Pesquisa, que envolveu dezenas de cientistas de vários países, calculou os máximos de temperatura global e local que as florestas podem suportar (foto: Bruno Henning/Wikimedia Commons)

José Tadeu Arantes |Agência FAPESP – Até que ponto as florestas tropicais podem resistir ao aquecimento global? Qual é o limite de sua resiliência? Um megaestudo, envolvendo dezenas de pesquisadores de vários países, buscou responder a essas perguntas. Para isso, integrou dados de 590 áreas florestais permanentes, distribuídas pela faixa tropical do planeta, correlacionando as variáveis climáticas com o ciclo de carbono das florestas. As conclusões foram publicadas na revista Science, no artigo “Long-term thermal sensitivity of Earth’s tropical forests” .

“O estudo mostrou que a temperatura máxima é o fator que mais influencia a biomassa situada acima do solo. Em primeiro lugar, reduzindo sua capacidade de assimilar carbono por meio da fotossíntese e de convertê-lo em madeira. Em segundo lugar, aumentando a taxa de mortalidade das árvores, o que acentua as emissões de carbono e, por decorrência, o aquecimento global, em um círculo vicioso”, diz Luiz Aragão à Agência FAPESP.

Chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Aragão foi um dos pesquisadores brasileiros que integraram o estudo. Sua participação recebeu apoio da FAPESP por meio de auxílio a dois projetos: “Diversidade funcional dos biomas Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado nos ambientes intactos e em regeneração por meio de imagens hiperspectrais”, e “Interação entre seca e fogo em vegetação secundária no Brasil”.

Os dois auxílios compõem o apoio a um projeto maior, denominado “BIOmes of Brasil – Resilience, Recovery, and Diversity: BIO-RED”, financiado por meio de acordo entre a FAPESP e o Natural Environment Research Council (NERC), do Reino Unido.

Para que as florestas tropicais possam se adaptar às mudanças climáticas é preciso que a temperatura global não exceda o limite de dois graus Celsius (2 °C) acima da temperatura da época pré-industrial, conforme a meta fixada no Acordo de Paris. E que, localmente, a temperatura da área florestal não ultrapasse 32,2 °C.

“Isso vale para as florestas naturais não perturbadas pela ação humana. Se agregarmos ao aquecimento global eventos como incêndios, desmatamento e fragmentação das áreas florestais, a resiliência fica ainda mais comprometida”, acrescenta o pesquisador.

Ele explica que, além de destruírem a cobertura vegetal e de lançarem grandes quantidades de carbono na atmosfera, esses eventos reduzem também o transporte de umidade no interior das florestas. Então, as florestas passam a ser impactadas tanto pelo acirramento das secas em decorrência das mudanças globais quanto por secas localizadas.

“As florestas tropicais são muito resilientes. Mas existem limites que não podem ser ultrapassados. O estudo agora publicado apontou dois máximos limitantes: 2 °C acima da temperatura pré-industrial para a temperatura global e 32,2 °C para a temperatura local. Com relação aos impactos causados localmente pela ação humana, estudos de modelagem apontam que uma destruição de 30% a 40% pode levar uma floresta tão exuberante como a Amazônica ao ponto de não retorno. A fragmentação florestal cria bordas extremamente suscetíveis”, diz Aragão.

O pesquisador ressalta que a Terra já passou antes por temperaturas elevadas. Mas essas mudanças naturais foram processos de longo prazo, que possibilitaram que as espécies se adaptassem. As mudanças atuais, de origem antrópica, são tão rápidas que muitas vezes não permitem adaptação.

“Nosso estudo mostrou que ainda temos uma chance de salvar as florestas tropicais – e tudo o que elas representam para o equilíbrio do planeta. Mas é preciso cumprir a meta global, de manter o aquecimento abaixo dos 2 °C. E, localmente, temos que defender as florestas de toda ação predatória”, conclui.

O artigo Long-term thermal sensitivity of Earth’s tropical forests pode ser lido em https://science.sciencemag.org/content/368/6493/869.