Com um Grammy na estante, um documentário em cartaz na Netflix e ideias que forçam o Brasil a refletir sobre a sua identidade, Leandro Roque de Oliveira, o músico Emicida, foi a trilha sonora do País nesse ano sofrido.

O microfone do profeta

Daniel Victor, do Facebook do autor

O ano de 2020 serviu para mostrar que um músico não precisa de palco para ser relevante. Sem shows ou apresentações ao vivo, Emicida teve destaque não apenas graças a sua brilhante música, mas também pela força de suas ideias. A denominação de rapper, usual no início da carreira, ficou pequena para descrevê-lo como artista. Apesar de manter o discurso contundente que o tornou um dos expoentes do estilo, seu espectro musical se ampliou e o alcance de suas ideias explodiu: Emicida tornou-se um líder.

Apesar de o trabalho mais relevante de sua carreira, o álbum “AmarElo”, ter saído no fim de 2019, a repercussão que o tornou um dos “Brasileiros do Ano” veio ao longo de 2020. Alternando revolta e emoção, suas letras foram a trilha sonora perfeita para a pandemia e o movimento contra a violência racial: “Permita que eu fale / E não as minhas cicatrizes”, cantou, e ainda resgatou Belchior de forma profética: “Tenho sangrado demais / Tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri / Mas esse ano eu não morro”, triste mantra para um ano em que não vivemos – apenas sobrevivemos.

Emicida é hoje um nome tão amplo que ninguém estranhou quando ele venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock em Português. Seu talento ultrapassa a música e invade o empreendedorismo: sua produtora, Laboratório Fantasma, vende produtos que vão de roupas descoladas a bonecas feitas à mão. Arriscou-se na literatura infantil com o livro “E Foi Assim que Eu e a Escuridão Ficamos Amigos”, relato poético sobre a importância da coragem e determinação para superação dos medos. Nos últimos dias do ano lançou, em parceria com a Netflix, seu projeto mais ambicioso: o documentário “AmarElo – É Tudo pra Ontem”, com destaques da carreira e trechos de um show no Teatro Municipal, em São Paulo. Indagado sobre a escolha de um local tão tradicional para a gravação, Emicida respondeu: “Se a vida é gigante, por que nós vamos ser pequenos?”.

O diretor Fred Ouro Preto ficou impressionado com a velocidade de seu pensamento. “O cérebro de Emicida funciona de um jeito diferente”, afirma. “Ele estuda e se interessa por todo tipo de tema, de história mundial a revistas de mangá. Consegue trabalhar com coisas muito doces e um forte protesto ao mesmo tempo.” O escritor Jeferson Tenório, um dos nomes mais respeitados da nova geração de autores negros brasileiros, acredita que ele é uma das vozes mais relevantes do cenário cultural.

“É um intelectual orgânico capaz de comunicar e mobilizar multidões”, diz. “Num País que carrega o racismo em suas bases estruturais, sua escolha como um dos ‘Brasileiros do ano’ faz justiça a um artista de excelência musical e que escolheu a palavra para lutar contra a desigualdade e o racismo.”

Emicida
2020, por Emicida
“Quando a gente lançou ‘AmarElo’, no fim de 2019, não passava pela nossa cabeça que um detalhe microscópico estava prestes a criar um estrago dantesco na sociedade. Um vírus que infectou uma quantidade absurda de gente no mundo inteiro, espalhando medo e insegurança. Ficamos receosos em relação ao outro e ao futuro. Nós, da Laboratório Fantasma, mudamos os planos por conta da pandemia. Tínhamos um trabalho novo em mãos, que, inclusive, fala da importância do encontro, das coisas simples da vida. Mas a impossibilidade de viajar com ele fez com que a gente fizesse o exercício de ver todo o conteúdo dele como um prisma, cheio de possibilidades e leituras. Acho que 2020, pra gente, foi isso: cuidar e criar sabendo que a nossa possibilidade de corrigir o ontem, tá no agora. Evitar a repetição do ontem, que resultou nesse monte de labirinto que faz a gente se perder.”

Créditos: Istoé

Abraços e Canções, grupo. Bom dia!