Em entrevista ao jornal Zero Hora, pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Dalcolmo, afirma que a imunização depende de uma “decisão política” e planejamento

Do Zero Hora

A expectativa do governo brasileiro é de iniciar a vacinação contra a covid-19 de forma simultânea a partir das 10h da próxima quarta-feira (20). Conforme a pesquisadora, a projeção é de que se imunize 60% da população ao longo de 2021, o que “é perfeitamente factível com a estrutura do programa nacional de vacinação”.

Margareth observa que o país tem postos de saúde suficientes para vacinar 5 milhões de pessoas ao dia.

Se tivermos full time (postos abertos), por que não (vacinar 5 milhões)? Basta que se tenha vacina, gente trabalhando, horários diferenciados e uma estratégia de guerra em tempos de paz. Tem que ter vacinas, insumos e pessoal disponível. E adesão com a organização da nossa sociedade, entendendo que não pode fazer tumulto, deixar idosos expostos. Tudo isso terá que ser feito com serenidade — avaliou, em entrevista ao Timeline Gaúcha na sexta-feira (15).

Ela reforça a rede de postos, UPA´s, UBS e hospitais a serviço SUS (Sistema Único de Saúde) garante a logística necessária para vacinar rapidamente toda a população brasileira.

 O Brasil tem quase 40 mil salas em todo o Brasil, tem uma expertise em campanhas e todas as pessoas de acordo com o programa poderão procurar centros de saúde SUS mais próximos de suas residências. O que estamos alertando é que não haverá vacina para toda a população. Isso não existe. Em nenhum lugar do mundo — enfatiza.

A vacina contra a covid-19 desenvolvida pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford e a Fundação Oswaldo Cruz, é principal aposta do Brasil para começar a vacinar a população. No Brasil, o imunizante será produzido pela Fiocruz. Na última quinta-feira (14), o Ministério da Saúde começou uma operação para buscar na Índia 2 milhões de doses do imunizante no laboratório Serum, um dos fabricantes da vacina da AstraZeneca. A operação, entretanto, vai atrasar.

Consultora da ONU para Assuntos de Tuberculose, a pneumologista Margareth  Dalcomo participa de vários congressos médicos, na foto está ao lado do médico Drauzio Varella

 

O resultado da análise do pedido de autorização para uso emergencial da vacina da Oxford, no entanto, será divulgada no domingo (17) pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que também decidirá sobre o pedido encaminhado pelo Instituto Butantan para aval da CoronaVac.

O pedido de autorização da Fiocruz é para o uso de 2 milhões de doses de vacinas que devem ser importadas do laboratório Serum. A Fiocruz deseja distribuir, ainda em janeiro, estas doses prontas, vindas de fábrica indiana. A instituição passará a produzir a vacina a partir de 20 de janeiro. A previsão é de entrega de 1 milhão de doses já no início de fevereiro. A projeção é produzir 15 milhões de doses a cada mês e fechar o primeiro semestre com 110 milhões de doses produzidas já no Brasil.

Manaus

Ainda durante a entrevista ao programa Timeline, Dalcomo comentou a situação de calamidade pública diante do colapso do sistema de saúde de Manuas, no Amazonas. Mais de 23o pacientes serão remanejados para outros Estados nesta sexta-feira por falta de oxigênio nos hospitais.

 Estamos acompanhando de perto, com nossos colegas. Eu considero que estamos vivendo um luto vendo o sofrimento dessas pessoas. Não é possível que em 2021 esteja ocorrendo. Manaus é um lugar isolado, não é tão simples de chegar, não é qualquer aeronave que pode transportar oxigênio. Há uma premência causada pela transmissão da cepa mutante, essa cepa está circulando e transmite muito mais. É uma crônica anunciada —disse. E completou:

“O que está acontecendo em Manaus pode perfeitamente ocorrer em outros locais do Brasil se providências não forem tomadas”, alerta