Presidente volta a falar mal de nordestinos, critica dados do Inpe sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, anuncia que vai retomar a censura no país com ameaça de fechar a Ancine, prejudica agricultores do Sul e volta a defender nomeação do filho para embaixada do Brasil em Washington.

O Febeapa (Festival de Besteiras que Assolam o País) foi uma série de livros do intelectual Sérgio Porto, que reunia sob a forma de crônica, fatos ocorridos durante o regime militar. Com muito humor, e usando o pseudônimo de Stanisaw Ponte Preta ele revelava com humor as besteiras feitas pelos governos da ditadura, nas crônicas que eram publicadas jornal Última Hora.

Nesta sexta-feira, 19, o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) fez por merecer um livro inteiro do Febeapá de Stanislaw Ponte Preta. Bolsonaro disparou sua metralhadora giratória contra tudo e contra todos em várias entrevistas coletivas que participou. Bolsonaro disse que não há fome no Brasil, criticou a multa de 40% do FGTS (Fundo de Garantia do Trabalhador), criticou os governadores do Nordeste. Mais: defendeu a volta da censura, disse que pode fechar a Ancine e voltou a defender a indicação do filho, Eduardo Bolsonaro, para a embaixada do Brasil em Washington.

“O trabalho de quem é embaixador, um dos mais importantes, é ser cartão de visitas. E eu falei com a imprensa esse dia: imagina se o Macri tivesse um filho embaixador aqui. Uma ligação para mim. Eu atenderia agora ou pediria ao ajudante de ordem para marcar uma data futura? Atenderia agora”, declarou.

Irã

Não bastassem todas as declarações despropositadas, o presidente também no dia de hoje prejudicou agricultores brasileiros no Paraná, impedindo o embarque de R$ 100 milhões num navio de bandeira iraniana. Motivo: não autorizou a Petrobrás a abastecer o navio, alegando que é aliado dos Estados Unidos, que impõe sanções econômicas ao governo do Irã. O detalhe é que o Irã é o maior comprador de milho do Brasil, e que por questões humanitárias, as sanções norte-americanas não se aplicam à cargas de alimentos.

Desmatamento
As declarações em série de Bolsonaro tiveram início durante entrevista com jornalistas estrangeiros. O presidente reagiu quando foi questionado se o aumento do desmatamento na Amazônia pode prejudicar o acordo comercial entre o Mercosul e a União Européia. Correspondentes internacionais abordaram o presidente com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que mostra que o desmatamento na Amazônia aumentou, em junho, quase 60% em relação ao mesmo mês em 2018. Segundo dados do a floresta perdeu, no mês passado, 762,3 km² de mata nativa, o equivalente a duas vezes a área de Belo Horizonte .

Bolsonaro reagiu. Disse que “nosso sentimento é que isso não coincide com a verdade, e parece até que (o presidente do Inpe] está a serviço de alguma ONG”.

O órgão, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações , é presidido por Ricardo Magnus Osório Galvão , que, procurado pela AFP, refutou as acusações, destacando a “transparência de seus dados” e a “consistência de sua metodologia”.

Fome
Na coletiva o presidente também disse que é “uma grande mentira” dizer que há fome no Brasil.

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não”, disse em café da manhã com correspondentes internacionais. “Você não vê gente mesmo pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo”, disse Bolsonaro.

À tarde, porém, o presidente recuou, e disse que “alguns passam fome”. O Ministério da Cidadania fez, em 2018, o Mapeamento da Insegurança Alimentar e Nutricional (Mapa InSAN). Os dados mostram que, no ano de coleta dos dados (2016), 427.551 crianças com menos de cinco anos que são atendidas pelo Bolsa Família tinham algum grau de desnutrição, que é medido de acordo com o déficit de peso por idade ou de altura por idade.

FGTS
Também nesta sexta, Jair Bolsonaro criticou o pagamento da multa de 40% que incide sobre o saldo da rescisão do trabalhador. Disse que a multa prejudica as empresas, que em razão desta multa tem dificuldades para contratar no país.

“O pessoal não emprega mais por causa da multa (do FGTS). É quase impossível ser patrão no Brasil”, disse. “Um dia o país vai ter de decidir se quer menos direitos e mais empregos ou todos os direitos e desemprego”, disse o presidente.

 

Nada mais falso. A multa de 40% foi imposta pela Constituição de 1988, como uma compensação ao trabalhador a iniciativa privada que não tem estabilidade no emprego, como aquela que foi garantida pela Constituição aos servidores públicos.

Censura
No mesmo tom de ameaça Jair Bolsonaro disse que quer impor filtros (censura) à Ancine, a Agência Nacional de Cinema. Também ameaçou transferir a sede da Agência Nacional do Cinema (Ancine) do Rio de Janeiro para Brasília.

Segundo Bolsonaro, o governo fará um filtro (censura) sobre as produções audiovisuais. “Vai ter um filtro, sim, já que é um órgão federal. Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine, privatizaremos ou extinguiremos. Não pode é dinheiro público ser usado para filme pornográfico,” disse, numa referência à produção “Bruna Surfistinha”, que foi financiada pela Ancine.

Cacá Diegues, um dos mais premiados cineastas brasileiros, disse que a Ancine e o cinema brasileiro não precisam de censura. Lembrou que a indústria do cinema no Brasil emprega mais de 300 mil pessoas e responde por 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto), e que o papel da Ancine não é de alinhamento a este ou aquele governo, enfatizando que a legislação já estabelece critérios para exibição de filmes, como as faixas etárias com a indicação se a produção é para menores de 14 anos ou para maiores de 18 anos.

Nordeste
A língua ferina do presidente também atingiu o povo nordestino. ofendeu governadores do Nordeste sem perceber que estava sendo gravado. “Daqueles governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão”, disse para seu ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, antes de uma entrevista coletiva. “Não tem que ter nada com esse cara”, completou.

A frase de Bolsonaro, além de revelar preconceito, mostra uma orientação para prejudicar o estado do Maranhão, governado por Flávio Dino (PCdoB).

“Não tem que ter nada para esse cara é uma orientação administrativa gravemente ilegal”, disse Dino, que é jurista, em suas redes sociais.

“Independentemente de suas opiniões pessoais, o presidente da República não pode determinar perseguição contra um ente da federação. Seja o Maranhão ou a Paraíba ou qualquer outro Estado”, completou o governador Flávio Dino.

Em carta conjunta, os governadores do Nordeste afirmam “espanto” e “profunda indignação” com a declaração do presidente da República. “Aguardamos esclarecimentos por parte da Presidência da República e reiteramos nossa defesa da Federação e da democracia.”

Parlamentares repercutiram a fala do presidente. “Bolsonaro expõe todo o seu preconceito contra o povo nordestino e ainda mostrou que não tem problemas de prejudicar a população de um estado – no caso o Maranhão do governador – por conta das suas preferências ideológicas”, disse o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP).

Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta deve estar dando gargalhadas no túmulo. Nunca antes na história deste país, uma autoridade falou tantas impropriedades num dia só.