Surge um 2021 com boas expectativas; com refluxo da hegemonia neoliberal e a consolidação de bloco progressista

Do Pagina 12/Brasil de Fato

Gerardo Szalkowicz – Tradução: Luiza Mançano

É quase óbvio que qualquer olhar analítico que tente descifrar o ano de 2020 estará marcado pelo que a pandemia fez conosco e o que fizemos com ela. Esta renovação de ciclo que o calendário gregoriano impõe ficou subordinada ao ciclo que a humanidade atravessa atualmente. De toda forma, a época do ano chama uma pausa no jogo, para elaborar balanços que consigam ir além do turbilhão informativo ou postagens efêmeras. Imaginando um sobrevoo pelo continente, vai aí um repasse — arbitrário e limitado — sobre o que este ano deixou para a América Latina e qual o esboço para 2021.

O ponto nevrálgico, o tópico exclusivo a ser destacado, é o devastador impacto socioeconômico da covid-19. Em um relatório recente, a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) assegurou que “quando comparados diferentes indicadores sanitários, econômicos, sociais e de desigualdade, a América Latina é a região mais afetada no mundo emergente”. As frias estatísticas indicam que, até agora, mais de 490 mil pessoas faleceram por coronavírus  —  a região com mais mortes per capita e quase um terço das registradas no mundo  — e mais de 15 milhões foram infectadas. Grande parte dos países já atravessam uma segunda onda e retomaram as restrições enquanto iniciam o tão ansiado processo de vacinação.

América Latina: pandemia não impediu protestos em todo o continente em 2020

A Cepal indica que a América Latina fechou o ano com uma queda de 7,7%, o que configura a pior crise dos últimos 120 anos, já que a pobreza alcançou 37,7% da população (231 milhões de pessoas), cerca de 45 milhões a mais do que em 2019. Além disso, segundo a Organização Internacional do Trabalho, neste ano mais de 34 milhões de empregos foram destruídos na região, o que gerou uma taxa de desemprego de 11,4%. O desemprego afetou mais as mulheres, principais provedoras das tarefas de cuidados: a queda da participação feminina no mercado de trabalho foi de -10,4% frente a -7,4% da participação masculina.

Foram diversas as respostas dos Estados, com escassas ações coordenadas. Embora alguns governos tenham reagido melhor diante da emergência sanitária, em geral as medidas de assistência para mitigar o colapso econômico foram insuficientes. Dá para contar nos dedos as iniciativas que mexeram no bolso das elites (como a taxação das riquezas na Argentina e Bolívia) e se destacaram, por sua ausência, políticas estruturais que revertessem a concentração da riqueza.

A pandemia funcionou como uma grande lupa que evidenciou as péssimas condições de vida das grandes maiorias: se a América Latina já era a região mais desigual do mundo, as cicatrizes que estão sendo criadas apenas aprofundarão mais ainda essa desigualdade. Com certeza, atravessaremos em 2021 com fortes conflitos sociais.

O impulso que vem debaixo

Mas nem todo o panorama é desolador: nos últimos meses, apareceram alguns sintomas de esperanças. O fato político do ano foi a recuperação da democracia na Bolívia e a arrasadora vitória do MAS. Com 55% dos votos e mais de 26 pontos de diferença, Luis Arce chegou à presidência, deixando para trás o fatídico governo interino de Jeanine Áñez.

A sequência foi coroada no dia 9 de novembro com o retorno épico de Evo Morales, sua caravana pelo país e o ato que reuniu 1 milhão de pessoas no aeroporto de Chimoré, de onde o ex-presidente partiu para o exílio exatamente um ano antes, após o golpe de Estado.

Algumas semanas antes, o povo chileno protagonizava outra jornada histórica. Com uma enxurrada de votos, superior a 78% foi aprovado o plebiscito para elaborar uma nova Constituição, que irá substituir a da década de 80 e desmontar as engrenagens da ditadura pinochetista.

Foi a primeira grande conquista da multidão que saiu às ruas em outubro de 2019, realizando um feito nesta época de transição, marcada pela ideia de força do “Chile despertou”, pela raiva acumulada que foi o estopim do processo social e que agora tem o desafio de plasmar-se no processo constituinte que, já de início, terá paridade de gênero.

Também no Peru aconteceram fatos disruptivos. No dia 9 de novembro, o Congresso destituiu o presidente Martín Vizcarra em uma manobra frouxa de papéis e desatou uma nova crise que consolidou o descrédito da população em relação à classe política. A novidade foi a enorme mobilização popular, protagonizada principalmente pela juventude, em um país caracterizado pela apatia. A revolta causou, rapidamente, a renúncia de seu sucessor, o empresário e latifundiário Manuel Merino, e deu lugar à nomeação do moderado Francisco Sagasti, que governará o país até a próxima eleição presidencial, em abril.

As sequelas do golpe parlamentar enfraqueceram o regime moldado pela Constituição de Fujimori, de 1993, e aumentaram as chances do descontentamento popular ser capitalizado por alguma força progressista, como a liderada por Verónika Mendoza, e que, como no Chile, massifique o pedido de uma nova Constituição.

A era pandêmica também criou novos desafios para o crescente e potente movimento feminista latino-americano, que precisou se reinventar para visibilizar o aumento da violência de gênero ano contexto da quarentena. O ano se encerrará com uma grande conquista em matéria de direitos: a legalização do aborto na Argentina. Após anos de lutas massivas, a “maré verde” tornou realidade uma de suas principais bandeiras, respaldando todas as mulheres e dissidências da região.

Os próximos meses estarão marcados pelo vaivéns da pandemia e do processo de vacinação. Ao mesmo tempo, vem aí uma série de eleições que podem mudar a atual de correlação de forças. O calendário começa em fevereiro, no Equador, onde o candidato correísta Andrés Arauz tem boas chances de ganhar, e continuará no Peru, em abril, e Chile, em novembro. Surge um 2021 com boas expectativas, com um refluxo da hegemonia neoliberal e a consolidação do impulsionamento de um bloco progressista que possa reconstruir a integração latino-americana.

*Publicado originalmente, em espanhol, no Nodal e Página12.

**Gerardo Szalkowicz é jornalista e editor do Nodal.

Edição: Nodal