Brasília insiste numa cruzada ideológica não deu bom resultados ao longo da história brasileira. Goiás deve rejeitar esta pauta de intolerância e tem uma tradição de governos com ampla participação política e social.
Marcus Vinícius
Uma grande mentira está sendo contada em Brasília e ela contamina as relações políticas e sociais nos Estados, o mito dos “puros” contra os “impuros”; da luta dos incorruptíveis contra os corruptos, ou dos “homens de Deus e do bem” contra os “comunistas”. Tudo isto é uma grande bobagem, que a cada dia que passa mostra-se como é: uma propaganda enganosa, e sobretudo fascistóide.
Governar não é a luta do bem contra o mal.  Governos são pactos de convivência para promover consensos, onde maiorias e minorias se vejam representadas. Qualquer coisa contrária a isto, que venha a tentar impor falsas hegemonias, tem que ser chamada pelo seu verdadeiro nome: ditadura.
Em Brasília, em nome de uma guerra santa contra o “comunismo(?)”  o presidente Jair Bolsonaro  (PSL) desmancha estruturas tradicionais do governo como o MEC (Ministério da Educação), o Itamaraty, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Nacional), a Previdência e a Saúde, com o fim dos Mais Médicos e da produção de remédios para pacientes crônicos. O desmonte de estruturas de Estado está destruindo a capacidade do país retomar o desenvolvimento. A economia está parada, o desemprego avança e não há sinais de bom-senso neste governo, que vê ideologia em tudo e não se pauta pelo sentido prático ou pelo bom senso.
Por aqui, a caça ao marconismo e outros “ismos”, paralisa o governo, que está preso no samba de uma nota só, que nada tem haver com a belíssima composição do maestro Tom Jobim. O resultado é que tem sido afastados do governo do Estado pessoas com rica experiência administrativa, que muito ainda podem contribuir para o desenvolvimento de Goiás.
Pluralidade
Goiás é a prova viva de que os consensos são muitíssimo mais importantes do que os dissensos. Nosso Estado é a soma de várias raças, culturas, credos e povos. Esta terra tem vocação cosmopolita,desde que para cá vieram  mineiros, paulistas, baianos, gaúchos, que se juntaram aos índios, negros e estrangeiros para transformar o cerrado.
Nos governos este espírito se manifestou na busca dos melhores quadros para a governança, onde a experiência importava mais do que a origem.
Comunistas, udenistas e trabalhistas com Pedro e Mauro
A revolução de 1930, que pôs fim à República Velha e ao coronelismo político, fez emergir novos líderes em todo país – e em Goiás não foi diferente. O interventor Pedro Ludovico Teixeira pôs em prática um plano de modernização do Estado, que teve síntese com a construção de Goiânia, tarefa para a qual teve auxílio de brasileiros e brasileiras dos mais diversos rincões do país. E no seu governo, esta diversidade se manifestou com elementos das mais variadas forças políticas, como Jaci Campos Neto, que foi secretário de Saúde e tinha relações com o “partidão” (PCB).
Perseguidos pela ditadura Vargas (1937-1945) ocorrem a Goiás onde muito contribuíram para o desenvolvimento do Estado,  sendo muitos deles engenheiros, arquitetos e profissionais liberais, assim como elementos da Coluna Prestes ou do putsch comunista de 1935, como sargento Gregório Bezerra, que viveu por aqui em liberdade e sem restrições.
Herdeiro político de Pedro Ludovico, o coronel do Exército Mauro Borges Teixeira, fez um governo de união das mais diversas forças políticas. Mauro incorporou à sua gestão elementos de proa da UDN (União Democrática Nacional), partido que fazia oposição ao PSD (Partido Social Democrático) de Pedro Ludovico, entre eles,  Ary Demóstenes, político de Itauçú que foi  Secretário de Governo. e Valteno Cunha, secretário de Interior e Justiça. O jovem deputado Eurico Barbosa, a época rompeu os laços com o udenismo e abraçou o pesedismo de Mauro. Ao PTB  do presidente João Goulart,  foi destinada a Secretaria de Trabalho, com Mauro Erides Guimarães e o Departamento Sindical com Maurina Sallas Dib. Tarzan de Castro, fundador das Ligas Camponesas em Goiás, foi Assessor Especial de Juventude e Educação.
Com o Plano MB, produzido com apoio da Fundação Getúlio Vargas, o governador Mauro Borges fez um governo modernizador, consolidando o ideário ludoviquista de tirar Goiás do seu atraso secular.
Arejamento
Mesmo durante os governos da ditadura militar, os inquilinos da Casa Verde mantiveram  um certo grau de respeito ao arejamento. No governo de Ary Ribeiro Valadão, o jornalista Haroldo de Brito foi secretário de Comunicação. Ele que tinha ligações com o pensamento socialista e  cujo irmão, Helbio de Brito, era secretário-geral  do PCB. Valteno Cunha, que havia servido ao governo de Mauro Borges, também auxiliou Ary Valadão, que abriu espaço no seu governo para as mais variadas manifestações culturais, incentivando escritores como Carmo Bernardes e Bernardo Elis, e artistas plásticos de grandeza como D.J. Oliveira e outros.
Composição
Os governos de Iris Rezende (1983-1986 e 1991-1994) e Marconi Perillo (1999-2002/2003-2006) também foram exemplo de composições políticas que deram certo. Nas eleições de 1982 o PMDB de Iris rachou a Arena ao meio e trouxe para o seu palanque (e depois para o governo), o ex-governador Irapuam Costa Júnior, os deputados Genésio de Barros e Osmar Cabral (que viria a ser depois secretário da Fazenda) e os ex-prefeitos de Morrinhos Naphitali Alves e Helenês Cândido e o vereador jataiense Maguito Vilela.
Iris também teve apoios ao centro e a esquerda com os chamados “autênticos do MDB”, representados pelo senador Henrique Santillo, os deputados federais Adhemar Santillo e Fernando Cunha e Aldo Arantes, que foi suplente naquelas eleições, mas assumiria como deputado federal honrando acordo de Iris com o PC do B.
Quando tomou posse em 1999, o jovem governador Marconi Perillo (PSDB) tinha tido o apoio de sete  ex-governadores, entre eles, Henrique Santillo, Ary Valadão, Irapuam Costa Júnior, Leonino Caiado, Otávio Lage, Mauro Borges, José Feliciano e do prefeito de Goiânia, Nion Albernaz. Seu governo teve representantes de todas estas forças, e ainda de setores de esquerda como o PC do B, PDT e PSB que apoiaram sua eleição no segundo turno.
Calígula
Quanto mais fechado um governo, mais dificuldades tem para governar. O imperador romano Calígula ilustra bem os períodos do radicalismo.  Seu governo foi breve, de 16 de março de do ano 37, depois de Cristo até ao seu assassinato, em 24 de janeiro de 41 (DC). Caio Júlio César Augusto Germânico, ou Calígula atentou contra todas as instituições do império. Colocou as esposas dos senadores num bordel como prostitutas, ridicularizou o exército, perseguiu aliados e opositores, manteve relações incestuosas com as irmãs, e nomeou o seu cavalo, Incitatus, senador de Roma (Em Brasília o presidente quer nomear o filho embaixador nos Estados Unidos). Como não havia impeachment naquela época,  Calígula foi assassinado a facadas.
Calígula é um exemplo extremo do desrespeito de um governante  às instituições. A outros casos,  como os ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Collor de Melo que se elegeram no marketing de combate à corrupção e terminaram seus governos envoltos em denúncias e grave crise política.
Os caminhos estão dados, o  da moderação ou o da radicalização. Cada um deles tem um  rumo e um desfecho. Cabe ao governante optar pelo seu destino.