O presidente Jair Bolsonaro anunciou que nesta próxima terça-feira, 10, haverá um desfile de tanques da Marinha do Brasil na Esplanada dos Ministérios. Nesta mesma data a Câmara Federal põe em votação o projeto do voto impresso. Acuado com as denúncias de corrupção em seu governo reveladas pela CPI da Covid, o presidente tenta intimidar deputados e a sociedade. Lideranças de partidos de oposição reagiram à ameaça de golpe militar.

Enquanto o plenário da Câmara dos Deputados se prepara para votar a chamada PEC do voto impresso, o governo antecipou para esta terça-feira (10) uma operação de treinamento militar em Brasília, com desfile de tanques na capital. Imediatamente, a medida foi interpretada como tentativa de intimidação ao parlamento. O presidente da República vem atacando ministros do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal, e também vem fazendo ameaças em caso de rejeição da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 135.

O substitutivo ao projeto foi derrotado na semana passada por 23 a 11, em comissão especial, mas o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), decidiu levar a PEC ao plenário assim mesmo. Segundo ele, é uma tentativa de “pacificar” a questão do voto impresso. Nesta segunda-feira (9), Lira afirmou que o resultado da votação será respeitado, seja qual for. Ele disse, inclusive, ter recebido essa garantia do próprio presidente da República.

 Projeções feitas até agora, de ambos os lados, indicam ampla rejeição à PEC 135. Por isso, parlamentares governistas tentam ganhar tempo e adiar a votação. Enquanto isso, o presidente segue estimulando seus seguidores com declarações agressivas.

“Assustador”

Embaixador Celso Amorim, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa, viu com preocupação e classificou como “assustadora” a participação de Jair Bolsonaro na terça-feira (10) em um comboio militar – formado por veículos blindados, tanques e lança-mísseis – que atravessará a Esplanada dos Ministérios e estacionará em frente ao Palácio do Planalto.

Para Amorim, a estratégia indica que Bolsonaro quer tentar o golpe antes das eleições de 2022.

“Antes, ele estava pensando em evitar o impeachment, ir até 2022, acusar a eleição de fraude e, com isso, conseguir ganhar no tapetão. Ele está percebendo que talvez não dê para chegar em 2022. Então acho que ele talvez vá tentar um golpe antes, coisa que eu não achava que acontecesse. Acho que há uma inflexão”, afirmou Amorim durante entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, na TV 247.

Cadeia

Vice-presidente da CPI da Covid, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o comboio militar de Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios. Pelo Twitter, Randolfe disse que a tentativa de golpe pode levar Bolsonaro à cadeia.

“Colocar tanques na rua não é demonstração de força, e sim de covardia”, afirmou o parlamentar. “Quer tentar golpe Sr. @jairbolsonaro? É o crime que falta para lhe colocarmos na cadeia”, acrescentou.

Provocação

 O governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB-MA), usou suas redes sociais para criticar Jair Bolsonaro e Walter Braga Netto, que vão receber convites para a Operação Formosa, exercício militar da Marinha que neste ano contará com o Exército e a Força Aérea. Tanques e blindados serão estacionados em frente ao Palácio do Planalto.

“Esse desnecessário passeio de veículos militares pela Esplanada é uma provocação e tem cara de ameaça. Evento deveria ser cancelado. Nação precisa de serenidade e paz”, disse Dino.

Novo pedido de impeachment

Partidos de oposição entrarão com um novo pedido de impeachment contra Jair Bolsonaro. Desta vez por atentado ao livre exercício dos poderes, ameaças às eleições e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O anúncio foi feito pelo líder da oposição na Câmara, o deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ), que citou ataques e xingamentos de Bolsonaro contra o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Luís Roberto Barroso.

“A oposição, diante desses ataques do presidente da República ao sistema eleitoral, à democracia, à ameaça de não realização das eleições, entrará com um novo pedido de impeachment na Câmara dos Deputados nesta semana, provavelmente ainda no dia de hoje, para mostrar que não aceitamos esse comportamento do presidente da República, da mesma forma que o TSE reagiu, da mesma forma que o Supremo Tribunal Federal reagiu, é hora do Congresso Nacional reagir”, afirmou o deputado Alessandro Molon em entrevista à Globonews.

 

Lira contemporiza

Na manhã de hoje, Lira afirmou em entrevista ao Jornal da CBN que existem pautas mais importantes. “As instituições precisam serenar, precisam saber que é necessário um autocontrole”, declarou, defendendo a votação no plenário da Casa. “É a decisão mais acertada, e Bolsonaro me garantiu que respeitaria o resultado do plenário. Eu confio na palavra do presidente da República ao presidente da Câmara.”

Também nesta terça, o plenário do Senado tem na pauta o Projeto de Lei 2.108, que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN) e acrescenta ao Código Penal um tópico sobre crimes contra o Estado democrático de direito. Um substitutivo foi aprovado em maio na Câmara, tendo como texto-base o PL 6.764, elaborado por juristas, e a deputado Margarete Coelho (PP-PI) como relatora.
Com informações da RBA e Brasil247