Rayssa Leal, Mayra Aguiar, Rebeca Andrade, Laura Pigossi e Luisa Stefani conquistaram feitos históricos na edição do jogos japoneses.

Por Ana Clara, do blog Elas por Elas

A emoção de Dayiane dos Santos torcendo pela ginasta Rebeca Andrade deu o tom da participação das brasileiras nas Olimpíadas de Tokyo — que começou em alta com a fadinha do skate, Rayssa Leal, garantindo a prata sobre as rodinhas. A delegação brasileira dessa edição contou com 302 atletas, sendo 140 mulheres. Dos oito atletas que levaram medalha até agora, quatro são mulheres.

Rayssa Leal, de apenas 13 anos, foi a mais jovem medalhista olímpica do Brasil. A judoca Mayra Aguiar levou o bronze e se tornou a primeira mulher a ter três medalhas olímpicas em esporte individual em sequência —  Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020.

A ginasta Rebeca Andrade conquistou prata no individual geral e ouro na categoria salto da Ginástica Artística. Junto com a dupla Laura Pigossi e Luisa Stefani, que ganharam bronze no tênis, o trio foi pioneiro em trazer medalhas para o país em suas respectivas modalidades.

“As mulheres demonstram que são capazes de brilhar apesar das adversidades. Em um país que o governo não investe e não valoriza em esporte, a trajetória delas deve servir de exemplo para exigirmos políticas públicas nessa área; e não individualizar e jogar sobre as costas das atletas o peso da falta de incentivo”, explica Anne Moura, secretária nacional de mulheres do PT.

Rebeca Andrade é um dos exemplos que o incentivo da família definiu a carreira. A mãe da atleta, empregada doméstica e mãe solo de sete filhos em Guarulhos, na Grande São Paulo, dona Rosa apoiou o talento da filha desde cedo. O equipamento público da Prefeitura de Guarulhos também foi essencial para que Rebeca conseguisse desenvolver suas habilidades.

“Investimento público no esporte garante que a gente não perca talentos por falta de oportunidades. Não se chega a uma medalha olímpica do nada, sozinha, é preciso uma rede de apoio e incentivo para que a atleta alcance seu espaço”, ressalta Anne.

Elas lutaram para estar nas Olimpíadas.

A paridade de gênero nas Olímpiadas de Tóquio estão garantidas na quantidade de atletas e já se apresenta ao mundo como a maior participação feminina de todas as edições até hoje. Na delegação brasileira, elas estão quebrando recordes e fazendo história. Mas nem sempre foi assim.

 

Os Jogos Olímpicos surgiram na Grécia antiga, na cidade de Olímpia, por volta de 776 a.C., e as mulheres não podiam sequer assistir aos jogos. No final do século 19, elas começaram a assistir, mas não podiam competir. A justificativa era que elas não tinham preparo físico adequado.

No Brasil, a participação feminina nos esportes também era proibida, conforme o Decreto-Lei n.º 3.199, de 14 de abril de 1941, que estabeleceu as bases de organização dos desportos em todo o país na época:

 “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país” (Art. 54).

Essa proibição dizia respeito principalmente à prática do futebol, por ser o esporte mais popular do Brasil e considerado agressivo e violento, mas se estendia a toda modalidade semelhante.

Em 1896, ocorreu o primeiro protesto. A atleta grega Stamati Revithi correu uma maratona de 40km, no dia seguinte à corrida oficial dos homens, do lado de fora da arena, como forma de reivindicar a participação das mulheres.

Nas Olimpíadas de Paris, em 1900, as mulheres puderam participar no modo “café-com-leite”. Elas não ganhavam medalhas iguais aos homens, apenas um certificado de participação. Nessa ocasião, 22 mulheres competiram nas modalidades do Golfe e do Tênis, pois o Comitê Olímpico Internacional considerou esses esportes mais adequados por não haver contato físico. A partir daí, a luta seguiu pela inclusão de mais modalidades com participação de mulheres.

Já no Brasil, a lei que proibia as mulheres de praticarem esportes foi revogada somente no ano de 1979. Depois de 38 anos que as medalhas passaram a ser entregues às atletas brasileiras.

Elas conquistaram medalhas de ouro e prata no vôlei de praia, de prata no basquete e de bronze no voleibol, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Essa edição é considerada um marco para as atletas brasileiras, pois as medalhas representam a superação dos desafios que tiveram de enfrentar para poder ter o direito de competir, treinar e praticar outros esportes.

Apenas em 2012, nas Olimpíadas de Londres, a participação feminina foi estendida para todas as modalidades que os homens participaram. Mais de um século depois da primeira conquista.

Apesar da paridade de gênero na participação das modalidades, a igualdade de gênero ainda é um longo passo para as atletas de todos os países. Polêmicas em torno das roupas que as atletas usamo tipo de cabelo, a saúde mental ainda cercam e pesam a participação das mulheres nos Jogos Olímpicos.