Escândalo atinge um dos alicerces do bolsonarismo e se torna cada vez mais difícil para muitos sustentarem uma pretensa neutralidade diante do ocaso do governo

Por Glauco Faria

A CPI da Covid, na noite desta sexta-feira (25), chegou em seu momento mais emblemático com a declaração do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) de que não só avisou Jair Bolsonaro sobre as suspeitas em torno da compra da vacina Covaxin, mas que o presidente teria citado o líder de seu governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR) como possível envolvido no esquema.

“Se o presidente foi comunicado, ele prevaricou. E a prevaricação de um presidente é uma coisa muito grave”, disse durante a sessão o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM). Sem contar que, sendo verídica a versão de Miranda, Bolsonaro pouco estranhou o fato e até tinha um nome na ponta da língua para atribuir a responsabilidade.

Importante ressaltar que indícios de crimes de responsabilidade há aos montes, em especial em relação ao que foi feito na pandemia, o que justificaria o andamento de um processo de impeachment. Mas o escândalo atinge um dos temas mais caros ao bolsonarismo e à antipolítica que o estruturou. A cantilena da corrupção não só ajudou o atual presidente a chegar ao poder, em que pese todas as denúncias já apresentadas contra ele e sua família, mas também tem servido de base para os parlamentares aliados do Planalto na CPI buscarem tirar o foco da responsabilização do governo federal pela tragédia da crise sanitária vivida pelo país.

Senadores da base insistem, por exemplo, na tese de que o Planalto dirigiu recursos a estados e municípios mas que parte do montante teria sido desviada. Muitas vezes acusações são feitas de forma genérica, em outras ocasiões de forma mais direcionada, mas sempre em bases frágeis como investigações que ainda estão em curso e, por isso mesmo, nem precisariam ser objeto de uma CPI já que existe uma apuração.

Agora, o jogo virou. Ontem era possível ver o senador Marcos Rogério (DEM-RO), um dos que sempre levanta suspeitas em relação a governadores, praticamente se tornar um garantista, afirmando que se criou um “clima de denuncismo sem precedente no país”. Outro notório defensor do governo, Eduardo Girão (PROS-CE), já perguntou a mais de um depoente se “corrupção mata”. Resta saber se a retórica será a mesma em relação à suspeita de um esquema ligado diretamente à compra de vacinas, em meio a uma pandemia.

A Covaxin e a redução da indiferença

Mesmo antes desta “nova fase” da CPI, como definiu na noite de ontem o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a pesquisa do Ipec, instituto criado pelos ex-executivos do Ibope Inteligência após o encerramento de suas atividades, já mostrava uma modificação importante no humor da população.

A faixa daqueles que consideram o governo regular é de 26% apenas. Ou seja, dois terços do eleitorado tem uma avaliação que tende a ser assertiva em relação ao governo, com predomínio dos que o rejeitam (50% do total), o que pode significar uma redução da indiferença das pessoas em relação ao cenário político atual.

Este dado é importante, ainda mais em um contexto em que a ideologia neoliberal se inseriu de tal forma em meio à população que muitos acreditam que sua vida depende pouco ou quase nada do poder público, a despeito da necessidade do Estado evidenciada pela pandemia. Neste aspecto, talvez os trabalhos da CPI tenham sido fundamentais para trazer a muitos que estavam (e ainda estão) fechados em suas bolhas comunicacionais fatos que mostram a correlação estreita entre o que fez (e o que poderia fazer) o governo diante da crise da covid-19.

A mudança atestada pela pesquisa e o escândalo da Covaxin que bate à porte do gabinete presidencial são dois elementos que engrossam a mobilização pelo impeachment. Um “superpedido” pelo impedimento de Jair Bolsonaro vai ser apresentado na próxima na Câmara dos Deputados na próxima quarta-feira (30) e, além de movimentos e entidades do campo progressista, também agregam dissidentes do governo e ex-aliados. Embora seja um avanço, ainda é pouco.

Veículos da mídia tradicional condenam de forma recorrente as agressões de Bolsonaro a jornalistas e outras das suas atitudes, mas agem de forma diferente com seu ministro da Economia, Paulo Guedes, que recebe apoio pleno em praticamente todas as suas iniciativas. O mesmo acontece com algumas entidades e outros segmentos da sociedade civil que, apoiadoras das “reformas”, temem por um processo legislativo que as paralise antes do ano eleitoral, quando a Câmara e o Senado tem seu período de trabalhos encurtado.

Mas esta dubiedade encontra uma encruzilhada no caso da Covaxin. Boa parte destes veículos e setores sustentou também durante os últimos anos o dito discurso anticorrupção e dificilmente conseguirão fazer vista grossa impunemente. Devem ser, e serão, cobrados caso não se posicionem.

As investigações acerca da Covaxin estão apenas começando, mas não só os indícios são notórios como também se exige uma explicação do presidente em relação à falta de atitude em relação à denúncia recebida.

O que se vislumbra é um dos principais alicerces do bolsonarismo abalado, e a proximidade do Planalto se torna cada vez mais tóxica. Resta saber quem vai querer continuar com uma aventura que se torna cada vez mais onerosa. O muro se tornou um lugar incômodo demais.

*Glauco Faria é jornalista e editor da RBA (Rede Brasil Atual)