Deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) havia anunciado na véspera ações da PF em torno de atos de governadores por conta da pandemia. Oposição teme que Bolsonaro faça uso político da Polícia Federal contra os seus adversários políticos.

Na manhã desta terça-feira (26/5), a Polícia Federal inicioui a operação Placebo, que tem como um dos alvos o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) havia anunciado na véspera ações da PF em torno de atos de governadores por conta da pandemia.

“A gente já teve algumas operações da Polícia Federal que estavam ali, na agulha, para sair, mas não saíam. E a gente deve ter, nos próximos meses, o que a gente vai chamar, talvez, de Covidão ou de… não sei qual vai ser o nome que eles vão dar… mas já tem alguns governadores sendo investigados pela Polícia Federal”, disse Carla a uma emissora gaúcha.

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As revelações da deputada ocorrem quatro dias depois de revelados conteúdos da reunião ministerial de 22 de abril. A reunião deixou exposta a intensão de Bolsonaro de intervir na PF. Em princípio, para poder proteger “filhos e amigos”.

Reação

Deputados de oposição reagiram à confirmação de Zambeli:

“Vamos representar ao MPF para que investigue para quem a operação contra Witzel foi vazada! Denúncias de desvios devem ser investigadas, mas como a aliada do presidente adiantou o fato? Sinal de que as interferências de Bolsonaro já são realidade. A PF não pode ser aparelhada!”, escreveu nas redes sociais o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ).

Molon  também foi à carga na Revista Veja:

“Bolsonaro quer usar a Polícia Federal como um braço policial seu, que obedeça a seus comandos, a fim de proteger familiares e amigos, e atacar desafetos. Denúncias de desvios de dinheiro público são graves e devem ser investigadas com rigor. Porém, a operação deflagrada hoje foi adiantada ontem por uma de suas maiores aliadas, o que indica que a interferência do presidente na PF está sendo bem-sucedida”, disse.

O vice-líder do PCdoB na Câmara, Márcio Jerry (MA), considerou o episódio uma prova da tentativa de interferência do governo na PF.

“Notem a gravidade: deputada Carla Zambelli anuncia operações da Polícia Federal contra governadores. Dá até o nome da operação! Um absurdo o governo de Jair Bolsonaro insistir na tentativa de transformar uma instituição do estado brasileiro em polícia política para perseguir adversários”, afirmou.

A operação

A Polícia Federal (PF) realizou ação de busca e apreensão na manhã desta terça-feira (26) no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). O objetivo alegado é apurar indícios de desvios de recursos destinados ao atendimento do estado de emergência de saúde pública devido ao novo coronavírus. São cumpridos 12 mandados de busca e apreensão, na chamada Operação Placebo.

Um dos alvos foi Witzel. Policiais federais deslocados de Brasília por volta das 5h30. A antiga residência, particular, ocupada por Witzel, também foi alvo da ação da PF. Também foram vasculhados o escritório de advocacia da mulher dele, Helena Witzel, e a casa do ex-subsecretário de Saúde Gabriell Neves, preso no último dia 7.

 

Perguntas no ar
Witzel, eleito na onda bolsonarista disseminada nas eleições de 2018, vem colecionando confrontos e desacordos com Bolsonaro. A ruptura ficou mais acentuada durante a crise do coronavírus. Mas surgiu no momento em que o governador se apresentou como possível candidato na disputa presidencial de 2022. O governo do Rio é alvo de suspeitas de superfaturamento na compra de testes rápidos para covid-19 em caráter emergencial.

A cientista política Jacqueline Muniz comentou na Rádio Brasil Atual não ter elementos para avaliar o mérito da operação nem desmerecer seus objetivos. Mas lembra a fala da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, na reunião ministerial do dia 22. “Na reunião, teve uma ministra dizendo que tem de prender governador, prefeito… Fica a pergunta no ar.”

Na ocasião, Damares afirmou: “A pandemia vai passar, mas governadores e prefeitos responderão processos e nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos. E nós estamos subindo o tom e discursos tão chegando. Nosso ministério vai começar a pegar pesado com governadores e prefeitos”.

A investigações sobre Witzel são sigilosas.

Witzel se manifesta

Em nota, o governador do Rio disse que não há nenhum tipo de autoria sua em nenhum tipo de irregularidade nas questões que envolvem as denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal (MPF).

Segundo Witzel, a interferência do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após mudanças no comando da Polícia Federal “está devidamente oficializada”.

“Estranha-me e indigna-me sobremaneira o fato absolutamente claro de que deputados bolsonaristas tenham anunciado em redes sociais nos últimos dias uma operação da Polícia Federal direcionada a mim, o que demonstra limpidamente que houve vazamento, com a construção de uma narrativa que jamais se confirmará. Estou à disposição da Justiça, meus sigilos abertos e estou tranquilo sobre o desdobramento dos fatos”, disse o governador. 

Com informações da Rede Brasil Atual e Brasil de Fato