Após passar mais de dois anos estimulando as queimadas na Amazônia, demitindo cientistas por divulgar dados de desmatamento e mantendo à frente do Ministério do Meio Ambiente um defensor de madeira extraída ilegalmente, Jair Bolsonaro tentou, na quinta-feira (22), convencer o mundo de que se preocupa com a preservação dos biomas nacionais.

Ao falar na Cúpula do Clima chamada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, Bolsonaro praticamente prometeu se tornar uma nova pessoa. Assumiu o compromisso, por exemplo, de eliminar o desmatamento ilegal até 2030. Mas, como bem lembraram o presidente Lula e a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, em artigo, o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia registrou, no mês passado, novo recorde no desmatamento, de 216% a mais em relação a março de 2020.

Bolsonaro também defendeu a ajuda financeira por parte de países mais ricos para que nações como o Brasil possam preservar seus recursos naturais. Espera que se esqueçam de quando esnobou esse tipo de auxílio, após Alemanha e Noruega suspenderem o repasse de quase R$ 190 milhões para o Fundo Amazônia, em 2019, justamente em razão do forte desmatamento que seu governo promoveu.

“Ao falar na Cúpula do Clima, Jair Bolsonaro, usou como defesa os dados de avanços conseguidos em anos anteriores pelos governos do PT. Nenhuma das referências positivas apresentadas pelo presidente aos outros líderes globais foi de autoria de seu governo”, denunciou o secretário Nacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores, deputado federal Nilto Tatto (SP).

Meta de 2015

Sem Donald Trump para dar guarida à sua sanha destruidora, Bolsonaro apelou a medidas adotadas pelo Brasil durante os governos Lula e Dilma. Para posar de comprometido com o meio ambiente, afirmou o compromisso de de cortar emissões de gás carbônico em 37% até 2025 e em 43% até 2030.

Esse compromisso foi estabelecido pela presidenta Dilma Rousseff em 2015, na Cúpula do Clima de Paris. Na época, o mundo não tinha dúvidas de que o Brasil o cumpriria. Porém, após o golpe de 2016, a capacidade do país de entregar o que prometeu passou a ser questionada.

Por fim, tentando, talvez, mostrar certa originalidade, Bolsonaro prometeu que o Brasil alcançará a neutralidade climática em 2050, e não mais em 2060, como o país havia sinalizado anteriormente. Como ressalta a Folha de S. Paulo, no entanto, o governo Joe Biden recebeu a notícia com desconfiança. “A Casa Branca esperava mais. Queria um cronograma mais específico para o combate aos desmates, que mostrasse possibilidade de resultados ainda neste ano, e um plano mais ambicioso para o corte das emissões de poluentes”, informa a repórter Marina Dias.

Ou seja, Bolsonaro prometeu algo para daqui a três décadas, quando certamente não estará mais no governo, e nada disse sobre o que fará agora, que é o que lhe caberia fazer. Não por acaso, foi um dos últimos líderes a falar e discursou para ninguém, com Biden saindo da sala na hora do pronunciamento do brasileiro.