Líder de ocupação no Vera Cruz diz ter título de doação,  quer assentar 165 famílias sem-teto e cobra políticas públicas da União, Estado e Região Metropolitana.

Por Renato Dias,

Especial para o Onze de Maio

 Oitenta e seis famílias. O que corresponde, hoje, em fevereiro de 2019, a 150 pessoas. À es­pe­ra de um teto. De uma moradia. Para o exercício da cidadania. É o cenário, desolador, de uma ocupação no Conjunto Vera Cruz. Homens, mulheres, crianças, idosos. Em situação de vul­ne­rabilidade social. De pobreza extrema. Em preto e branco. Poeira, ausência de infraes­trutura de energia, água tratada, esgoto, rede educacional, transporte público de qualidade, unidades de saúde. De excelência. Em Goiânia. A Capital do Estado de Goiás.

O movimento resiste desde o ano trágico de 2016. Com um título de doação. Um documento oficial de posse. Expedido pela Prefeitura Municipal de Goiânia. O titular à época da Secretaria Municipal de Planeja­men­to era o advogado Sebastião Ferreira Leite. Sob a gestão do então prefeito de Goiânia, o mé­dico Paulo de Siqueira Garcia [PT], morto em 2017. A ocupação foi hegemonizada pelo Movi­mento dos Trabalhadores Sem Teto. Liderado por Rogério da Cunha. De 37 anos de idade. A referência em Goiás do cientista social e mestre em Psquiatria, Guilherme Boulos, dirigente nacional do MTST, ‘rotulado de terrorista’ pelo novo presidente da República, Jair Bolsonaro.

Tensão aguda

Nascido em Brasília [DF], a Capital da República, Rogério da Cunha relata, com exclusividade, sob aguda tensão, que a Igreja Evangélica Neopentecostal Assembleia de Deus, em Goiás, teria movido uma ação judicial para tentar recuperar a área que pertence ao município de Goiânia e cedida para o assentamento dos sem-teto.

A área, cobiçada pela Teologia da Prosperidade e pela classificada especulação imobiliária, possui 8 mil e 300 metros quadrados. “A juíza de Direito da 17ª Vara Cível, Rosana Fernandes,  chegou a ir ao local, promoveu audiência e determinou que a Prefeitura Municipal de Goiânia manifestasse no devido processo legal”, explica ele.

O ativista social narra, em tom de lamento, que Agenor Mariano [MDB] optara pela anulação do Termo de Doação da Área Pública. Apesar da resolução do Executivo Municipal, a ocupação continua com 86 famílias, pelo direito à moradia, dispara. O MTST permanece com as portas de negociações abertas, revela. Para a inclusão das famílias de Sem-Teto nos programas de Habitação Popular do Poder Público, diz. É a terceira ocupação, frisa. A primeira ocorreu, em 2015, em Aparecida de Goiânia, informa.

– Com negociação e dispersão. A segunda, depois, no bairro Santa Fé, em Goiânia. Com um despejo relâmpago. Em apenas 13 horas. Com um acordo, 93 famílias foram assentadas.

Rogério da Cunha, o líder do MTST, em Goiás, denuncia ter sido alvo de suposta ameaça de violência policial. Quando? Na última quinta-feira: 21 de fevereiro de 2019. Horário: 23h45. Três armas teriam sido mostradas para a vítima e duas apontadas.

O episódio ocorreu no Acampamento Fidel Castro, frisa. A ocupação do MTST teria sido definida pelos acusados como ilegal, invasão à propriedade privada e os sem-teto chamados de ‘Bandidos de Invasões’, desabafa. A Câmera de Segurança da ocupação registrou, sim, as cenas, aponta o dirigente social e político.

Leitor de Guilherme Boulos, um marxista renovado e adepto das ideias de Sigmund Freud, o Pai da Psicanálise, e de textos de Plínio de Arruda Sampaio, o ameaçado admite curtir, nas horas vagas, Música Popular Brasileira, como a produzida no Nordeste do Brasil, por ícones como Zé Ramalho. Um seguidor das ideias e métodos de Karl Marx, Friedrich Engels e de Vladimir Ilich Ulianov, codinome Lênin, líder da Revolução Russa de 26 de outubro ou 7 de novembro de 1917, ao lado de Lev Davidovich Bronstei, nom de guerre Leon Trotski.

Solidariedade

O Comitê de Defesa dos Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno emitiu uma nota de solidariedade ao MTST, ao Acampamento  Fidel Castro e a Rogério da Cunha. Leia abaixo.

 

Moção de Apoio

O Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno vem a público manifestar seu apoio às famílias da Ocupação Fidel Castro, do MTST, em Goiânia (Goiás) que está integrada à luta nacional dos movimentos sociais por moradia, dignidade e direitos humanos no Brasil.

Expressamos nossa solidariedade com as crianças, idosos, mulheres e homens acampados em condições extremamente vulneráveis e exortamos o poder público a cumprir sua função constitucional de garantir a todos segurança e proteção, além dos direitos básicos à saúde, educação, cultura e emprego.

Diante de uma realidade preocupante de violações de direitos e retrocessos, a ampla rede de 80 entidades, que constitui o Comitê, reafirma seu compromisso de acompanhar todo o desenrolar dos fatos ligados à situação das famílias acampadas, exigindo o respeito à vida humana e ao direito de se organizar para lutar por habitação popular,  igualdade e justiça.

Goiânia, 22 de fevereiro de 2018

 

 

Organizações que compõem o comitê: 

 

1 – Associação Mulheres na Comunicação

2 – Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB

3 – Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde – ANEPS/GO

4 – Associação Brasileira de Agroecologia – ABAÇO

5 – Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária- ABRAÇO-GO

6 – Associação dos Geógrafos do Brasil – AGB – Seção Goiânia

7 – Associação Mulheres na Comunicação

8 – Cajueiro – Centro de Formação, Assessoria e Pesquisa em Juventude

9 – Central de Movimentos Populares – CMP-GO

10 – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB

11 – Central Única dos Trabalhadores – CUT

12 – Centro Acadêmico 11 de maio – Direito UFG Cidade de Goiás

13 – Centro Acadêmico de Farmácia

14 – Centro Cultural Cara Vídeo

15 – Centro Cultural Eldorado dos Carajás

16 – Centro de Estudos Bíblicos- CEBI

17 – Curso de Verão

18 -Coletivo Balaio do Cerrado

19 – Coletivo Feminista Pagu

20 – Comissão Brasileira de Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

21 -Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação da Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB

22 – Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil

23 – Comissão Pastoral da Terra – CPT Goiás

24 – Comissão Pastoral da Terra – CPT Nacional

25 – Comitê em Defesa da CELG

26 – Comunicativa/Centro Cultural Cara Vídeo

27 – Comunidades Eclesiais de Base – CEBS

28 – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CONTEER

29 – Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB Regional Goiás

30 – Consulta Popular – CP

31 – Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais na Agricultura do Estado de Goiás – FETAEG

32 – Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar de Goiás – FETRAF-GO

33 – Fórum Goiano de Saúde Mental

34 – Fórum do Grito dos Excluídos/as

35 – Fórum Goiano Contra as Reformas da Previdência e Trabalhista

36 – Nucleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular – NAJUP/ UFG

37 – Grupo de pesquisa em Comunicação Popular: Magnífica.

38 – Grupo de Pesquisas sobre Trabalho, Território e Políticas Públicas – TRAPPU / UFG

39 – GWATÁ Núcleo de Agroecologia e Educação do Campo – UEG

40 – Instituto Brasil Central – IBRACE

41 – Irmandade Brasileira Justiça e Paz – IBRAPAZ

42 – Jornal Brasil de Fato

43 – Juristas pela Democracia de Goiás

44 – Unidade Popular – UP

45 – Sindicato dos Trabalhadores Técnicos-Administrativos em Educação das Instituições Federais Superior do Estado de Goiás

46 -Levante Popular da Juventude

47 – Mandato Popular Deputada Delegada Adriana Accorsi

48 – Mandato Popular do Deputado Rubéns Otoni

49 – Conselho Regional de Serviço Social – CRESS

50 – Movimento Camponês Popular – MCP

51 – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST Goiás

52- Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST

53 – Movimento Goiano dos Juristas pela Democracia

54 – Movimento Nacional da População em Situação de Rua de Goiás – MNPR-GO

55 – Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH

56 – Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua – MNMR

57 – Movimento Popular Terra Livre

58 – Nação HIP HOP Brasil

59 – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Geografia Agrária e Dinâmicas Territoriais – NEPAT

60 – Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Direitos Humanos UFG (NDH-UFG)

61 -Núcleo Interdisciplinar e Interinstitucional de Pesquisas Marxistas – Nupemarx

62 -Núcleo de Direitos Humanos de Rio Verde e Região

63 – ONG Eles por Eles

64 – Associação dos Policiais Antifascistas

65 -Partido Comunista do Brasil – PC do B

66 – Partido dos Trabalhadores – PT

67 – Partido Socialismo e Liberdade – PSOL

68 – Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP

69 – Programa de Direitos Humanos da PUC – PDH-PUC

70 – Sindicado dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde de Goiás- Sindsaúde

71 -Sindicato dos Auxiliares em Administração Escolar do Estado de Goiás – SINAAE

72 – Sindicato dos Assistentes Sociais

73 – Sindicato dos Jornalistas –SINDJOR

74 – Sindicato dos Servidores Públicos Federais de Goiás – Sintsep

75 -Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Goiás – SINTEGO

76 –  Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas no Estado de Goiás (STIUEG)

77 -Sindicato dos Assistentes Sociais do Estado de Goiás – SINDASEG

78 – Sindicato dos Trabalhadores em Instituições Federais de Educação – Sint-Ifesgo

79 – Sindicato dos Professores do Estado de Goiás – Simpro

80 – União Brasileira de Mulheres – UBM

81 – Grupo de Pesquisa Espaço, Sujeito e Existência Dona Alzira – UFG

82 – Unidade Popular – UP

83 – Movimento dos Policiais Antifascismo

84 – Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBT – RENOSP

85 – Movimento Comunitário Trabalhista.

86 – CONAM- Confederação Nacional das Associações de Moradores.

87 – Diocese Anglicana de Brasília, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

 

*Renato Dias, 51 anos de idade, é graduado em Jornalismo. Mais: formado em Ciências So­ciais, pela Universidade Federal de Goiás. Com pós-graduação, especialização, em Políticas Públicas, na UFG. Curso de extensão em Gestão da Qualidade e Excelência. Mestre em Di­reito, Relações Internacionais e Desenvolvimento, pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás Aluno extraordinário do Doutorado em Psicologia Social, da Pontifícia Universidade Ca­tólica de Goiás. É autor de 15 livros-reportagem. Com dezenas de premiações. Locais e na­cio­nais. A sua área de concentração é ditaduras, socialismos, revoluções perdidas, assim como o Direito Internacional dos Direitos Humanos. É torcedor do Vila Nova Futebol Clube.