Igor Carvalho – Brasil de Fato – São Paulo (SP) – Quando foi morto, em 9 de fevereiro deste ano, Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope, estava com 13 celulares. Através da Lei de Acesso à Informação, o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), via Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ), informou ao Brasil de Fato que os telefones foram periciados pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) da Polícia Civil.

Adriano da Nóbrega era apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo de milicianos que atuam como assassinos de aluguel – Foto: Reprodução

O Gaeco, no entanto, não precisou a data em que as análises foram realizadas. Até março, os aparelhos ainda não haviam sido periciados. O órgão se recusou a informar o teor encontrado nos celulares. “Tratam-se de dados sigilosos cujo conteúdo não podem ser disponibilizados”, informou em nota.

Nóbrega ficou um ano foragido da polícia, era alvo de um mandado de prisão expedido em janeiro de 2019, até ser morto em uma operação policial na Bahia. À época, Paulo Emílio Cata Pretta, advogado do ex-policial, insinuou que outras pessoas teriam interesse em silenciar seu cliente.

“Ele falou em queima de arquivo. ‘Temo por ser uma queima de arquivo’. Mas eu não perguntei nem quem teria interesse nessa queima de arquivo nem quais eram as informações que ele eventualmente teria”, disse o advogado.

Como ex-agente de um grupo de elite da polícia fluminense, Nóbrega sabia como fugir do monitoramento da polícia. Por isso, trocava constantemente de aparelho e chip. Suas ligações eram feitas via aplicativos de conversa, sempre com sinal de wi-fi, para dificultar a localização.

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Após a perícia, os investigadores poderão saber com quem Adriano da Nóbrega mantinha contato nos últimos dias de sua vida, os assuntos que tratava e quais motivos faziam com que o miliciano tivesse receio de morrer como “queima de arquivo”.

Escritório do Crime

Adriano da Nóbrega era apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo de milicianos acusados de uma série de crimes há mais de dez anos no Rio de Janeiro. Entre eles, assassinatos por encomenda. De acordo com investigações da Polícia Civil, uma execução chegava a custar de R$ 100 mil a R$ 1,5 milhão.

Na última segunda-feira (30), a Polícia Civil e do MP-RJ realizaram uma operação, derivada da investigação sobre o crime contra Marielle Franco, para prender dois integrantes do Escritório do Crime. Os irmãos Leandro Gouvêa da Silva, o Tonhão, e Leonardo Gouvêa da Silva, o Mad. O último é apontado pela investigação como herdeiro de Nóbrega no comando da organização.

Marielle Franco

Presos desde 12 março de 2019, o policial reformado Ronnie Lessa, que é vizinho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, acusados de serem os assassinos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, mortos em 14 de março de 2018, são integrantes do Escritório do Crime.

Lessa e Queiroz teriam sido contratados para assassinar a vereadora. Porém, há uma divergência sobre quem seria o mandante entre as investigações feitas pela Polícia Federal, sob o comando da Procuradoria Geral da República (PGR), e do Ministério Público e Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Em outubro de 2019, Raquel Dodge, procuradora-geral na época, enviou uma denúncia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) afirmando que Domingos Brazão, ex-vereador fluminense e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Rio de Janeiro, seria o mandante do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

A PGR averiguava uma possível tentativa de obstrução na investigação do caso. Para o Ministério Público e a Polícia Civil, que apuram o assassinato da vereadora, ainda não há elementos para apontar o responsável por ordenar que Marielle fosse executada.

Flávio Bolsonaro e Queiroz

Adriano da Nóbrega mantinha estreita relação com Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (REPUBLICANOS-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Os dois se conheceram em 2003, quando serviram juntos no 18º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ).

De acordo com o MP-RJ, Nóbrega e Queiroz são sócios em um esquema de “rachadinha” que funcionava no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual no Rio de Janeiro. Informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), mostram que o ex-assessor recebeu R$ 2 milhões em sua conta, divididos em 483 depósitos.

No gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) estavam empregadas a ex-esposa e a mãe de Nóbrega, Daniella Mendonça da Costa e Raimunda Veras Magalhães, respectivamente. Elas receberam R$ 1.029.042,48 em salários e repassaram R$ 203 mil para Queiroz, que repassou o valor em depósitos e saques monitorados pelo MP-RJ. Uma das transferências, no valor de R$ 24 mil, foi feita para a conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, no ano de 2016.

Questionado sobre o repasse à sua esposa, Jair Bolsonaro informou que fez um empréstimo a Queiroz e o depósito seria parte do pagamento. O presidente lembrou, em entrevista, que é amigo do ex-assessor do filho desde 1984.

Edição: Rodrigo Durão Coelho