Fernando Brito analisa a dura declaração dos militares contra a CPI e observa que para a sociedade o corporativismo não é a melhor resposta ao envolvimento de oficiais denunciados em casos de corrupção.

Por Fernando Brito no Tijolaco.net 

Desejem ou não o Ministro da Defesa e os comandantes das três Armas contra a CPI e as declarações do seu presidente, Omar Aziz, dizendo que era absurdo se ter exposto o Exército enfiando uma tropa de militares dentro do Ministério da Saúde e, especialmente, no campo fértil da corrupção do setor de compras, colocam as instituições militares em defesa dos oficiais que possam, eventualmente, estar metidos em roubalheiras ou se comportando como cicerones de picaretas da pior qualidade, levando falsos vendedores de vacinas para dentro dos gabinetes.

Pois é assim que a opinião pública vai receber esta ameaça: militar pode roubar com direito à impunidade, porque atacar militar corrupto (ou será que todos são santos?) seria atacar as Forças Armadas “generalizando esquemas de corrupção”, como diz a nota da Defesa e das Forças Armadas.

Aziz não generalizou nada – no máximo, “coronelizou”, tamanha é a quantidade de coronéis envolvidos em suspeitas das mais variadas, inclusive apadrinhando picaretas que tentavam emplcar vacinas fajutas e contratos malandros para sua aquisição.

Ministro da Defesa e comandantes das Forças poderiam ter silenciado prudentemente, seguindo a velha lei corporativa do “quem faz, que segure a onda”. Poderiam ter dito que militares, na reserva ou nos casos em que ocupam cargos civis respondem à lei como qualquer cidadão.

Poderiam, ao longo da gestão Pazuello, ter forçado a passagem do general para a reserva, para que não fosse um general da ativa que comandasse outros militares no exercício de funções civis.

Ninguém foi mexer com os militares, ninguém foi bulir com os quartéis, ninguém foi politizar comandos.

Aliás, não há quem faça política com as Forças Armadas senão Jair Messias Bolsonaro, que a todo momento as tenta atrelar às suas políticas, inclusive às de ataques a outros poderes.

É fato que a capacidade cognitiva da alta oficialidade brasileira, embora decadente há muitas décadas, deve perceber que não há a menor condição de possam se impor pela força às instituições civis.

Mas não parece ser suficiente para evitar o caminho do aventureirismo bolsonarista e a trágica decisão de deixar impune a transgressão disciplinar de Eduardo Pazuello ao subir ao palanque político de Jair Bolsonaro mostrou-se agora como um ponto de virada mais importante que o malsinado tweet do general Villas-Boas pressionando o Supremo Tribunal Federal.

Os militares estão se amarrando com um nó cego a Bolsonaro e não poderão reclamar dos resultados.

 

Leia também:

Merval Pereira, do Globo, diz que há corrupção militar no Ministério da Saúde 

 

Azis diz que não aceita intimidação