Presidente do Equador,  conhecido como “El Loco” foi deposto pelo Parlamento daquele país por graves denúncias de corrupção dos filhos e sob alegação de “incapacidade mental”

O Brasil é o Equador amanhã?
Marcus Vinícius
O experiente Fernando Brito, jornalista que foi assessor de comunicação do saudoso Leonel Brizola, trouxe à lembrança no seu impagável blog “Tijolaço“, a história do presidente equatoriano Abdalá Bucaram, eleito em 1996 e que governou apenas seis meses, sendo retirado do poder pelos deputados após um governo caótico, que misturou família, presidência e negócios num estilo de gestão que irritou o povo, a classe politica e empresarial do país. Alguma semelhança com o Brasil?
Parentes e personalismo
O governo de Bucaram  se caracterizou por um alto nível de corrupção e por grande excentricidade do presidente. Bucaram chegou a dar shows de rock com a banda Los Iracundos, planejou contratar Diego Maradona para seu time de futebol e deu várias festas na residência presidencial.
De acordo com o site wikipedia, “durante o mandato de El Loco, um de seus filhos, Jacobo (mais conhecido como “Jacobito”), organizou uma festa para comemorar seu “primeiro milhão de dólares”, ganhos com apenas 21 anos em operações ilícitas na alfândega de Guayaquil, maior porto marítimo do Equador”.
O estilo “antipolítica” de Bucaram o indispôs com empresários, sociedade civil e com a classe politica. O golpe fatal veio quando as forças armadas retiraram a sustentação ao seu governo. O ministro da Defesa do Equador, gereral Victor Bayas, renunciou  ao cargo devido às crescentes ondas de protesto popular contra o governante. No dia seguinte o Parlamento do seu equatoriano, fez uma interpretação heterodoxa da Constituição e tirou Bucaram do poder por “incapacidade mental”.
A Folha de S. Paulo registrou a queda de El Loco, em matéria no dia 18 de fevereiro de 1997, relatando que  “o então presidente foi destituído, no último dia 6, por maioria simples dos parlamentares de seu país que, por meio de uma interpretação controvertida da Constituição, alegaram “incapacidade mental” do então presidente, que usa o apelido de “El Loco’. Bucaram disse que, ao deixar o palácio presidencial após a decisão, corria o risco de ser morto pelos oposicionistas”.
A Folha também  comentou a indignação do Chanceler interino, Diego Rivadeneira,  que disse que “serão necessários US$ 500 mil para levar de volta ao país os 66 cônsules nomeados pelo ex-presidente -inclusive vários amigos e parentes”.
Receita explosiva
A história de El Loco é um olhar interessante sobre as consequências de um dirigente que insiste em governar acima dos demais poderes. A mistura de confronto com o Parlamento e envolvimento da família com o governo sempre termina mal, no Brasil ou em qualquer país da América Latina.
No Brasil as trapalhadas de Lutero Vargas, filho do presidente Getúlio Vargas, e de Benjamim Vargas –  irmão do presidente – , levaram ao atentado frustrado contra o deputado federal Carlos Lacerda que acabaria por causar o suicídio do presidente no dia 24 de agosto de 1954.
Sete anos depois, no mesmo mês de agosto, só que no dia 25, o presidente Jânio Quadros renunciou, numa burlesca tentativa de auto-golpe, onde acreditava que voltaria ao poder pelos braços do povo e com super-poderes, podendo governar acima do Congresso Nacional e das demais instituições da República.
As bravatas do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) no twitter com o presidente da Câmara Federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), o desprezo do presidente pela liturgia do cargo, a interferência indevida dos seus filhos em assuntos do governo,em questões como as relações internacionais, política e economia e o envolvimento desses com elementos ligados às milícias do Rio de Janeiro, estão erodindo a confiança do povo brasileiro no presidente.
Eleito por 57 milhões de votos, Bolsonaro subiu ao poder em meio a uma expectativa de representar uma politica que viesse a resgatar os 12 milhões de brasileiros do desemprego. Por enquanto as respostas foram a extinção do Ministério do Trabalho, a redução do valor do salário mínimo e as declarações presidenciais em Washington chamando de vagabundos os brasileiros que migraram para os EUA em busca de trabalho.
Jogo arriscado
Há quem avalie que Jair Bolsonaro faça um jogo de alto risco. Sua onipresença nas redes sociais, principalmente twitter e whatssap, fazem parte de uma estratégia para desgastar o Congresso Nacional e forçar o seu fechamento como apoio da opinião pública e pela força dos militares que compõe 80% de seu governo.
A ordem presidencial para que os quartéis comemorem o golpe militar ocorrido no dia 31 de 1964 seria um indicativo disto? Se for é preciso – como dizia o craque Garrincha –  “combinar com os russos”, porque as últimas pesquisas de opinião mostram que a popularidade do presidente está erodindo.
É provável que as Forças Armadas não se mentam numa aventura deste tipo. Em 1964, a conspiração que depôs o presidente João Goulart (PTB) foi preparada por dois longos anos.  O golpe angariou forte apoio popular à custa de muito dinheiro das classes empresarias (Fiesp à frente), do governo norte-americano, com apoio logístico e estratégico da CIA (que aliás foi visitada pelo presidente Bolsonaro e pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, na visita de ambos a Washington).
A Fiesp já namora o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), que nesta semana foi recebido num almoço com a presença de mais de 700 empresários. Se o exército tiver que se inclinar por alguém, por questão de hierarquia, Mourão é general e Bolsonaro, capitão.
El Loco é página virada no Equador. Jânio Quadros ficou no ostracismo no Brasil. Seja qual for o caminho que o presidente Bolsonaro for tomar, é bom que esteja atento às lições da história: Todos que aqueles eleitos sob grande expectativa popular e que não corresponderam a estes anseios saíram queimados do palácio presidencial.