Estímulo do governo  Bolsonaro a grileiros, garimpeiros, pecuaristas inescrupulosos,  sojicultores predatórios, somado ao desmonte do Ibama, Inpe, ICMBio afasta fundos de investimento de US$ 3,7 trilhões do país. Estados Unidos,  África e a Argentina agradecem.

Marcus Vinícius  de Faria Felipe

Tenho na família parentes que tocam 5 mil alqueires de lavoura. São 24 mil hectares divididos entre campos de soja (para sementes), trigo, milho, batata, alho, cenoura, beterraba. Optaram pela diversificação. Estes parentes arrepiam o cabelo da nuca quando lêem no Valor Econômico, Folha, O Globo notícias de que fundos de investidores que representam quase 4 trilhões de dólares estão ameaçando não investir no Brasil por conta do aumento das queimadas, desmatamento, grilagem de terras indígenas e outros absurdos que correm à solta desde que o ministro Ricardo Salles confessou que é preciso “passar a boiada no meio ambiente.

Os verdadeiros empresários do agronegócio defendem que o Brasil não precisa de um milímetro de terras na Amazônia para ampliar a produção agrícola. A própria ministra da Agricultura, Tereza Cristina disse isto recentemente, mas é voz isolada no governo federal.

Fatura alta pela eleição

A bancada da Bíblia, da Bala e do Boi ajudou a eleger o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Até aqui, nenhuma novidade. Mas este grupo cobrou uma fatura alta. No Incra, responsável pela titularização de terras e pela política de reforma agrária, foi colocado Nabham Garcia ex-presidente da UDR  (União Democrática Ruralista), entidade criada exatamente para combater a divisão de terras no Brasil. No Ministério do Meio Ambiente, foi colocado o advogado  Ricardo Salles, acusado de cometer crimes ambientais pelo Ministério Público de São Paulo, ao tempo em que foi secretário de Meio Ambiente daquele Estado.

Desmonte dos órgãos de fiscalização

Os dois indicados só trouxeram problemas para o meio-ambiente e a reestruturação agrária no Brasil:  mortes no campo e queimadas dispararam com aumento das ações criminosas de grileiros sobre terras indígenas, de agricultores familiares,  terras devolutas da União e áreas de conservação. Além de anistia a desmatadores, ocorreu o desmonte das estruturas de fiscalização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Em 2019, o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, denunciou aumento do desmatamento da Amazônia e logo a seguir foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro. Na segunda-feira, 13/07, foi feita a exoneração de Lubia Vinhas do setor do Inpe de Observação da Terra, após ela fazer a  divulgação do recorde de desmatamento na Amazônia: 1 mil km2 de área foram desmatados neste primeiro semestre de 2020.

Em sua coluna Xadrez Político, no Jornal GGN, o jornalista Luis Nassif, trata da importância do trabalho destes dois cientistas e do papel da dupla Inpe-Ibama na preservação das florestas, sobretudo a Amazônia:

A  política de governo, para o monitoramento da Amazonia, foi institucionalizada no governo Lula, depois dos recordes de desmatamento em 2005, com 27 mil km2 de terras queimadas.

Tinha duas pernas. De um lado, deu condições para o INPE melhorar seus sistemas. De outro, aparelhou o IBAMA para fiscalizar os dados do INPE, através de vôos de reconhecimento nos locais apontados como de grandes queimadas. Os erros eram inferiores a 5%. Até 2014, as queimadas caíram para 4.500 km2.

Do governo Temer para cá, acelerando-se no governo Bolsonaro, a curva de queimadas voltou a crescer a 10.000 km2 ao ano. Em breve, o país voltará aos números de 2005”.

Fundos de investimentos são contra desmatamento

No final de junho a Agência de notícias econômicas Bloomberg noticiou:

“Liderados pela Storebrand, da Noruega, 29 fundos do mundo inteiro, que representam 3,7 US$ trilhões em ativos, solicitaram videochamadas com autoridades no Brasil para discutir o assunto, de acordo com carta aberta. Os gestores de ativos disseram que o fracasso do governo brasileiro em proteger as florestas pode obrigá-los a reconsiderar seus investimentos”.

Estes fundos de pensão e de investimento da  Europa, Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio são sensíveis às questões ambientais, parte porque muitos são compostos por fundos com recursos de aposentadorias, que não colocam o dinheiro dos aposentados em países que desmatam, queimam e depredam florestas. Outros fundos são formados por recursos públicos e na Europa cresce a consciência ambiental. O Partido Verde avançou na eleição de representantes na Alemanha, França e no Europarlamento. Estes parlamentares já pressionam contra o acordo comercial entre a Europa e o Mercosul, como forma de retaliar o governo Bolsonaro.

No seu comentário hoje para a Rádio CBN, a jornalista Míriam Leitão chamou atenção para os prejuízos do desmatamento. Segundo ela, a demissão de Lubia Vinhas, do Inpe colocou o Brasil na contramão do mundo.

“ Ela era responsável pelo departamento que monitora a devastação florestal. A exoneração ocorreu três dias depois de o Inpe divulgar que a Amazônia sofreu o maior desmatamento para um mês de junho em cinco anos. O governo não tem nenhuma explicação para fazer isso, frisa.

Miriam ressalta que a desastrosa gestão ambiental do governo Bolsonaro destrói a imagem do Brasil no exterior e faz investidores reagirem – pressionados pela opinião pública de seus países -, e o aviso é claro: não farão investimentos no Brasil.

“Sem o investimento dos fundos, a tendência é o encarecimento do dinheiro, uma vez que estes recursos tem juros subsidiados”, explica.

 Conclusão: Bolsonaro troca capital barato, imprescindível ao desenvolvimento do Brasil, pelo apoio a garimpeiros, pecuaristas inescrupulosos, grileiros, madeireiros ilegais, sojicultores irresponsáveis e toda escumalha que lucra com o desflorestamento, queimadas e depredação ambiental.

África pode substituir Brasil como celeiro do mundo

Relatório feito pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) denominado “Os desafios do Brasil para os próximos dez anos”, aponta que a África deve responder pelo aumento da demanda mundial para a produção de alimentos. Vários países africanos introduziram os plantio de  soja e milho e experimentam aumento nos rebanhos bovino, caprino, suíno e de aves, fruto de grandes investimentos chineses e de fundos europeus.

É uma ilusão do agronegócio achar que “o mundo não tem alternativa a não ser comprar soja e boi do Brasil”.

Besteira.

O punhal afiado do Tio Sam

O punhal do Tio Sam nunca enferruja, está sempre enfiado nas costas de alguém.

Enquanto o Brasil briga com o mundo se esquece de que os Estados Unidos são o grande adversário no agronegócio. A China já trocou várias vezes importações de commodities agrícolas brasileiras por norte-americanas. A Argentina também é grande produtora de carne e grãos e, a Casa Rosa, ao contrário do Palácio do Planalto, não vive às turras com o governo chinês ou com a opinião pública mundial.

O melhor negócio, para o agronegócio, é expulsar Ricardo Salles do ministério do Meio Ambiente e pôr fim ao desmonte de Ibama, Inpe, ICMbio.

O século XXI é a era da transparência. Num mundo interconectado a mentira tem pernas curtas. O mundo dos negócios sabe o que Bolsonaro at caterva fizeram com a Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica no verão passado.

 

*Marcus Vinícius de Faria Felipe é jornalista com formação em Economia e História, foi secretário de Estado e edita o site Onze de Maio