Segundo Viviane Cubas, policiais que têm contato direto com o cidadão na resolução de problemas de segurança pública são justamente aqueles que não têm voz dentro das organizações.

Por Jornal da USP – Dando continuidade ao especial sobre segurança e violência, o Jornal da USP no Ar conversa com Viviane Cubas, mestre e doutora em Sociologia e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, sobre a atuação e a estruturação da polícia no Brasil.

A pesquisadora relata que, em 2008, o NEV fez uma pesquisa junto às ouvidorias de polícia, a qual resultou em sua tese de doutorado.

“Nosso objetivo era ajudar as ouvidorias a desenvolver um manual de monitoramento da letalidade pela polícia nos Estados. A gente percebeu, então, que as ouvidorias variam muito na capacidade de atuação, no desenvolvimento do trabalho”, aponta ela.

Aproximando-se da ouvidoria de São Paulo, desenvolveu pesquisas sobre as queixas registradas por policiais, o que, segundo ela, é um fato bastante inusitado.

Em geral, as ouvidorias são destinadas às queixas da população contra ações da polícia. O que chamou a atenção de Viviane foi que, em suas pesquisas, havia um número grande de queixas registradas por policiais, dentre as quais 90% eram de militares. “Pude entender melhor sobre as dinâmicas internas da instituição, já que a grande maioria dos registros relaciona-se às relações de trabalho e hierarquia, como problemas de organização e policiais humilhados por seus superiores.”

Ela explica ainda que existe uma tendência, quando ocorre um caso de abuso de poder que tem impacto, de a instituição individualizar o problema, usando o termo “maçã podre, segundo Viviane. “Fica cada vez mais evidente que as instituições não só são responsáveis como são elas que moldam o profissional atuante nas ruas. É por isso que não há como cobrar, nas ruas, onde esses profissionais atuam, uma conduta que não é vivida dentro das suas instituições”, diz.

Sobre o contexto atual, não há como não relacionar casos de abuso de autoridade, que ficam mais visíveis, com o próprio discurso político que está em voga. “As falas e o tratamento das autoridades dão o tom da ação policial e têm impacto direto na população”, explica a pesquisadora.

Viviane finaliza reafirmando a importância de uma reforma interna na organização, a fim de que o policiamento realmente contribua para a segurança pública e a resolução de problemas. “As decisões sempre vêm de cima para baixo, por conta da hierarquização da instituição. O policial que lida com os problemas, que tem contato direto com o cidadão, é justamente aquele que não tem voz. Isso prejudica o próprio funcionamento interno. Essas são questões que precisam ser reavaliadas”, completa.