Desigualdade social e relações monetárias do campo impedem o acesso à alimentação adequada de famílias desfavorecidas, situação agravada pelo quadro de pandemia da covid-19, informa Adriana Salay Leme. Em Goiás, Instituto Mauro Borges revela que 180 famílias estão na linha da miséria absoluta e dependem do auxílio emergencial para se alimentar.

Do Jornal da USP

Cerca de 67 milhões de pessoas na América Latina devem enfrentar a insegurança alimentar até o ano de 2030. Em 2019, 47 milhões de latino-americanos e caribenhos passaram fome. Os dados alarmantes são do relatório Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo em 2020, da Organização das Nações Unidas (ONU). O estudo observou que 2019 foi o 5º ano de avanço da fome na região, impossibilitando o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2, de fome zero, até 2030. E, devido à pandemia, a fome na América Latina tende a se agravar.

Conforme Adriana Salay Leme, doutoranda do programa de pós-graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a fome na América Latina é consequência da desigualdade social que impossibilita o acesso à alimentação saudável das camadas desfavorecidas da sociedade, mas a fome também é fruto das relações monetárias estabelecidas no campo sobre a produção de alimentos. “Qual alimento produzimos hoje e para onde ele está sendo destinado? É para a alimentação das famílias ou é para exportação, produção de commodities e que não necessariamente alimentará famílias? O objetivo final da produção de alimentos hoje é a geração de lucro e a financeirização do campo, e isso tem consequências para o acesso ao alimento na nossa sociedade.”

A pesquisadora aponta que a pandemia intensificou problemas estruturais da sociedade em relação ao acesso ao alimento e, como consequência, piorou a fome na América Latina: “A pandemia piorou muito a fome na América Latina. Se, num quadro pré-pandêmico, já acontecia um aumento considerável de fome, agora isso se intensificou. Pensando numa relação monetizada para o acesso ao alimento, se hoje essas famílias precisam de renda e de dinheiro para acessar uma alimentação adequada, mas sofrem com uma perda significativa de emprego e renda, essas famílias têm consequentemente o aumento da fome”.

A insegurança alimentar tem consequências também no nível nacional, como a diminuição da produtividade da população. “Uma sociedade que vive com fome não produz direito. A  sociedade precisa estar alimentada para produzir e desenvolver. Nós moldamos uma sociedade onde algumas pessoas têm acesso ao alimento e outras não. Há um problema de formulação dessa sociedade e é preciso pensar numa sociedade que não esteja mediada pelo lucro e sim pelo bem-estar das pessoas.”

Fome em Goiás

Um levantamento realizado pelo Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (IMB), vinculado à Secretaria-Geral da Governadoria (SGG), indica que o Auxílio Emergencial do Governo Federal foi a única fonte de renda de 181.306 pessoas residentes em Goiás em novembro do ano passado.

Para a elaboração do estudo “População Vulnerável com o fim do Auxílio Emergencial em Goiás”, o IMB analisou dados referentes aos meses de maio a novembro do ano passado. Do total de domicílios goianos, 39,9% receberam o benefício em maio e 43,1%, em novembro.

A análise traz um recorte regional para a Região Metropolitana de Goiânia. Em novembro, 28% dos domicílios com renda exclusivamente proveniente do AE se encontravam na Grande Goiânia, sendo 18% apenas na capital.

O IMB demonstra que, mesmo com a liberação da maior parte das atividades econômicas no fim do ano passado, o que oportuniza a aferição de outros rendimentos, a diminuição do valor do AE nos últimos meses de sua concessão teve grande impacto na sustentabilidade de milhares de domicílios goianos. Por isso, o auxílio se torna ainda mais importante em períodos de restrição das atividades econômicas e sociais, como o que Goiás e vários outros Estados estão enfrentando por causa do agravamento da pandemia.

Mesmo com a grande abrangência do AE, no País e em Goiás, a análise do IMB detectou que, em maio do ano passado, 144.224 pessoas estavam sem qualquer rendimento no Estado, número que baixou para 28.172 pessoas no mês de novembro. Com relação aos domicílios, os números passaram de 60.371 para 13.142 no mesmo período.

Com informações do IMB e site A Redação