Um grupo de milionários propôs aumento de impostos para os mais ricos. Os governos dos próprios países não querem que eles paguem. Preferem manter o sistema, os offshores, as fugas aos impostos legalizadas, o dumping social.

 

Esta mensagem, famosa dos tempos da primeira crise económica, pós 25 de Abril, poderá parecer-vos demasiado radical e fora dos tempos modernos.

E se forem os próprios ricos a querer pagar a crise, a querer pagar mais impostos?

É isso mesmo que 83 milionários [aqui leia-se milhionários] da Alemanha, Canadá, EUA, Reino Unido, Dinamarca, Nova Zelândia e até da Holanda apelam aos seus governos. Os mais ricos do mundo dizem que todos os ricos devem pagar mais impostos para ajudar os Estados a enfrentar a crise económica pós-covid.

Os muito, muito, mas mesmo muito ricos são claros no seu argumento: “não somos nós quem cuida dos doentes nas unidades de cuidados intensivos, nem trabalhamos em supermercados e também não conduzimos ambulâncias”!

Claro que por cá chamar-lhes-iam logo de “esquerda caviar”, ops, não são de esquerda… Ou extremistas de esquerda que querem pôr os ricos a pagar a crise…

“Temos dinheiro, muito. Dinheiro que é extremamente necessário agora e que vai continuar a ser necessário nos próximos anos, à medida que o mundo recupera desta crise. Hoje, nós, milionários que assinamos esta carta, pedimos aos nossos governos que subam os impostos sobre pessoas como nós. Imediatamente. Substancialmente. Permanentemente”.

Eis o paradoxo deste novo tempo. Aqueles que enriqueceram à custa de um sistema financeiro capitalista e mafioso para eles organizado têm agora um rebater de consciência. O paradoxo é maior quando os governos dos próprios países não querem que eles paguem – apesar de eles quererem pagar. Os governos querem manter o sistema, querem manter os offshores, as fugas aos impostos estatais legalizadas, o dumping social, os governos querem “ser mais papistas que o Papa”.

Na linha da frente está o governo holandês, aquele que diz que os países pobres devem cortar salários, sistema de saúde pública, que somos uns preguiçosos, que só queremos é praia… Esse governo holandês é responsável pelo seu paraíso fiscal, pelo seu esquema mafioso de sediar empresas que lá colocam as suas Sociedades Gestoras de Participações Sociais, holdings financeiras de transferência de tributação de lucros para a Holanda. Todas as 20 empresas de maior valor na Bolsa de Valores portuguesa estão lá sediadas.

As fugas para esse paraíso fiscal já custaram ao Estado Português – a todos nós – milhares de milhões de euros. Estes são os verdadeiros adversários e parasitas do Estado.

Quando se descobrem falcatruas sucessivas no Novo Banco, roubalheira sem fim ao Estado Português – a todos nós –, o sistema tem de fabricar e financiar um protagonista para desviar as atenções da realidade e apontar os mais fracos, os diferentes, os desprotegidos como os adversários a abater. Aí está a propagação do ódio e do fanatismo irracional.

Encerrando a população no ódio ou no racismo, a população não sabe que o protagonista quer acabar com o Serviço Nacional de Saúde, com a Educação Pública ou com os direitos dos trabalhadores. É a alienação perfeita!

*Vítor Franco é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Energia e Águas de Portugal, SIEAP

*Publicado originalmente em esquerda.net e reproduzido no Carta Maior

 

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