O irmão. O livro que preocupa o ex-presidente Mauricio Macri. Quem fala é Mariano Macri, irmão de Mauricio. E o que conta é uma realidade muito distante do produto construído pelo marketing político. Negócios com empresas do Grupo e Boca, as extorsões, as empresas laranjas, a indiferença por quem está mais próximo, a ocultação de bens. Tudo o que não está à vista do ex-presidente, contado por quem o conhece melhor, no livro que toda a liderança política espera.

O Página 12, diário argentino, mostra o desespero do ex-presidente Maurício Macri, que  apressa-se a minimizar o efeito das revelações do irmão, que assim como Pedro Collor, finado irmão do ex-presidente Fernando Collor de Mello, resolveu contar todas as falcatruas do ex-ocupante da Casa Rosada.

Em entrevista entrevista exclusiva ao jornalista Luís Costa Pinto e publicada na revista Veja em edição com data de capa de 27 de maio de 1992,  Pedro Collor denunciou o esquema de corrupção do governo Collor envolvendo o ex-tesoureiro de campanha Paulo Cesar Farias, o “PC Farias”. A revelação desencadeou o processo de impeachment do então presidente Fernando Collor.

Na Argentina o irmão de Macri, o empresário Mariano Macri resolveu detonar os esquemas através do livro: “Hermano: A confissão de Mariano Macri sobre a trama de poder, política, negócios e família por trás do seu irmão”.

De acordo com a resenha feita pelo jornalista Santiago O’Donnell, para o Página 12, o  livro conta, a partir de um relato autobiográfico de Mariano Macri, como se criou um abismo entre ele e Mauricio devido a profundas diferenças de visões, princípios e posições éticas.

Depois de décadas compartilhando, ou melhor, competindo com Mauricio pela herança e legado de seu pai, Mariano, quinto filho de Franco, fala pela primeira vez e revela o lado negro do irmão mais velho, com um nível de precisão e detalhe que nem mesmo os piores inimigos do ex-presidente chegaram a imaginar”, relata.

Entre outras histórias nunca contadas, Mariano fala do empréstimo milionário de um banco brasileiro que hackeava o grupo Macri, e do plano fracassado para evitar o pagamento por meio de uma simulação de venda da principal empresa do grupo, a Sideco, para um banco austríaco que, por sua vez, esconderia o dinheiro das fundações criadas para o efeito no paraíso fiscal do Luxemburgo. Além disso, com o mesmo propósito de ocultar seus ativos, diz Mariano, a holding da família Socma foi esvaziada nos últimos anos por meio de um esquema de autocrédito a empresas do grupo. Além disso, para evitar o surgimento de conflitos de interesse, desde que Mauricio entrou na função pública, o grupo terceirizou alguns de seus negócios para frontman e sócios ocultos, por exemplo, no caso de Wind Parks e Autopistas del Sol ou McAir- Avianca, manobras nas quais Mariano fornece informações que confirmariam o que foi revelado pelo jornalismo e vai além do que se sabe até agora.

Mariano pôs em pratos limpos negócios irregulares do irmão à frente das empresas da família

Mariano conta que seu irmão mais velho teria acumulado uma fortuna fazendo negócios com as empresas de seu pai, a presidência do Boca, o chefe do governo de Buenos Aires e a presidência do país. Fornece detalhes exclusivos e até então desconhecidos da parceria com a OCA e o sindicato dos caminhoneiros, liderado por Hugo Moyano, para a exploração do Correio Argentino após sua desapropriação pelo governo de Néstor Kirchner, por meio de uma triangulação negociada com o ex-secretário de Guillermo Moreno Commerce. Além disso, Mariano explica como os fundos negros originados nessa manobra podem acabar em contas no exterior em nome dele e de seu outro irmão, Gianfranco – que ele descreve como o principal frontman de Mauricio, junto com Nicky Caputo e o falecido Jorge Blanco. Villegas—, em um banco na Bélgica.

Durante a cobertura dos Paradise Papers, a existência desses fundos era conhecida, mas até agora nada havia sido dito sobre sua origem. Mariano conta também por que suspeita, ou melhor, está convencido de que Macri fraudou seu pai e o grupo com a venda inflacionada de ações da Sevel, a venda do projeto Lincoln West para Donald Trump e um investimento descontrolado e não autorizado no Banco Extrader.

Segundo Mariano, ao suspender na justiça a suposta venda simulada ao banco austríaco – que ele não hesita em qualificar de fraude -, Mauricio deixou escapar na cara que não receberia mais a receita que recebia regularmente como dono de 20% do pacote acionista do grupo, embora o então chefe do governo de Buenos Aires não mantivesse qualquer vínculo formal com a holding.

O depoimento de Mariano Macri é muito mais do que uma reclamação. É a história íntima de uma empresa familiar, ou de uma família que funciona como uma empresa. É o retrato de um homem obcecado por dinheiro e poder, que continuou a entrar e a administrar os destinos de um grupo empresarial da cadeira de Rivadavia, em total contradição com sua promessa de colocar seus ativos em um fundo cego e esquecê-lo enquanto ele exerceu a mais alta magistratura. Um presidente que não hesitou em envolver os próprios filhos em suas atividades dentro do grupo, expondo-os às ações dos tribunais, legando-lhes suas ações e ordenando-lhes que votassem a favor da venda simulada ao banco austríaco.

 

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