David Walubila Mwinyi, Supervisor de Dados Médicos de Médicos Sem Fronteiras  em Kivu do Sul, na República do Congo, relata as dificuldades para o controle da doença e apoio à população.

MSF – Congo –  O primeiro caso confirmado de COVID-19 foi relatado aqui na República Democrática do Congo (RDC), no início de março, perguntei-me imediatamente como as pessoas sabiam sobre ele e se realmente era o primeiro caso. Outros casos haviam passado sem serem divulgados?

Embora haja um número baixo de casos confirmados na RDC, é mais provável que isso esteja relacionado ao fato de poucos testes serem realizados no país até o momento. Atualmente, existe apenas um laboratório que pode analisar amostras e ele está na capital do país, Kinshasa. Este laboratório pode executar cerca de cem testes por dia, para um país de 80 milhões de pessoas. No entanto, mesmo que as pessoas consigam chegar a uma unidade de saúde para fazer um teste, ainda existem grandes desafios logísticos em obter esses testes nas áreas rurais de Kivu do Sul, onde trabalho, até Kinshasa. No momento, o tempo médio de espera pelos  resultados é de cerca de uma semana.

Uma das minhas principais preocupações quando se trata de uma pandemia de tais proporções atingindo a RDC é a desinformação ou a informação falsa. Com muita frequência, as pessoas não têm fontes confiáveis de informação, como especialistas médicos reconhecidos que estão trabalhando neste novo vírus ou no Ministério da Saúde. Em vez disso, eles obtêm suas notícias de fontes não controladas e geralmente não confiáveis por meio das mídias sociais, especialmente do WhatsApp. Essas fontes, na maioria dos casos, espalham rumores em vez de verdades. Sem comunicações oficiais claras, é difícil para todos, até para mim, discernir a verdade.

 

A desinformação também torna as pessoas vulneráveis ainda mais vulneráveis

Em todo o país – especialmente na região leste, que ainda é volátil após décadas de instabilidade, guerra e conflito -, temos vários grupos de pessoas já muito vulneráveis. Isso inclui pessoas com diabetes ou pressão alta e pessoas que já foram afetadas por algumas das doenças que mais matam na região, como malária e infecções respiratórias agudas, ou outras doenças como sarampo, cólera, HIV/AIDS, tuberculose (TB), desnutrição ou até Ebola. Como médico, é com essas pessoas que estou muito preocupado, pois ainda nem sabemos como o vírus se comportará com essas condições pré-existentes.

Muitos desses grupos vulneráveis já enfrentam estigmatização dentro de suas comunidades. Minha preocupação é que, se eles se infectarem com a COVID-19, e com tantos mitos e desinformação, eles enfrentarão ainda mais estigmatização, dificultando ainda mais suas vidas.

 

A fome faz com que as UTIs pareçam um problema distante

Para piorar a situação, agora que todas as fronteiras estão fechadas, é muito difícil não só obter suprimentos diários, mas também equipes humanitárias e suprimentos médicos para ajudar a combater a COVID-19. Equipamentos médicos, como ventiladores, são urgentemente necessários. Existem apenas cerca de 40 ventiladores aqui no Kivu do Sul e todos eles estão aqui na capital, Bukavu. Esses 40 ventiladores terão que atender a uma população de vários milhões. Simplesmente não é suficiente.

Alguém pode perguntar: já pensamos em criar unidades de terapia intensiva (UTIs) no passado? É uma pergunta difícil quando as pessoas aqui na RDC ainda estão morrendo de fome. A fome faz com que as UTIs pareçam um problema distante Nem sequer temos dinheiro para garantir comida suficiente para todos, e muito menos para os ventiladores.

 

Não podemos comparar a RDC com a Europa

Essa é uma das razões pelas quais as comparações entre os sistemas de saúde aqui na RDC e os da China ou de alguns outros países ocidentais parecem inadequadas em nosso contexto. Mesmo quando se trata de medidas de prevenção, se você deseja que as pessoas lavem as mãos com água e sabão, você precisa fornecer água e sabão. A realidade aqui é que muitos simplesmente também não têm acesso. Se eles nem sequer têm comida, por que teriam sabão?

É especialmente difícil explicar a uma comunidade que vem se comportando de uma certa maneira por gerações para que mude seus costumes com o objetivo de evitar consequências negativas à saúde. Medidas como o distanciamento social são muito difíceis de explicar, mas também de implementar. As pessoas estão acostumadas a apertar as mãos quando se encontram, especialmente com os mais velhos. Não fazer isso pode ser visto como um sinal de desrespeito, algo contra a tradição e que pode causar problemas, principalmente nas comunidades rurais.

Há muito ceticismo em grande parte da população. Muitas pessoas me perguntam quantas pessoas morreram de COVID-19 aqui, em comparação com malária, sarampo e diarreia. As respostas muitas vezes exacerbam a confusão, pois a realidade é muito pequena em comparação. Mesmo para o surto de Ebola, não houve restrições de movimento, como as provocadas pela COVID-19, ou medidas como o distanciamento social e máscaras se tornando obrigatórias para todos, sem uma explicação clara.

 

Devemos aprender com outras epidemias e ouvir as comunidades

As pessoas estão acostumadas a epidemias, infelizmente são comuns aqui. Há algo que podemos – e devemos – aprender com elas. O mais importante é ouvir as comunidades e reconhecer as tradições que elas tanto prezam, conversando com os líderes da comunidade. Precisamos reconhecer que a COVID-19 é apenas uma das muitas emergências médicas ou humanitárias com as quais elas se deparam diariamente. Durante o surto de Ebola, muitas pessoas com outras doenças, como malária, ou mulheres que procuravam atendimento pré-natal, foram informadas de que não podiam receber cuidados porque não havia dinheiro para isso. O dinheiro era apenas para o Ebola. Muitas pessoas começaram a acreditar que o Ebola era apenas um negócio, que as pessoas estavam ali apenas para ganhar dinheiro e que os médicos estavam ignorando as reais necessidades da população.

Precisamos atender às necessidades das populações, continuando a prestar assistência médica geral em todo o país, conquistar sua confiança e trabalhar juntos no final do surto. E, finalmente, devemos incluir a comunidade em todas as etapas, não apenas ouvindo as pessoas, mas também empregando o maior número possível de moradores para garantir que contribuamos ativamente para o bem-estar geral e a prosperidade de toda a comunidade.

 

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