Zaira Arias, militante do partido de Castillo, mantém otimismo: “Os sem voz finalmente terão um governo que os escute”.

Os peruanos vão às urnas neste domingo (6) para uma eleição presencial polarizada entre esquerda e direita. De um lado, o professor Pedro Castillo, candidato improvável que foi o mais votado no primeiro turno. Do outro, Keiko Fujimori, candidata que tenta se eleger pela terceira vez e assume a herança política de seu pai, o ditador Alberto Fujimori.

A disputa acontece nas ruas, com manifestações de ambos os lados, e também nas redes sociais e meios de comunicação. As pesquisas apontam empate técnico entre os candidatos, com pequena vantagem para Castillo.

O candidato de esquerda e seu partido enfrentam uma onda de notícias falsas e acusações infundadas de “terrorismo”, mas mantêm o otimismo.

É o que explica Zaira Arias, expoente de uma juventude que começa a ganhar protagonismo na política peruana. Ela integra o Peru Livre, partido de Castillo, e foi candidata ao Legislativo na região da capital Lima.

Em entrevista, Arias fala sobre sua aproximação com a política, em um contexto de grande descrédito sobre os partidos tradicionais, e analisa os desafios de um eventual governo de Castillo.

ARGMedios: Qual foi sua motivação para participar da política institucional, e por que optou por militar no Peru Libre?

Zaira Arias: É a primeira vez que integro um partido político. Sou um quadro nascido dentro da organização, que oferece oportunidades para jovens e mulheres. E eu acho isso importante, porque os partidos políticos hoje estão muito desacreditados. Sabe-se que para concorrer a cargos públicos, como deputado ou prefeito, os partidos de direita cobram cotas. Eu, como um jovem estudante universitária, não poderia aceitar isso.

O partido não me cobrou um centavo, e isso mostra transparência.

O que me motivou foi encontrar um novo partido socialista limpo, um partido que quer uma nova Constituição. E que não tem rabo preso nem manchas no seu passado.

Então, eu compreendo a boa intenção dos jovens ao fundarem coletivos ou organizações sociais, mas quando se trata de algo mais macro, algo sério, os instrumentos apropriados são os partidos políticos. Se você realmente deseja participar da política, o que você precisa fazer é entrar em um partido e levar uma vida orgânica ativa.

Você mencionou que uma das propostas que o atraiu foi a Assembleia Constituinte. Você também vem falando em outras instâncias de ruptura com a continuidade neoliberal, descentralização. Que papel terão a comunidade, os movimentos sociais, na execução dessa agenda?

Eles terão papel prioritário.

O que o partido busca é a forma mais democrática de passar por um processo de mudança, que é primeiro uma consulta popular, um referendo. Os mecanismos legais são dois, de acordo com nossa Constituição: um é por meio do Congresso, e o outro por meio da coleta de 2 milhões de assinaturas. Seja qual for o caminho, a decisão política de fazê-lo cabe ao nosso partido, hoje liderado por Pedro Castillo.

Pedro foi muito claro com a proposta da nova Constituição: queremos uma Assembleia Constituinte. Pessoalmente, gostaria, como mulher, que houvesse paridade entre homens e mulheres. Que seja uma composição popular. Que tenha a participação não só de políticos mas também de organizações sociais e plurinacionais: que tenha a participação das diferentes nações que nosso país acolhe.

Esse deve ser o espírito de uma assembleia representativa, popular e participativa.

Em caso de vitória de Castillo, como será o ambiente para construção de alianças? É possível construir uma governança com um Congresso tão dividido?

Avalio que os interesses dos peruanos estão acima das cores e das legendas. É muito importante colocar isso em primeiro lugar.

Se um projeto vai beneficiar a maioria, deve ser defendido e apoiado. A linguagem do Peru Livre é de coesão, de unidade. Não nos fechamos a nada, muito pelo contrário, porque sabemos que este processo de mudança não vai ser feito por duas pessoas: tem que ser feito pela maioria dos peruanos.

Buscar isolamento, neste contexto, seria praticamente marcar um gol contra. Hoje, os parlamentares eleitos, os porta-vozes, deixaram bem claro que pretendem construir o diálogo.

Do lado oposto, será que também existe essa vontade?

Não somos ingênuos, mas esperamos, sim, que os partidos políticos, depois de tantas decepções, realmente coloquem o Peru à frente de seus interesses.

Porque já tivemos experiências desastrosas. Quando as pessoas estão insatisfeitas, não suportam. Portanto, para a própria sobrevivência dos partidos que estão no Parlamento, deve ser feito um apelo à abertura e ao consenso.

Em várias ocasiões, você apontou o contraste entre Lima e as demais regiões do país. De que depende o fim dessa divisão?

Depende de vontade política. O Peru passou por processos de descentralização que ficaram só na retórica. A criação de estados federados ajudaria significativamente a resolver os problemas das regiões.

Sabemos que isso depende de mudanças no campo econômico. A verdadeira descentralização deve ser como nos países com estados federados, no sentido de que são independentes, até nos aspectos tributários. Eles próprios recolhem os seus impostos e se administram.

No Peru, ocorre o contrário: o Estado praticamente absorve 70% da receita do país, e 30% é repartido entre as 25 regiões e os mais de 4 mil municípios. Uma porcentagem ínfima que é dada às diferentes regiões e distritos do país, razão pela qual a corrupção está capilarizada.

Quem cuida de tudo isso está em um gabinete, um terreno fértil para a corrupção. Por outro lado, quando a renda do país é descentralizada para as diferentes regiões, isso passa por muitas mãos, então é menos provável que aconteçam desvios.

E creio que a descentralização é um ato de justiça social, porque hoje as regiões são esquecidas até pelas autarquias locais, que têm sempre que recorrer ao Ministério da Economia para realizar um projeto, para liberar mais orçamento, para que construam obras importantes em sua região.

Você é um dos rostos mais jovens do Peru Livre. Considerando que muitos e muitos jovens não conheceram o fujimorismo de perto, você avalia que as novas gerações estão comprometidas com uma proposta de mudança?

Acho que a juventude de hoje está mais ligada por causa das redes sociais. Elas têm um papel fundamental nessa democracia, que hoje é totalmente mediada. Se não existissem redes sociais, não teríamos alternativa à mídia corporativa.

Hoje, o jovem tem mais ferramentas para se libertar. Porém, também me identifico como estudante de uma universidade privada, e vejo a supressão da educação como ferramenta de dominação do povo. Hoje, em Lima, vivemos quase 8 milhões de jovens e existem apenas seis universidades nacionais [públicas].

Identifico essa política de exclusão como instrumento de opressão. É a educação que garante que os jovens possam se formar em uma profissão, ou na carreira técnica, algo que os ajude em seu desenvolvimento. É por isso que o Peru Livre quer abrir as portas das universidades, para que as pessoas tenham mais educação e possam se libertar.

Enfrentamos uma política de privatização do ensino superior. Em Lima, existem 25 universidades privadas e apenas seis nacionais. E, nas privadas, desde o momento em que os jovens ingressam, convivem com a ideologia neoliberal.

Para equilibrar esse cenário, são necessárias mais universidades nacionais, onde não há lucro. Porque quem dirige essas universidades são os mesmos empresários que têm bancos, os mais poderosos do país. E nós acreditamos que a educação é um direito, não apenas mais uma mercadoria.

Nos últimos anos, na América Latina, houve um importante crescimento dos movimentos de mulheres. O que você pode nos contar sobre a agenda feminista no Peru?

Vejo como muito positivo o papel que as mulheres estão assumindo na vida política, na organização das suas comunidades. Acho que fomos subestimadas. Não é que não quiséssemos entrar na política ou ser líderes, mas sempre fomos impedidas de fazê-lo.

Quando há esse componente cultural, que discrimina as mulheres, deve haver leis para compensar essa desigualdade. Por isso, é urgente que as mulheres tenham a mesma proporção de representação que os homens. Representamos metade do Peru! Não há lógica que não sejamos metade, ao menos, no Parlamento, no Executivo.

Eu, definitivamente, apoio a paridade. Ela deve ser utilizado um mecanismo para que, no Congresso, por exemplo, metade das cadeiras seja para mulheres.

A política tem que regular esses aspectos para que as mulheres, e também os povos indígenas, tenham realmente representação nos diferentes cargos de decisão.

Existe alguma figura ou processo em nível regional que você considere uma referência positiva para os peruanos?

Na América Latina já ocorreram vários processos, cada um com suas particularidades, mas gostei muito do que o Rafael Correa fez no Equador. Pessoalmente, porque é o único país que visitei fora do meu. E pude constatar definitivamente os ganhos em infrastrutura, as rodovias enormes, a beleza urbanística de uma cidade como Guayaquil. Se aqui em Lima a infraestrutura já é muito limitada, nas províncias é ainda mais.

O Peru Livre me atraiu também por ter construído hospitais especializados na região de Junín, além da Puente Comunero, que é a ponte mais longa do país. A realização deste tipo de trabalhos revela a capacidade de organização e gestão que um partido político deve ter e que é vital para o nosso país, que hoje está endividado e carece de infraestrutura.

Finalmente, qual a sua expectativa para o domingo de eleição? Como você imagina esse dia, e a que devemos estar atentos?

Estou bastante preocupado porque vejo o desespero de muita gente, que nos acusa de terrorismo sem nenhum fundamento. É inconcebível o nível de violência que estão exercendo na mídia, utilizando concessões públicas para fins particulares.

Estou preocupada porque massacraram 16 pessoas, e eu nunca tinha enfrentado esse tipo de violência extrema. É curioso que sempre funcione assim: no segundo turno, quando Keiko [Fujimori] enfrenta seus rivais, sempre aparece o argumento do terrorismo.

Não quero pensar que aquele ataque tenha um propósito político. Isso seria realmente desprezível.

Estou preocupada porque, se estamos vendo isso agora, o que nos espera depois de 6 de junho? O que mais eles estão dispostos a fazer? Estou preocupada e estou realmente pedindo às pessoas que se organizem. O que virá será duro.

Acredito que a única defesa que o Peru Livre e Pedro Castillo podem ter é um povo consciente e organizado, disposto a lutar nas ruas sempre que essas pessoas decidirem fazer algo contra nossa democracia, nossa tranquilidade e nosso direito de viver em paz.

E acho que, assim como haverá momentos um complicados, também haverá momentos gloriosos: a reivindicação popular de direitos, onde os sem voz terão a possibilidade de um governo finalmente ouvi-los. E tenho muita esperança de que a construção do nosso país caminhe de mãos dadas com as organizações sociais, com o próprio povo. E que as pessoas, ao verem essas mudanças, se identifiquem mais com o nosso projeto.

Também espero que o Congresso e todas as pessoas que assumam o poder estejam à altura das circunstâncias.