Jornalista conta como uma repórter inescrupulosa, um juiz midiático e uma rede de TV sem ética destruíram a reputação de médicos que salvavam vidas pelo SUS

Por Luis Nassif, do Jornal GGN

Na mesa do café, em Guaranésia, a senhora conta sua saga, de doadora de um rim que salvou sua irmã. O procedimento foi na Santa Casa de Poços de Caldas.

Lá, nos anos 90 foi montado um grupo de transplante renal, tendo como figura central o dr. Álvaro. Eu já estava há tempos fora da cidade. Mas a legenda do dr. Álvaro corria a região, seu desprendimento, sua dedicação aos pacientes, sua falta de ambição financeira, pois todos os procedimentos eram feitos pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

A senhora conta sua saga. Foi operada, o rim foi retirado para ser transplantado na irmã. Quando abriram a irmã, contudo, perceberam que o seu rim estava muito avariado, impedindo qualquer procedimento normal de transplante.

Álvaro não vacilou. Pegou seu carro, foi até Campina e, da Unicamp, trouxe uma equipe de médicos para ajudar a salvar a vida. Chegaram rapidamente, estudaram o caso, descobriram uma solução de dar pontos com tripas de carneiro.

Hoje em dia, ambas as irmãs vivem normalmente.

Todo o procedimento foi feito pelo SUS. Alvaro não foi reembolsado nem pela gasolina e pelo carro com que foi a Campinas pedir reforço.
Tempos depois, estoura o escândalo. Um menino caiu de um muro. O pai o levou ao Hospital Pedro Sanches. Lá, constatou-se morte cerebral. O pai aceitou doar seus órgãos. O corpo foi encaminhado para a Santa Casa. Dias depois, o pai recebeu uma conta salgada do Pedro Sanches, inclusive os gastos com táxi para levar o filho à Santa Casa.

Aí, os subterrâneos da alma escondem enigmas não decifrados. Não se sabe se remorso de pai, por alguma situação mal resolvida com o filho, se uma revanche da vida, se a possibilidade de sair do anonimato, sabe-se lá o que. Mas, valendo-se dos instrumentos de uma Internet infante, passa a disseminar a teoria de que o filho fora assassinado, o diagnóstico de morte cerebral apenas um estratagema para extrair seus órgãos.


Em pouco tempo as TVs da região, o G1 e outros veículos de alcance nacional divulgavam a narrativa escabrosa de que a Santa Casa tinha sido tomada por uma quadrilha especializada em assassinar pessoas para roubar seus órgãos.
O Fakenews bateu em dois personagens inescrupulosos.

O primeiro, uma repórter do Fantástico, que conseguira boa repercussão em uma reportagem denunciando outro médico excepcional – dr. Pasquini, de Curitiba, responsável por transplantes de medula pelo SUS. A reportagem denunciava Pasquini por “cobrar por fora”.

Era uma falsa denúncia.

Todos os procedimentos eram pelo SUS. Mas havia a necessidade de consultar bancos de dados internacionais de medulas, e o SUS não cobria. Assim, a única exigência era a de que a família do candidato ao transplante pagasse pela pesquisa.

Escondeu-se essa informação e a reportagem foi buscar confirmação das denúncias com o mais inescrupuloso dos políticos que já passaram pelo poder, o então Ministro da Saude José Serra. Foi ouvida uma fonte indicada por Serra, que corroborou a denúncia para poder se colocar como defensor da honestidade.

Esse fato mereceu um capítulo do meu livro “O jornalismo dos anos 90”. Rebati em minha coluna na Folha, mas a imprensa como um todo se calou e permitiu o estupro da notícia.
Com o sucesso – e a impunidade – do primeiro furo, mirou-se o segundo, a quadrilha que mataria pessoas para extrair seus órgãos, em plena Santa Casa de uma cidade média. E, mais uma vez, a reportagem foi corroborar a denúncia com o Ministério da Saude de Serra que matou dois coelhos com uma só cajadada: mais uma vez colocou-se como parceiro da mídia, da moral e dos bons costumes e, de quebra, fuzilou o deputado Carlos Mosconi, um seguidor de Aécio Neves nas disputas internas do PSDB.

Anos depois, o tema encontrou pela frente um precursor do juiz Sérgio Moro, um juiz alucinado, que passou a publicar os resultados preliminares do inquérito nos jornais da cidade, repercutindo as denúncias nas TVs regionais.
As únicas irregularidades encontradas eram meramente formais, incorreções no preenchimento de documentos, nada que configurasse crime.

De nada adiantou.

O juiz mandou para a cadeia Municipal três ou quatro médicos locais. Desestruturou suas famílias e tratou-os com indícios de sadismo, repetindo a saga do “mensalão”.

Toda noite ia à cadeia para conferir se os presos não estariam recebendo tratamento privilegiado – um travesseiro, um cobertor a mais, essas coisas. Chegou a denunciar o delegado por permitir que os presos da cadeia fizessem trabalhos manuais.
Em Belo Horizonte, o Tribunal de Justiça piscou. Os desmandos do juiz chegaram até lá. Mas o “mensalão” já inaugurara definitivamente a era dos abusos da Justiça.

Álvaro foi preso, saiu da cidade, nem sei por onde anda. Só sei que não apenas sacrificaram uma pessoa justa, um médico do nível dos maiores médicos humanitários que a cidade conheceu. Sacrificaram as centenas de pessoas que não tiveram mais a oportunidade de viver proporcionada por um grupo de médicos que ousou, lá nas fraldas da Mantiqueira, montar uma equipe para salvar pacientes de problemas renais.

Nada aconteceu com o promotor, o juiz, a repórter, o Fantástico, com José Serra e seus assessores que corroboraram o assassinato de reputação de um homem do bem.