
  18. Vibra Agroindustrial de Sete Lagoas (MG)
  19. Vibra Agroindustrial de Pato Branco (PR)
  20. Jaguafrangos de Jaguapitã (PR)
  21. Zanchetta Alimentos de Boituva (SP)
  22. Bello Alimentos de Itaquiraí (MS)
  23. Frigorífico Nova Araçá de Nova Araçá (RS)
  24. DIP Frangos de Capanema (PR)
  25. LAR Cooperativa Agroindustrial de Matelândia (PR)