Por motivos sanitários a China vai sacrificar entre 20% a 30% de seu rebanho de 700 milhões de porcos. Em Chicago e São Paulo, especialistas prevêem queda da saca da soja no segundo semestre.

Peste suína na China deve baixar no preço da soja no Brasil

Marcus Vinícius

Na China este é o Ano do Porco, que teve início, segundo o horóscopo chinês,  no dia 5 de fevereiro. Mas 2019 não está sendo bom para os suinocultores chineses. O país, que tem o maior rebanho de porcos do mundo, com 700 milhões de cabeças, deve sacrificar 20%  a 30% deste rebanho (140 milhões a 210 milhões de cabeças) para combater a Peste Suína Africana (PSA) que desde 2018 afeta aquele país.

A peste na China domina os debates do agronegócio brasileiro. À véspera do feriado da Semana Santa (quarta-feira, 17/04), a direção da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) se reuniu em Brasília para discutir este tema e também a questão da febre aftosa.  Na última terça-feira (16/04), foi a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA),  que se debruçou sobre esta crise sanitária.

As duas entidades entendem que o Brasil deve ampliar as medidas de proteção à saúde do rebanho nacional, e se preparar para colher dividendos com o possível aumento das exportações ao mercado da China e de Hong-Kong.

Soja

Mas se para a pecuária a peste suína na China pode alavancar os negócios, para o setor da soja, há o temor de uma possível queda no preço do produto. De acordo matéria veiculada no Valor Econômico, especialistas orientam que o momento é de venda do produto. Para o analista Luiz Fernando Pacheco, da T&F Consultoria Agroeconômica, no segundo semestre os preços serão menores.  “Com baixa na demanda chinesa, lucro ao redor de 9,32% não é garantido no 2º semestre.

 

“Nossa recomendação é a mesma que já vínhamos alertando há várias semanas: vender nos preços atuais, que ainda proporcionam algum lucro. Porque a perspectiva é negativa para o segundo semestre”, alerta o analista da T&T.

Na Bolsa de Chicago, a avaliação é de que os chineses reduzam em no mínimo 10% a compra de farelo de soja neste ano.  Segundo estimativa do Vertical Group, de Nova York,  a China deveria importar 88 MT nesta temporada.

 

“Se cair 10%, irá para 79,2 MT, o que aumentaria os estoques mundiais, que já são os mais altos dos últimos 3 anos: 115,97 MT. De qualquer forma, a China não mais irá comprar aqueles milhões de toneladas que os americanos querem (e precisam), para reduzir os seus estoques”, adverte o consultor da Vertical Group.

Ainda segundo estimativa do Vertical Group, o abate forçado de milhões de animais na China vai reduzir a demanda por farelo de soja em algo entre 5% e 10%, e uma recuperação não deve acontecer antes do fim de 2019. Porém, um possível aumento da produção de suínos nos EUA, na Europa e no Brasil para atender à demanda chinesa pode estimular a procura pelo ingrediente de ração animal.

Para o sojicultor goiano fica a dica: a hora de vender com melhor preço é agora. A tendência é de queda no valor do produto no segundo semestre, e a recuperação deve ocorrer somente em 2020, quando a demanda por farelo de soja, para recompor o estoque de suínos na China, pode ajudar a estabilizar o viés de queda nos preços.

Mercado da carne

O Rabobank é um banco holandês voltado para o agronegócio. Ele surgiu da união de duas cooperativas de crédito holandesas. Um de seus representantes no Brasil,  Adolfo Fontes, disse em entrevista à Revista Gobo Rural que estima que o principal efeito da peste suína africana nas exportações para a China ainda está por vir. Ele afirma que o gigante asiático ainda precisará importar carne suína, mas também a bovina e de frango. “É um país que produz metade da carne suína do mundo e ainda importa o produto, então é muito importante”, explica.

Segundo Fontes, o efeito nas exportações brasileiras ainda não foi tão sentido porque a China tem um grande estoque do produto, que ainda está sendo “queimado”. Além disso, o país enviou uma grande quantidade de animais para abate como forma de prevenir uma epidemia maior da peste, o que fez com que, no curto prazo, a produção do país aumentasse.

As exportações do Brasil e de outros países, no entanto, devem aumentar a partir de maio, estima ele, tanto para carne a carne suína quanto para outros tipos de carne. “Isso vai corroborar com nosso cenário de preços mais firmes aqui no Brasil este ano”, diz Fontes.

CNA analisa crise

Na CNA, a  assessora técnica da Comissão Nacional de Aves e Suínos, Ana Lígia Lenat, fez um relato sobre a situação da Peste Suína Clássica, no País em razão do surgimento de focos no Ceará e no Piauí no ano passado. “É necessário que os sistemas de vigilância sanitária permaneçam atentos para evitar novos focos”, explicou Ana Lígia.

Ela traçou também um panorama mundial atualizado da Peste Suína Africana, que está com afeta a  China e tem focos na Bélgica e no Leste Europeu.

 

“Isso (a peste na China) pode abrir uma oportunidade para o Brasil para exportar mais carne de frango e para aumentar as vendas de carne suína”, avalia Ana Ligia.

ABPA defende prevenção

De acordo com matéria veiculada pela revista Dinheiro Rural, representantes da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) receberam na última terça-feira (16/04), o diretor do Departamento de Saúde Animal e Insumos Pecuários do Ministério da Agricultura, Geraldo Marcos de Moraes, em reunião conjunta das Câmaras de Sanidade e de Genética Avícola, realizada em São Paulo (SP), para debater estratégias de prevenção à peste suína africana (PSA).

“Foram estabelecidos alinhamentos para a realização de treinamentos em conjunto com membros da iniciativa privada e do setor público, a criação de um grupo de trabalho de avaliação de riscos de PSA, entre outros”, diz a ABPA em nota.

 

As ações de erradicação da peste suína clássica (PSC) de Estados brasileiros que não estão na área livre da enfermidade pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) também estiveram em pauta.

De acordo com a publicação, recentemente, a ABPA criou o Grupo Especial de Prevenção à Peste Suína Africana (Gepesa), que contará com a participação de representações regionais do setor produtivo e órgãos de pesquisa atuantes na suinocultura nacional. O grupo avaliará estratégias adotadas internamente e analisará erros e acertos cometidos por países que enfrentaram o problema, sob a perspectiva de atuação do setor privado.